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O Jovem e a Comunidade

No documento alinepereiradeavellar (páginas 46-49)

Todos os jovens entrevistados moram em áreas periféricas de Juiz de Fora, nas quais os instrumentos públicos, em menor ou maior grau, são precários e/ou muitas vezes inexistem. Mathias, 13 anos, Ramiro, 13 anos, e Ramon, 13 anos, residem na mesma comunidade. Os três afirmaram gostar do local onde vivem com a família, devido à presença de amigos e às brincadeiras realizadas em via pública.

Ramiro, apesar desta afirmativa, revelou com frustração o fato de uma conhecida de sua irmã, de 15 anos, ter associado a prática do ato infracional (estupro de uma menina de 10 anos) à comunidade na qual o jovem reside.

“Fora daqui (do Programa Liberdade Assistida), às vezes, a gente ouve piadinha. Tem uma colega que morava lá perto de casa e que mudou para o Santa Terezinha (bairro). Aí, a colega dela até ligou prá minha irmã prá falar que o que aconteceu tinha que ser no meu bairro mesmo, aquele buraco. Aí, minha irmã falou que ela só falava isso, porque não conhecia a gente”(RAMIRO, 13 anos).

No grupo, Gaspar, 15 anos, foi o único a enfatizar a necessidade de o Executivo Municipal investir em programas culturais e lazer em sua comunidade. É

válido destacar que o local onde Gaspar reside é um dos mais próximos da área central de Juiz de Fora, na comparação com os bairros dos demais entrevistados.

“Lá é bom. Só que eu não gosto, porque tem muito pouca coisa. Não tem outra atividade. Não tem nada de lazer, só uma praça, mas nem sempre dá prá ficar na praça. Praticamente dez horas da noite já tá todo mundo dormindo! Ah! Sei lá! Tinha que ter algumas atividades da prefeitura prá gente pode fazer, prá poder melhorar mais, né? Lá não tem nada!” (GASPAR, 15 anos).

Além de só dispor de uma praça, uma quadra esportiva e um clube privado, o bairro não tem, segundo Gaspar, escola, posto de saúde, posto policial, nem associação de moradores.

Apenas uma parcela dos entrevistados mencionou problemas relacionados à criminalidade, tais como tráfico, assaltos, furtos e brigas, na comunidade onde reside. Baltazar, 18 anos, relatou a perda de um amigo, morto num confronto com adolescentes de um bairro vizinho. O conflito, segundo ele, teria cessado, após o acautelamento de algumas lideranças.

“Bom, até um certo tempo é bom morar lá. Igual, um tempo prá trás, tinha muita briga com o bairro vizinho, chegaram a matar um colega nosso. Tem rixa ainda, né! Só que a maioria agora tão preso (acautelados na Região Metropolitana de Belo Horizonte). Aí, não tá tendo mais aquela briga que tinha todo dia” (BALTAZAR, 18 anos).

O jovem afirmou que a utilização de armas de fogo era freqüente nos confrontos entre jovens de bairros vizinhos.

“Acho que tem sete presos. Igual, o meu vizinho chegou até a morrer lá, levou pedrada por causa de briga, né! Aí, eu moro no meio. Aí, tem uma rua, outra rua e o escadão. Aí, do escadão prá lá já é outro bairro. Aí, quando eles tava solto, era todo dia dando tiro prá baixo, jogava pedra, soltava foguete e os moleque respondia de baixo prá cima. Aí teve um que tomou tiro na cara!” (BALTAZAR, 18 anos).

Baltazar não soube precisar quais seriam as causas da rivalidade, no entanto, descartou a possibilidade de as brigas terem origem nos bailes funk, como, de modo geral, noticiam os veículos de comunicação de massa. Uma de suas suposições é que os confrontos sejam causados pela proximidade entre as comunidades.

“Ah, isso aí já é antigo mesmo! De baile funk não é, não. É que os bairro são muito próximo. Aí, quando os bairro tão apaziguado, não tem quem brigar com quem. Aí, um bairro vai no pagodinho do outro. Aí, lá um pega e viaja e vai bater num. Aí, volta tudo de novo! Aí, um vai comprando barulho de outro, e só vai aumentando até formar a gangue que tinha de antes, até um querer matar o outro” (BALTAZAR, 18 anos).

O jovem revelou, ainda, já ter participado de confrontos do gênero, antes de ingressar no Programa Liberdade Assistida. É válido ressaltar que Baltazar fez a declaração como se narrasse cenas de um filme de aventura. Em resumo, o jovem parece regozijar-se com a referida experiência. Todavia, informou ter abandonado as “disputas de território”, depois de ver um amigo ser ferido a tiro.

“Foi no tempo que eu cheirava cola. Aí eu tava estudando do lado ali (próximo ao bairro vizinho). Eu ficava lá todo dia direto, ia prá casa, tomava banho, aí eu voltava lá de novo. Aí, tava tendo festa de rua, aí, eu peguei e tava com um pouquinho de cola. Já tinha cheirado mais antes, né! Aí, eu comprei dois copinho de Contini (bebida alcoólica), e tamo indo embora. Aí, os moleque começa a atirar prá cima da gente! Eu não entendendo nada, lesadão, né! Tô parado no meio da rua, até que eu me dei conta e saí correndo, né! Eu e meus colega. Aí um colega meu, descendo o morro, escorregou e acertou nas costas dele. Aí, eu parei, depois que o moleque tomou tiro. Outro tomou tiro na cara! Aí eu parei!”(BALTAZAR, 18 anos).

Elias, ao contrário de Baltazar, demonstrou constrangimento ao revelar os eventos relacionados à criminalidade que ocorrem em sua comunidade. “Como que é lá? (pausa). Ah (pausa)! A gente tá lá, né!” (ELIAS, 18 anos). Segundo o jovem, o bairro é “agitado em todos os sentidos: tem crime, tem tiro” (ElLIAS, 18 anos). Entretanto, dispõe de mais instrumentos públicos, tais como posto de saúde, escola e Projeto Social Curumim (destinado ao incentivo à cultura e ao desporto e coordenado pela Prefeitura Municipal de Juiz de Fora) do que as comunidades onde residem os demais entrevistados.

O jovem, quando questionado sobre o que mudaria em seu bairro, mencionou a construção de área de lazer: “Ah... Eu fazia uma outra área perto de casa lá, porque lá não tem uma praça boa pra todo mundo, não” (ELIAS, 18 anos). Afirmativa semelhante foi feita também por Marcelino: “Ah...Muita coisa! Ah...Sei lá! Assim fazer um clube, a praça mudar ela, sabe? Tá acabada pra caramba! Colocar grama

na moral! Ah, sei lá! Lá em cima (na parte alta do bairro), só a praça mesmo!” (MARCELINO, 17 anos).

Já Patrício, 16 anos, apesar de revelar a falta de áreas de lazer, especialmente quadras para prática de esportes (“Nós pula o muro do colégio para jogar bola. Aí, a polícia vai lá e vê, e põe a gente prá fora!” - PATRÍCIO, 17 anos), avaliou a criminalidade como sendo o maior problema de seu bairro.

“Olha, o meu bairro não vou dizer que é ótimo, bom, porque tem o lado ruim e o lado bom. O lado bom é que a gente, às vezes, fica lá na rua, brinca, se diverte. O lado ruim é quando tem muita briga, boca de fumo, isso aí. Menor usando droga na rua, na cara dos outros . O lado ruim é só isso!” (PATRÍCIO, 16 anos)

Wacquant (2005, p.33) enfatiza que são inúmeros e danosos os resultados do estigma territorial, variando desde estratégias sociófobas de evasão e distanciamento mútuos à exacerbação de processos de diferenciação social interna, redução da confiança interpessoal e do engajamento na construção da comunidade e da ação coletiva.

(...) Existe o estigma de ser pobre no seio de uma sociedade rica, na qual a participação ativa na esfera do consumo tornou-se condição sine qua non da dignidade pessoal – um passaporte para a cidadania, mesmo entre os despossuídos. (...) A violência e o crime são amiúde o único meio à mão dos jovens da classe trabalhadora sem perspectivas de emprego para adquirir dinheiro e os bens de consumo indispensáveis para ascender a uma existência socialmente reconhecida (WACQUANT, 2005, p.33).

No documento alinepereiradeavellar (páginas 46-49)