Fico pensando quanto trabalho as estrelas que iluminaram os criadores da Sociedade Brasileira de Estudos Interdiscipli- nares da Comunicação – Intercom, tiveram ao desenharem a quantidade de encontros e reencontros que aconteceriam dali em diante dentro e fora da entidade. Encontros e reencontros pessoais e intelectuais que certamente não foram ocasionais. Eu sou mais velha do que a Intercom, sete meses, mas se eu tivesse sido um pouco mais teimosa, certamente não teríamos nos encontrado. Eu tentei resistir ao curso de Comunicação Social, mas como o curso que eu almejava não existia em Be- lém na década de 1990 (Artes Cênicas), optei por Comunica- ção, por acreditar que também teria liberdade de viajar, mes- mo que em pensamento, pelo mundo.
Graduei em uma universidade particular de Belém, a Uni- versidade da Amazônia – UNAMA, uma instituição com nenhuma experiência de pesquisa em comunicação naquela época. Integrei a segunda turma de publicidade, outro desa- fio à minha ansiedade e ao meu aprendizado. Ainda existiam poucos mestres e, ouso dizer, nenhum doutor em Comunica- ção aqui no Norte, então estudar publicidade, uma área essen- cialmente funcionalista, naquele contexto, acabou sendo uma formação bastante instrumental. Por sorte, sempre existem as exceções e pela disciplina de Teorias da Comunicação fui fis- gada completa e definitivamente para a Comunicação.
Em 1998 conheci a Intercom e estive no meu primeiro Congresso, lá no Recife. Esse primeiro encontro e contato aconteceram porque, a convite de colegas de jornalismo da Universidade Federal do Pará – UFPA, aceitei fazer parte da diretoria regional Norte da Executiva Nacional dos Estudan- tes de Comunicação Social – ENECOS, e em setembro daque- le ano, fui à minha primeira reunião nas duas entidades. Eu era uma iniciante naquele meio. Na UNAMA não tínhamos contato com muitos nomes da Comunicação nacional, sequer com movimento estudantil, nem éramos estimulados a pu- blicar ou frequentar Congressos, aquela era minha primeira imersão no universo científico da Comunicação. Ali comecei a exercitar a primeira troca de lentes e compreender que existia
muito mais do que sabíamos. Lembro que os nomes mais mar- cantes para mim foram dos professores José Marques de Melo e Maria Immacolata Vassalo Lopes, pois já havia lido textos de ambos. Há uns clichês que são impossíveis de não serem usados, por serem tão bem aplicados na vida. Ir ao Congresso da Intercom reforçou a certeza de que a vida acadêmica seria a minha opção.
Apesar de ter sido seduzida pelo Congresso da Intercom e ter voltado muito entusiasmada, nunca mais estive em outro Congresso durante a graduação. Fui a outros eventos estudan- tis regionais e nacionais. Em 2000, às vésperas de me formar, estive no 5º Congresso de Produção Científica da Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, onde consegui apresentar o trabalho “A comunicação publicitária e as mudanças culturais populares”. Esse segundo contato com o universo científico da Comunicação foi provocador e me impulsionou a tentar a sele- ção de mestrado daquela universidade, mesmo sem ter defen- dido o trabalho de conclusão de curso. Não deu certo. Eu não tinha o preparo teórico exigido, mesmo me dedicando às leitu- ras da seleção. Fui reprovada na entrevista, pelo meu referen- cial bibliográfico em pessoa: professor José Marques de Melo.
A pesquisa do meu trabalho de conclusão de curso foi sobre as histórias em quadrinhos e publicidade, com o título “HQ’s: o que a publicidade tem a ver com isso?”, o trabalho, que era
um projeto experimental, sugeriu a realização da 1ª Bienal de História em Quadrinhos da Amazônia, a pesquisa conta a his- tória dos quadrinhos no mundo, na América Latina, no Brasil e em Belém e suas interfaces com a publicidade. Em 2000, o Congresso da Intercom aconteceu em Manaus, mas naquele tempo, para um estudante viajar entre estados nortistas era quase inviável, as passagens aéreas eram muito caras. E como o Congresso aconteceu no mesmo período de entrega do TCC, a prioridade era concluir a graduação.
Concluída a graduação, participei da seleção para o curso de especialização em Gestão de Processos Comunicacionais, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP, onde fui aprovada como aluna pelos pro- fessores Maria Lourdes Motter e Ismar Soares.
Muitos encontros e reencontros aconteceram desde então. Meu projeto inicial dava continuidade aos meus estudos so- bre história de quadrinhos. Escolhi uma recém-criada editora de quadrinhos, a Tronics, que tinha acabado de lançar o gibi da Luana, um projeto que objetivava resgatar a autoestima de crianças negras brasileiras. Mas a empresa faliu no segundo semestre de 2001, mesmo período em que a ECA sofreu um incêndio que eliminou parte do prédio e da memória da Esco- la, incluindo todo o acervo documental do Núcleo de Pesqui- sas em Telenovela – NPTN. Diante dos ocorridos, a professora
Maria Immacolata Vassalo Lopes, então minha orientadora, sugeriu e ofereceu que meu projeto tratasse do NPTN, que na- quele momento, ao completar 10 anos de existência, precisava recomeçar.
Diante do desafio de estudar sobre uma instituição que ti- nha acabado de perder seu acervo físico, restando apenas, e ainda bem, seu capital intelectual, meu estudo dependia das pessoas e de uma dissertação defendida naquele mesmo ano. Esse trabalho, de autoria da professora Maria Ataide Malcher – hoje professora da UFPA e coordenadora do PPGCOM/ UFPA, foi meu livro de cabeceira para a imersão na história do NPTN. Ao longo do tempo que morei em São Paulo, e como aluna da ECA, também não consegui ir aos Congressos da In- tercom de Mato Grosso do Sul (2001) e de Salvador (2002).
Em São Paulo, além da experiência acadêmica, tive a opor- tunidade de me aproximar de referências da publicidade bra- sileira, entre elas Júlio Ribeiro, responsável pela valorização da pesquisa e do planejamento publicitário no Brasil, minhas áre- as de atuação na publicidade. Integrei a equipe de pesquisa da Agência Talent por cinco meses como estagiária-voluntária, além de alguns trabalhos como freelancer em empresas de pes- quisa e na extinta agência Salles D’Arcy.
Outra experiência extremamente salutar foi lecionar no curso técnico-profissionalizante de Estilismo e Coordena-
ção de Moda do SENAC-SP, onde ministrei as disciplinas de História da Moda I e II e Gestão de Marcas. O trabalho foi feito com estudantes do ensino médio de escolas públicas de bairros localizados nas periferias da cidade, nesse período, convivi com jovens, a maioria meninas, dos bairros do Ca- pão Redondo e da Lapa. Todas as experiências vividas em São Paulo foram determinantes para as decisões que eu tomaria para o futuro.
Quando concluí a especialização, voltei a Belém e imergi no mercado publicitário local. Paralelamente lecionei eu duas instituições de ensino superior particulares. Segui com essa vida dupla por alguns anos, até que em 2007, depois de uma rápida atuação como professora substituta na UFPA, cedi ao mercado e parei de lecionar. A decisão foi tomada, também, pelo incômodo de não me sentir mais à vontade de lecionar sem o stricto sensu. Mas em Belém não tínhamos ainda um programa de Comunicação.
Ainda em 2007 houve o VI Congresso Brasileiro de Ciên- cias da Comunicação da Região Norte – Intercom Norte, na UFPA, em Belém. Aquele ano foi um divisor de águas para nossa região. Reunir tantos alunos e professores de Comuni- cação para um congresso regional da Intercom trouxe colabo- rações não mensuradas ou previstas anteriormente. Daquele momento em diante, nunca mais fomos os mesmos. Passamos
a nos enxergar melhor e ver as várias Amazônias que somos, integrados em nossas diferenças e diversidades, conectados e de olhos e ouvidos abertos às oportunidades de encontros e reencontros que surgiriam a partir dali. As barreiras geográ- ficas não deixaram de existir, nem os choques culturais, mas aprendemos a dar saltos muito altos e desde então, a Comuni- cação vem se legitimando e consolidando por aqui.
Já são cinco anos sem lecionar. Mesmo sendo uma pausa inquieta e nada tranquila, tenho considerado-a como neces- sária, favorável e tem me ajudado a perceber a importância de atuar como pesquisadora e docente. Quando eu voltar à sala de aula, estarei mais amazônida e amazônica, e certamente em melhores condições de colaborar com a formação de tan- ta gente que procura por essa área, tanto como opção para o mercado de trabalho, como pelo interesse à pesquisa. Eu acre- dito de fato que a docência é um presente e uma oportunidade de aprendizado que nos permite a experimentação constante e releitura frequente de paradigmas nos quais acreditamos ou discordamos, como forma de rever nossa percepção e compre- ensão a respeito de nossa própria área. A docência nos permite a revisitação em nós mesmos.
E como eu sempre soube que sentiria a hora certa de me dedicar à Academia, em fevereiro de 2010 decidi que estava na hora de enfrentar o mestrado. Como ainda não havia o curso
em nenhuma universidade pública de Belém, decidi que iria embora novamente, para uma nova empreitada acadêmica. Mas tive que desarrumar a mala, pois soube pelo twitter que finalmente o primeiro programa de mestrado em comunica- ção da UFPA, o segundo da região Norte, havia sido aprovado pela CAPES. E então ir embora de Belém para estudar sobre a Amazônia em outro lugar, não fazia mais sentido. Nesse mo- mento eu já havia abdicado do mercado publicitário, estava em uma ONG ambientalista de estudos sobre a Ilha do Marajó e em um escritório de Design, cujo foco é a sustentabilidade, tentando encontrar um espaço de participação do debate para a Comunicação.
Fiz a inscrição para a primeira seleção, mas o anteprojeto não foi aprovado. Resolvi ser ouvinte e em meio às aulas, fiz um pedido de socorro à coordenadora do programa, professo- ra Maria Ataide Malcher, cujo socorro chegou como o de um cavalo selado que passa à nossa porta raríssimas vezes, oito anos depois de sua dissertação ter sido o meu socorro. Em ou- tubro de 2010, reiniciei meu processo de regresso à Academia. Um caloroso e conturbado reencontro.
Em 2011 fui ao Congresso Nacional da Intercom, em Re- cife novamente, após treze anos de uma espera nada paciente. Sem apresentar nenhum trabalho, estive no Congresso com a missão de também divulgar a Conferencia de Mídia Cidadã
que aconteceu na UFPA no mesmo ano. Nessa oportunidade, mais uma vez foi possível ver a região Norte bem de pertinho, mesmo fora de casa. Encontrei e reencontrei novos e velhos amigos, professores, mestres e pesquisadores de referências pelo trabalho em prol da consolidação da área. Infelizmente não pude ir ao Intercom Norte, mas acompanhei cada passo quase que em tempo real. Compreendi como é difícil realizar um Intercom regional. O trabalho é árduo, cansativo e muito difícil, mesmo assim é impossível não notar os benefícios de se manter os eventos como forma de atrair novos estudantes e de fortalecer os participantes experientes.
Pela primeira vez estive na premiação do EXPOCOM e fi- quei extremamente emocionada de ver a região Norte tão bem representada pelos estudantes. Foi uma experiência vibran- te! Difícil não ser bairrista em momentos assim. Foi especial assistir também alguns passinhos de dança do professor José Marques de Melo no palco da premiação. Juventude e matu- ridade trocando a mesma energia, se reenergizando juntos e mutuamente. Que delícia voltar a esta casa! Que felicidade confirmar que meu coração estava certo quando sinalizou que era chegada a hora dessa dedicação.
A Intercom me abriu os braços com muita generosidade e, ali, meu anteprojeto para a seleção de mestrado ficou mais nítido e eu mais confiante. Foi lá no Recife que sonhei que, em
2012, eu voltaria como mestranda e apresentando meu pri- meiro artigo em um Congresso da Intercom, já com meu obje- to de pesquisa: divulgação científica. Por causa desse sonho foi que, ainda no aeroporto do Recife, precisei abrir a mala para tirar alguns livros, da dezena comprada, evitando o sobrepeso da bagagem. Sou louca por livros, mas certamente nunca uma compra tinha sido tão intensa!
Na volta, os esforços em Belém foram para organizar a VII Conferência Nacional de Mídia Cidadã e II Conferência Sul-Americana de Mídia Cidadã, na qual foi possível nova- mente reencontrar os novos e os velhos amigos vistos em setembro.
E aquilo que já era bom, ficou impronunciável. 2012. O me- lhor ano do resto de minha vida. Piegas mesmo, como uma carta de amor: fui aprovada na seleção do PPGCOM da UFPA, em Comunicação, Cultura e Amazônia. Quanta coisa foi pos- sível desde outubro de 2010! O programa de pós-graduação da UFPA tem sido transformador, tanto para as pessoas quanto à área. É uma dezena de novos pesquisadores sendo formados e alguns certamente serão grandes referências em poucos anos. Há muito trabalho a fazer, as coordenadoras parecem incan- sáveis diante das metas ousadas que buscam cumprir e das conquistas que almejam para a região, para isso, as luzes dos corredores tem estado acesas quase que ininterruptamente.
A coordenação do PPG- COM/UFPA tem nos opor- tunizado uma trajetória de muitas possibilidades. Como mestranda, participei de meu segundo Intercom Norte, apresentando meu primeiro artigo em uma etapa regio- nal do Congresso da entida- de. Foi um novo reencontro com a pluralidade da região. Fui ao XXI Encontro da As- sociação Nacional dos Pro- gramas de Pós-Graduação em Comunicação – COM-
PÓS e à reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, pela primeira vez e como expositora.
No Intercom Nacional, em Fortaleza, vi Belém ser desta- que no Congresso com uma premiação histórica. E ao receber esse prêmio, Belém não “falava” apenas por si, estava pela re- gião Norte e por todo o esforço conjunto que se tem feito para participarmos e contribuirmos com a área. Nossa pluralidade, diversidade, etnias, identidades, tudo reunido em uma única placa. Reencontrei pessoas importantes na minha formação
de graduação, e redescobri sua generosidade. E a mesma ge- nerosidade teórica dos autores que li e leio, no ano de 2012 viraram sorrisos e olhares de “bem-vinda”.
Ainda lamento que a participação em Belém seja maciça- mente representada pela UFPA. Penso que as demais universi- dades e faculdades precisavam viver essa experiência. Pode ser uma utopia, mas eu acredito que é possível realizá-la. UNA- MA, FEAPA, FAP, Ipiranga, ESAMAZ ... são todas instituições de ensino superior, particulares, de Belém, e que poderiam somar seus trabalhos aos da UFPA para tornar a região Norte ainda mais representativa, como já fazem os colegas de outros estados nortistas.
Um resgate é necessário. Em 2005 fui bolsista no Museu Pa- raense Emílio Goeldi – MPEG, na Assessoria de Comunicação Social – ACS, no projeto “Ciência e Sociedade: Comunica-
ção e Educação para a Preservação Ambiental e Cultural na Amazônia Oriental Brasileira”, com o subprojeto “O Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi como ca- nal de comunicação entre ciência e sociedade”. Foi no Mu-
seu, por meio da Comunicação, que eu conheci a divulgação científica. Hoje, pelo caminho da minha proposta de pesquisa, penso que é pela divulgação científica que venho entendendo a complexidade da ciência. Foi pelo diálogo ciência-comuni- cação, vivenciado inicialmente no MPEG, que pude perceber
o quanto a sociedade precisa ser envolvida pela produção científica realizada na Amazônia e foi também pela comple- xidade daquela instituição que compreendi a complexidade da região amazônica. Consequentemente, todo esse cenário favoreceu para eu mesma me entendesse enquanto ser ama- zônico. Enquanto mestranda, estou retornando ao Museu, ao “LabCom Móvel – Estudos e Práticas de Comunicação Pública da Ciência na Amazônia”. Não como bolsista direta, mas como uma apaixonada e uma pretensa colaboradora.
Aqui em 2012, hoje, agora, sou Geração Intercom e há um significado muito grande nisso, para mim. Eu, que tanto fui e vim à Academia. Uma velha amiga rejuvenescida pelos novos olhares, novos exercícios e pelas novas oportunidades. Tive a oportunidade de ser caloura em uma banca de EXPOCOM, apresentei meu primeiro artigo no Congresso Brasileiro de Ci- ências da Comunicação e, novamente reencontrei o professor José Marques de Melo, onze anos depois.