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PARTE I ANÁLISE DA ARQUITECTURA MONÁSTICA E CONVENTUAL

1.3 A ARQUITECTURA DOS CISTERCIENSES

1.3.2 O Modelo Bernardino e o Projecto Cisterciense

Os tempos iniciais do “Novo Mosteiro” e da reforma de Cister apresentam muitos aspectos de difícil compreensão, como a existência de tensões no seio da Ordem, o papel de Alberic, a arquitectura e o estudo das construções monásticas dos primeiros tempos.

É no entanto possível – e desejável – estabelecer a existência de diferentes fases para a arquitectura cisterciense dos tempos medievais, o que permite simultaneamente compreender a distância entre um ideal e a realidade e, ao mesmo tempo, superar uma análise em termos de mera dicotomia entre progresso e decadência.

Apesar das observações já efectuadas por Henri Focillon quanto à dificuldade de estabelecer essa periodização na arquitectura dos cistercienses, ela é importante e

60 Léon PRESSOYRE, ob. cit., p. 24.

61 Ver a imagem do báculo in Léon PRESSOYRE, ob. cit., p. 26. 62 Marcel PACAUT, ob. cit., p. 51.

necessária63. Deve-se a Angiola Maria Romanini uma proposta de periodização privilegiando os primeiros tempos da observância cisterciense numa perspectiva em que se analisa o campo artístico na sua globalidade, tendo em conta não só a produção arquitectónica mas igualmente o trabalho do “Scriptorium” de Cister na produção da iluminura64. Sem dúvida que a observação de Henri Focillon não constituía uma posição absurda, negando a temporalidade própria do fenómeno artístico, tanto mais que este historiador da arte era um observador particularmente atento da importância da realidade temporal. Tal facto encontra-se expressamente valorizado na orientação que imprimiu aos seus trabalhos e à atenção das “formas no tempo”65.

As suas reticências tinham por base a percepção de que uma divisão rígida, em românico e gótico, como dois momentos estilísticos claros e distintos na produção arquitectónica dos cistercienses poderia ser enganadora para compreender as novidades arquitectónicas por eles trazidas. Se as duas categorias não são totalmente adequadas é porque os edifícios susceptíveis de serem enquadrados numa, ou noutra, apresentam qualidades específicas que os diferenciam no interior de um “estilo”. Daí que este autor fale explicitamente em “românico despojado”. O emprego deste termo – despojado – é vulgar na maioria dos estudos sobre a arquitectura de Cister, a par do emprego de uma planta que seria privilegiada, a planta basilical com cabeceira plana e transepto saliente66.

Nos anos 40 do século passado, duas obras – que desde então se tornaram estudos de referência, da autoria de Marcel Aubert e Henri Focillon – caracterizavam a

63 Henri FOCILLON, Arte do Ocidente, a Idade Média Românica e Gótica, Editorial Estampa, Lisboa, 1980, p. 185.

64 Angiola Maria ROMANINI, “O Projecto Cisterciense” in Georges DUBY e Michel LACLOTTE, História Artística da Europa, a Idade Média, t.II, Quetzal Editores, 1988, pp.132-141.

65 Henri FOCILLON, Vie des Forms, capV, 7ª edição, PUF, Paris, 1981.

arquitectura dos cistercienses por meio da já citada planimetria: planta basilical, transepto saliente e na cabeceira abside e absidíolos com terminação recta67.

Um avanço particularmente significativo na conceptualização da arquitectura de Cister verifica-se no congresso realizado nos anos 50 do século XX, em Dijon. Aí, Karl Esser chamou a atenção para a denominação da planta acima destacada que, em rigor, se deveria chamar “planta Bernardina” e não “planta cisterciense”68. A associação entre o nome de S. Bernardo e a planta que foi de especial predilecção dos cistercienses durante a Idade Média, levanta a questão do papel e dos meios ao dispor de Bernardo de Claraval que possibilitaram a sua divulgação pela Europa. Em rigor, não se trata somente da planimetria da igreja mas também da sua elevação, já que é geralmente esquecido que se encontram similitudes entre várias igrejas quanto ao abobadamento, idêntico ao existente na igreja de Fontenay na Borgonha, em que se emprega abóbada de berço quebrado69. O uso comum deste tipo de planta para o espaço da igreja conduziu a que vulgarmente se fale em planta tipo dos Cistercienses, utilizando-se esta designação para as igrejas levantadas pela Ordem. Esta pretensa tipicidade obriga a uma reflexão na medida em que, como já foi notado por Marcel Aubert, muitos edifícios cistercienses não a apresentam. Para este autor, a presença desta planta explica-se pelo

princípio da filiação, pelo desejo das abadias filhas copiarem a planimetria das abadias

mãe70. Este facto, apresentando-se historicamente verdadeiro ao estabelecer a existência de um autêntico modelo planimétrico para as igrejas, deixa no entanto em aberto a questão das origens desse mesmo modelo. Uma hipótese interpretativa encontra-se em Georges Duby – e é a hipótese mais vulgarmente sugerida – para quem a presença de

67 Marcel AUBERT, L’Architecture Cisterciennne en France, colaboração da Marquesa de Maillé, 2ª edição, 2 vol, Vanoest, Paris, 1967 e Henri FOCILLON, ob. cit., p. 183.

68 Karl Heinz ESSER, “Les Fouilles a Himmerod et le plan Bernardin", in Mélanges Saint Bernard, XXIV Congrés de l’Association Bourguignonne des Societés Savants (8ª Centenaire de la mort

de Saint Bernard), Association des Amis de Saint Bernard, Dijon, 1953, p. 311-315.

69 Benoît CHAUVIN, “Le plan bernardin:realités et problémes" in Bernard de Clairvaux, histoire, mentalités, spiritualité, colloque de Lyon-Cîteaux-Dijon, Les Éditions du Cerf, Paris, 1992, pp. 307-348.

linhas rectas no traçado planimétrico é uma expressão de austeridade71. No entanto, este autor limita a originalidade e o sentido desta mesma planimetria quando apresenta a arquitectura de Cister como uma arquitectura que se baseia na arquitectura de Cluny, mas “decapada”72. Importa sublinhar que, na realidade, a planimetria da igreja costuma ser associada a uma planta para todo o mosteiro, a “planta ideal”, embora vulgarmente estes dois aspectos, relacionados mas distintos, não sejam explicitados (Figura 2).

Figura 1- Planta ideal de um Mosteiro Cisterciense (adaptado de D. Maur Cocheril, 1972)

É noutra análise do mesmo autor sobre a planimetria da igreja, e da própria edificação monástica, que se fala no “quadrado” como a base de toda a construção cisterciense73. É o quadrado que se apresenta como o elemento gerador do plano Bernardino e que conduziu a que no conhecido manuscrito de Villard de Honnecourt

71 Georges DUBY, Saint Bernard, l’art cistercien, 2ª edição, Flammarion, Paris, 1979, p. 136. 72 Id. ibidem, p.75.

exista um desenho com a indicação: “igreja construída à maneira de Cister”74, o que sem dúvida corrobora o facto atrás salientado da utilização deste tipo de planta como modelo, e este se ter tornado uma autêntica imagem arquitectónica da Ordem. Esta mesma interpretação constitui, no fundo, a posição corrente na historiografia da arte no século XX.

As origens deste plano Bernardino são vistas como obscuras, avançando os historiadores com a pretendida imagem de despojamento e de austeridade, tendo presente que a cabeceira, com terminação recta, era mais económica, mais simples e mais fácil de concretizar75. Deve-se a Angiola Maria Romanini, numa perspectiva inovadora, a valorização da planta de Claraval I, consagrada em 1116, como um documento excepcional devido à fundação deste mosteiro pelo próprio S. Bernardo. Embora o edifício tenha desaparecido, ainda se mantinha no século XVIII, por constituir sem dúvida uma autêntica memória em pedra dos tempos do santo cisterciense, sendo conhecida por uma gravura realizada nessa época (Figura 3)76.

Figura 2- Imagem de Claraval I (reproduzida a partir de Peter J. Fergusson)

74 Ver a reprodução do desenho in Angiola Maria ROMANINI, ob. cit., p. 139. 75 Benoît CHAUVIN, idem, pp. 322-329.

76 Imagem reproduzida a partir de Peter J. FERGUSSON, “Les cisterciens et le roman” in Dossiers de l’archeologie, nº 229, (Citeaux 1098-1998, L’Epopée Cistercienne) editions Faton, Dijon, 1997-1998,

A planta da igreja é verdadeiramente atípica, de plano quadrado, constituída por duas estruturas quadrangulares concêntricas. Os diferentes lugares do mosteiro distribuem-se de uma forma simétrica em relação ao corpo da igreja, sugerindo o plano monástico a existência de um módulo quadrado. Apesar de esta planta constituir um caso único na planimetria cisterciense, revela um método de traçado arquitectónico utilizando precisamente esse módulo quadrado77.

Seria com Claraval II, construído por volta de 1135, que se afirmaria um projecto arquitectónico cuja existência se justifica pelas dezenas de abadias que irão surgir por toda a Europa. Estas novas fundações testemunham, nomeadamente pela planimetria, essa vontade de planificar e homogeneizar os mosteiros cistercienses, organizando-os ao pormenor. Esta realidade arquitectónica exprime também “uma eficácia e uma capacidade operacional fora do comum”78. Não devemos, no entanto, pensar nesse projecto como revelador de um modelo rígido, aplicável da mesma forma por todo o lado, mas antes susceptível de ser transformado na planta, nas dimensões e, inclusive, na ordenação do espaço monástico. Daí, como foi já salientado, a dificuldade de organizar filiações tipológicas para os edifícios de Cister79.

Depois da morte de S. Bernardo, num fenómeno já perceptível nos últimos tempos da sua vida, na reconstrução das igrejas cistercienses, de modo a serem capazes de conter um número mais elevado de monges, as igrejas aproximam-se das grandes catedrais senão pela falta de despojamento, ao menos pela escala80.

As transformações e a variedade da arquitectura dos cistercienses através do tempo, e no espaço europeu, têm igualmente que ser vistas não só face ao papel de monges e irmãos conversos na difusão de plantas e rigor construtivo, como também

77 Angiola Maria ROMANINI, ob. cit., pp. 137 e ss. 78 Id. ibidem, p. 142.

79 Léon PRESSOYRE, ob. cit., p. 94. 80 Id. ibidem, p. 12.

contando com a interacção quanto às experiências construtivas locais, apesar de autores como Anselme Dimier desvalorizarem a importância da arquitectura local81.