a) o desenvolvimento psicológico é um processo que ocorre no interior da mente: envolve a evolução, no curso da vida ...;
b) os modelos de organização mental e conteúdo não podem ser observados diretamente no cérebro; eles podem, somente, ser deduzidos das [...] experiências pessoais subjetivas e objetivas ...;
c) „evolução‟ refere-se à mudança ulterior [...]; a demonstração de um resultado desenvolvimental requer evidências de modelos de experiência subjetiva e comportamento objetivo [...] através do espaço e do tempo, mas têm suas origens nas condições, eventos e processos que ocorrem no período inicial da vida da pessoa;
d) as condições particulares ou eventos afetam modelos de experiência subjetiva e comportamento; e
e) as expressões „modelo de experiência subjetiva e comportamento objetivo‟ implicam em um relacionamento funcional entre esses dois domínios.
Alguns autores atuais seguem as linhas gerais apontadas nos preceitos de Bronfenbrenner. Citamos, como exemplo, Rossetti-Ferreira et al. (2004) por considerarem que a criança tem, desde o início da sua vida, a possibilidade de relacionar-se com outras pessoas, construindo-se e participando das construções de grupo, agindo e compartilhando nas interações. Os seres humanos formam-se por meio das histórias individuais e coletivas, uma vez que, a partir do nascimento, cada pessoa descobre o mundo exterior; ao mesmo tempo, expõe os seus desejos, liberdade ou censura, alegrias ou tristezas e outros sentimentos os quais vão se modificando no movimento interativo com outras pessoas, objetos e símbolos, durante toda a vida. (ROSSETTI – FERREIRA et al., 2004).
A preocupação de Bronfenbrenner não se restringe ao processo de desenvolvimento individual, mas amplia-se ao universo coletivo. Vemos, a seguir, a reformulação da Teoria Ecológica, com a configuração da complexidade exigida para uma pesquisa na área.
Elementos conceituais foram sendo introduzidos no interior da formulação inicial da Teoria de Sistemas Ecológicos, referenciada pelo autor na década de 1970. Mais tarde, o mesmo autor avalia que houve “[...] a evolução dos paradigmas teóricos latentes [...]” (BRONFENBRENNER, 1995, p.622). O novo paradigma formulado, a partir de então, recebe o nome de Bioecológico, integrando quatro elementos contextuais: o elemento Pessoa, com características biológicas e sociais; o Processo, o qual contempla as mudanças ocorridas durante o desenvolvimento humano; o Contexto, em que estão inseridas as características diversas apresentadas nos ambientes em desenvolvimento. Para o elemento Tempo, estão previstos os impactos causados por eventos ocorridos durante a vida da pessoa.
(BRONFENBRENNER, 1988; KREBS, 2001).
Esse modelo traz como sugestão duas proposições:
1. [...] o desenvolvimento humano ocorre em processo de interação recíproca, progressivamente mais complexa entre um organismo biopsicológico humano ativo e as pessoas, os objetos e os símbolos, em seu ambiente imediato. (BRONFENBRENNER, 1995, p. 620).
O processo que resulta no desenvolvimento dos participantes exige constância na realização das atividades, durante todo o período de tempo em que ocorrem as interações. A essa permanência nas interações próximas, o autor denominou de processos proximais, sendo que:
2. Forma, força, conteúdo e direção dos processos proximais que efetivam o desenvolvimento variam sistematicamente como uma função conjunta das características biopsicológicas da pessoa em desenvolvimento, do contexto – tanto imediato como remoto, no qual os processos ocorrem – e da natureza dos resultados desenvolvimentais. (BRONFENBRENNER, 1995, p. 621).
As proposições expostas se complementam, dando a oportunidade ao pesquisador de analisar o Processo, como ocorrem as interações; as Pessoas ali envolvidas; o Contexto específico às atividades; o Tempo durante o qual transcorrem os eventos, tanto historicamente, quanto individualmente.
Bronfenbrenner formaliza, assim, o modelo PPCT. Sob o formato mais complexo de possibilidades de investigação, o autor remarca a necessidade de um pesquisador observar o potencial das interações, revelado nos processos proximais, considerados como alavancas do desenvolvimento. Por esse elemento do modelo
PPCT, o observador analisa mais facilmente o conjunto das interações recíprocas – organismo – ambiente, o qual dirige o desenvolvimento.
O entendimento de Bronfenbrenner é o de que “[...] uma vez aplicado, o Modelo Bioecológico passa a ser cientificamente produtivo, tanto teórica como substancialmente.” (BRONFENBRENNER, 1995, p. 621). O autor também se posiciona quanto à necessidade de realização de pesquisas as quais busquem resultados, além dos formatos universais – crítica já feita por Bronfenbrenner na publicação de 1979 – e afirma que “seres humanos são variáveis em suas características [...]” (BRONFENBRENNER, 1995, p. 633). Significa dizer que, em pesquisas de cunho qualitativo, procuram-se justificativas para essa variação individual, como acontece o desenvolvimento diferenciado de cada pessoa, em ambientes similares. O componente Pessoa, no modelo bioecológico, mantém preservada a sua singularidade.
Elaboramos um mapa conceitual da teoria, apresentado na Figura 1, a seguir, com o intuito de torná-la clara ao leitor.
A perspectiva do Modelo Bioecológico apresenta os processos proximais como o centro do desenvolvimento. Bronfenbrenner defende esse posicionamento com alguns argumentos. O primeiro argumento aponta questões as quais envolvem a transmissão e aquisição de valores entre gerações, em comportamentos expostos por adultos a crianças em ambientes familiares. O autor cita diversos exemplos de pesquisas, mostrando os comportamentos dos adultos em interações com crianças, sendo o modelo PPCT a melhor opção para um investigador do desenvolvimento humano.
O segundo argumento, apresentado por Bronfenbrenner, é o de que o organismo humano mantém sua atividade com dinamismo próprio, expresso por interesses diferenciados entre as pessoas. Valores, convicções e objetivos movimentam cada indivíduo em relação a si próprio e em relação a outras pessoas, objetos e símbolos. Quanto a este argumento, o autor também inicia a apresentação das características biopsicológicas da pessoa, com duplo papel nos resultados desenvolvimentais, ou seja, os resultados do desenvolvimento de uma pessoa,
Figura 1 - Mapa conceitual da Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano, de Urie Bronfenbrenner
desenvolvimento humano
interação pessoa
outras pessoas
Processos proximais (ambientes imediatos)
Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano (Urie Bronfenbrenner )
da forma da direção do conteúdo
O modelo verifica a variação sistemática O
modelo enfatiza Característica: contextualista
estuda
O modelo considera
Pessoa Processo Contexto
Tempo
ferramentas sociais contexto social
contexto físico
contexto cultural abordagem qualitativa
objetos símbolos
encontrados no início da infância, permanecem como características dessa pessoa e irão influenciar o seu desenvolvimento em idade posterior. Essa afirmação deve-se, historicamente, ao argumento utilizado por Bronfenbrenner em 1979, quanto às disposições das pessoas durante as interações interpessoais. Reafirmações a esse respeito serão apresentadas na formulação da teoria em 1998 e 1999, posteriormente.
Outro argumento que Bronfenbrenner propõe durante esta publicação, quando um pesquisador opta por utilizar o modelo PPCT na investigação, diz respeito à força do elemento Contexto em relação direta com o Tempo. O autor apresenta três princípios básicos para esta consideração:
a) o desenvolvimento de cada pessoa efetiva-se sob normas superiores às condições e eventos que ocorrem durante a sua vida;
b) o principal fator que influencia o curso e o resultado do desenvolvimento humano é a adaptação individual às transições biológicas e sociais que ocorrem durante a vida, submetidas às forças culturais e com expectativas sociais definidas em idades; e
c) as vidas dos membros de uma família são interdependentes, pois eventos históricos e acontecimentos afetam cada pessoa da família e suas próximas gerações.
Bronfenbrenner considera, ainda, que “mudanças contextuais no tempo histórico refletem em mudanças significativas no desenvolvimento [...]”
(Bronfenbrenner, 1995, p. 643), o que pode comprometer até grandes segmentos de uma população. A título de interpretação, sugerimos reflexão acerca das consequências mundiais, até a presente data, decorrentes da Segunda Grande Guerra Mundial, desde o patamar das relações entre países com participação ativa até os reflexos individuais.
Para complementar os preceitos apresentados durante as leituras, Bronfenbrenner & Morris (1998) descrevem mais uma etapa da evolução da teoria na ordem da cronologia das publicações e que apresentamos a seguir.
2.4 O MODELO BIOECOLÓGICO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO E SEUS