5 SOBRE O BULLYING NO COTIDIANO DA ESCOLA
5.3 O modo como os e as estudantes se tratavam entre si e como se
Inicialmente, as observações eram voltadas aos movimentos de entrada dos alunos, intervalo e a rotina dos professores fora da sala de aula. A intenção era de tentar perceber a rotina da escola e, de repente, presenciar alguma situação de bullying para que pudesse validar minha presença ali. Sob essa circunstância, já nos primeiros dias de observação presenciei o seguinte diálogo entre dois alunos17 de aproximadamente 13 anos de idade antes de iniciar as aulas:
15 Ao utilizar essa expressão considero os preceitos de Charlot (2000) que considera os sujeitos presentes no
interior da escola como sujeitos, uma vez que atuam sobre ela, isto é, exercem uma atividade dentro desse contexto.
16 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001 17 Nomes fictícios
Francisco: “- Seu arrombado” José: “- Fala, seu pau no cu”
Francisco: “- Ô viado”
José: “- Cala boca, filho da puta”
Francisco: “- Vou te pegar na hora do recreio”
Ambos estavam aguardando o sinal de início das aulas, um estava no piso superior e o outro no estacionamento da escola e gritavam um para o outro mantendo contato visual. Neste momento, não havia a presença de nenhum funcionário da escola nas imediações, e eles não haviam notado a minha presença. Esse diálogo se deu sem tom de ameaça, o que estava do lado de fora falava com ironia e sarcasmo, como se estivesse brincando. O que estava dentro da escola não demonstrou reação, falava naturalmente como quem cumprimenta com “bom dia”. Se não for este um indício de que há presença de bullying na escola, no mínimo demonstra o clima de hostilidade no tratamento entre os colegas. Vale ressaltar que não atribuo única e exclusivamente à escola a manifestação de comportamentos como este acima descrito. Conforme pressupostos desse trabalho se faz necessárias reflexões sobre o movimento das influências entre os aspectos de níveis micro e de níveis macro da realidade que os sujeitos se encontram inseridos, ou seja, os fatores de influência são diversos.
Todos os dias, no momento da entrada dos alunos, notava a presença da coordenadora acompanhando todo o movimento. Era uma prática da escola: os alunos entravam assim que o sinal tocava, mas era necessária a presença da coordenadora para que eles entrassem na sala. Ela ficava no portão controlando o tipo de roupa dos alunos – que deveriam estar uniformizados – e verificando se eles estavam com os livros didáticos, pois a regra era que eles não poderiam assistir à aula sem o livro, senão eram orientados a voltar para a casa. Caso houvesse a reincidência, o aluno levaria um termo para os pais assinarem. Os alunos que não podiam ir embora ficavam na sala da coordenação e a coordenadora passava uma atividade aleatória.
No momento em que o portão da escola é fechado, a coordenadora vai de grupo em grupo de alunos pedindo que eles entrem para a sala. Tais mecanismos disciplinares anunciam uma tentativa de homogeneizar os comportamentos, confirmando a ideia de que a escola está configurada para que as pessoas sejam todas iguais, de modo que fique mais fácil de administrar seu desenvolvimento.
Nesse sentido, Guimarães (1996, p.78) explica que “a homogeneização é exercida
através de mecanismos disciplinares, ou seja, de atividades que esquadrinham o tempo, o espaço, o movimento, gestos e atitudes dos alunos, dos professores, dos diretores, impondo aos seus corpos uma atitude de submissão e docilidade”. A escola tem esse poder de
dominação, ela não tolera as diferenças. E os alunos, por sua vez, vão encontrar formas de resistência a essas imposições através do seu comportamento, e por vezes, reproduzir essa intolerância ao que é diferente. Acompanhar essa situação todos os dias me levou questionar por que essa atitude de “vigilância” da coordenadora se faz necessária, pois imagino o quão desgastante é para ela ter que sair pelo pátio gritando para que os alunos entrem na sala de aula. O que acontece é que a escola espera que o aluno chegue a escola já disciplinado.
Vale ressaltar que, apesar de os alunos passarem mais tempo fora do que dentro da escola, a disciplina não deveria ser encarada como pré-requisito para o processo educativo escolar. Desse modo, entro em uma discussão sobre o papel da escola: há separação entre o educar e o instruir? Essa dicotomia traz consigo uma reflexão que me remete até a pensar se a escola é mesmo necessária, pois, se cabe à escola somente instruir, ensinar conteúdos, ela facilmente pode ser substituída pela tecnologia, haja vista que todo e qualquer conteúdo pode ser facilmente acessado através da internet. (CORDEIRO, 2007, p. 120)
Observando a entrada e saída dos alunos, bem como o horário do intervalo entre as aulas, notava a presença constante de comportamentos hostis dentro da escola. As brincadeiras dos jovens eram envolvidas por agressividade, provocações com xingamentos, pequenas agressões físicas, e tudo isso se dava de forma “natural”. Nem os adultos nem os jovens percebiam anormalidade nesse tipo de comportamento: ameaças, socos, chutes, e gritos eram cenas comuns daquele cotidiano. No intervalo eles não se organizavam para compraro lanche: na cantina não havia fila, e quem conseguia atenção da atendente primeiro era atendido.Um passava pelo outro sem nenhuma preocupação com o empurra-empurra, que é uma prática normal. Sobre essa “normalidade”, Bourdieu (1992, p.23) fala da ilusão do “sempre-assim”, isto é, existe a formação de um inconsciente cultural que naturaliza as ações, quando em verdade este espaço também poderia fazer parte do conteúdo educativo da prática pedagógica da escola, um espaço de aprendizagens que proporciona experiências educativas.