• Nenhum resultado encontrado

O modelo dos cinco fatores de personalidade

CAPÍTULO 2 – REFERENCIAL TEÓRICO

2.3. Personalidade

2.3.1. O modelo dos cinco fatores de personalidade

O modelo dos cinco fatores é a abordagem dominante na atualidade para representar a estrutura de traços do homem. É considerado a base para uma representação adequada da estrutura da personalidade (Pervin & John, 2004). Segundo Costa e McCrae (1992), a

justificação de que os cinco grandes fatores representam dimensões básicas da personalidade é embasada em quatro linhas de raciocínio e evidência empírica. A primeira é que estudos longitudinais e de observação cruzada demonstram que os cinco fatores são disposições

duradouras e que se manifestam em comportamentos. A segunda é que os traços relacionados a cada fator estão alicerçados em diversas teorias de personalidade. A terceira é que os fatores são constantes em diferentes etapas da vida, em diferentes sexos, raças e nacionalidades. E a quarta é que evidencias de hereditariedade sugerem que os fatores possuem base biológica.

O modelo dos Cinco Grandes Fatores teve origem em vastas análises acerca de adjetivos usados para descrever a personalidade. As etapas que deram origem ao modelo dos Cinco Grandes Fatores de personalidade são apresentadas por John e Srivastava (1999). Citam inicialmente trabalhos, que tiveram como base a abordagem léxica, ao identificar no dicionário termos relevantes que se mostravam associados à personalidade. Para estes autores a maioria das características da personalidade socialmente relevantes e salientes foram

codificadas pela linguagem natural. Reuniram então 18 mil termos que poderiam estar relacionados ao comportamento de dois indivíduos. Diversas análises e estudos foram então realizados a fim de reduzir esta lista. Estes estudos culminaram no trabalho de Costa e McCrae (1985) que identificaram os chamados cinco grandes fatores.

O modelo propõe que cinco fatores básicos descrevem a maior parte dos traços de personalidade: neuroticismo, abertura à experiência, extroversão, conscienciosidade e amabilidade. A seguir será apresentada a definição dos cinco fatores como apresentado por Andrade (2008), e que será utilizada como referência para este estudo.

O Neuroticismo (Neuroticism): Indivíduos neuróticos são geralmente nervosos, altamente sensíveis, tensos e preocupados. Por outro lado, indivíduos emocionalmente estáveis são calmos e satisfeitos (Friedman & Schustack, 2004; McCrae, 2006). Segundo Benet-Martinez e John (1998), o traço “Neuroticismo” contrasta estabilidade emocional com afetos negativos, incluindo ansiedade, tristeza, irritabilidade e tensão nervosa. Como assinala McCrae (2006), os indivíduos com alta pontuação no fator “Neuroticismo” tendem a

de que devem fazer tudo corretamente e possuem baixo controle de seus impulsos, pois a frustração de seus desejos os perturba muito.

Abertura à mudanças (Openness to Experience, Intellect): Indivíduos com alta pontuação nessa dimensão, geralmente são francos, imaginativos, espirituosos, originais e artísticos. Por outro lado, indivíduos com baixa pontuação nessa dimensão são superficiais, comuns ou simples (Friedman & Schustack, 2004). O fator também descreve a complexidade, abertura e profundidade da mente humana (Benet-Martinez & John, 1998).

Extroversão (Extraversion): indivíduos extrovertidos tendem a serem ativos, entusiasmados, dominantes, sociáveis e eloquentes ou falantes. Por outro lado, indivíduos introvertidos tendem a ser retraídos, submissos e quietos (Friedman & Schustack, 2004). Os extrovertidos buscam agitação e têm características alegres, enquanto os introvertidos são sérios, inibidos e demonstram certa necessidade de solidão (McCrae, 2006). Os introvertidos não são necessariamente tímidos, podendo até ter boas habilidades sociais. Muitas vezes, os introvertidos simplesmente preferem evitar a companhia de outras pessoas.

Conscienciosidade (Conscientiousness): neste fator é característico o controle de impulsos, bem como comportamentos direcionados a um objetivo específico, que podem facilitar a execução de obrigações e deveres (Benet-Martinez & John, 1998). Indivíduos conscienciosos são geralmente cautelosos, dignos de confiança, organizados e responsáveis. Por outro lado, indivíduos com baixos escores nessa dimensão tendem a ser descuidados, desordenados e pouco confiáveis (Friedman & Schustack, 2004)

Amabilidade (Agreeableness): também chamada “agradabilidade” ou “sociabilidade”. Indivíduos com altos escores neste fator são agradáveis, amáveis, cooperativos e afetuosos. Indivíduos com baixo escore nesse fator podem ser frios e indelicados (Friedman &

Schustack, 2004). Este fator é caracterizado por orientação em relação aos outros, inclui traços como altruísmo, confiança e modéstia (Benet-Martinez & John, 1998).

Pervin e John (2004) apresentam quadro que sintetiza os cinco fatores. Tabela 2

Os cinco grandes fatores de traços e escalas ilustrativas. Características do

indivíduo que apresenta um resultado alto

Escala de traços Características do indivíduo que apresenta um resultado baixo Preocupado, nervoso, emotivo, inseguro, inadequado, hipocondríaco NEUROTICISMO (N) Avalia ajustamento versus instabilidade emocional.

Identifica indivíduos propensos a perturbações.

Calmo,

descontraído, não emotivo, forte, seguro, auto-

satisfeito. Sociável, ativo,

falante, orientado para as pessoas, otimista,

divertido, afetuoso.

EXTROVERSÃO (E) Avalia a quantidade e

intensidade de interações

interpessoais; nível de atividade; necessidade de estimulação; e capacidade de se alegrar.

Reservado, sóbrio, contraído, indiferente, orientado para tarefas, desinteressado, quieto.

Curioso, interesses amplos, criativo, original, imaginativo, não-

tradicional.

ABERTURA (O) Avalia a atividade proativa e a apreciação da experiência por si só; tolerância e exploração do que não é familiar.

Convencional, sensato, interesses limitados, não- artístico, não-analítico. Generoso, bondoso, confiante, prestativo, clemente, crédulo, honesto. AMABILIDADE (A) Avalia a qualidade da orientação interpessoal do indivíduo ao longo de um contínuo da compaixão ao antagonismo em pensamentos, sentimentos e ações. Cínico, rude, desconfiado, não- cooperador, vingativo, inescrupuloso, irritável, manipulador. Organizado, confiável, trabalhador, autodisciplinado, pontual, escrupuloso, asseado, ambicioso, perseverante. CONSCIENCIOSIDADE (C) Avalia o grau de organização, persistência e motivação do indivíduo no comportamento dirigido para os objetivos. Compara pessoas confiáveis e obstinadas com aquelas que são apáticas e descuidadas. Sem objetivos, não-confiável, preguiçoso, descuidado, negligente, relaxado, fraco, hedonístico.

Fonte: Pervin e John (2004, p. 213).

O modelo dos cinco grandes fatores não é consenso entre os que estudam traços de personalidade e outros modelos são vistos com frequência em artigos de revistas

permitiu a construção de diversos instrumentos robustos, como o NEO-PI-R (Costa & McCrae, 1992). A maior parte destes instrumentos foram desenvolvidos a partir de perspectiva ETIC, em que se procura a construção de um modelo que seja replicável em outras culturas. No entanto, como evidenciado por De Raad, Perugini, Hrebickova e Szarota (1998), a utilização destes instrumentos em países coletivistas podem trazer alguns

problemas, como a não identificação de um dos fatores.