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Capítulo 1. O herói mítico: Enquadramento teórico

1.3. O percurso do herói

1.3.3. O “monomyth” de Joseph Campbell

A proposta de Campbell, que segue uma metodologia interdisciplinar, revela-se como a mais abrangente dos três autores aqui em análise. Nas palavras de Leeming:

Mythologist Joseph Campbell has demonstrated that when we consider heroes and their myths comparatively, we discover a universal hero myth that speaks to us all and addresses our common need to move forward psychologically as individuals and as species.75

71 Cf. Idem, p. 224. 72 Vd. Idem, pp. 226-228. 73 Vd. Idem, p. 221. 74 Idem, p. 230.

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Como já referimos, este autor designou o percurso do herói arquétipo de “monomyth”.76 Este consiste numa aventura – que simboliza a vida – com uma série de

etapas, nas quais o herói – que é o representante do Homem – transpõe fronteiras e evolui.77

Também em Campbell, o mito do herói se encontra dividido em três partes – partida, iniciação e regresso – que se desdobram em vários episódios ou motivos. No entanto, a teoria de Campbell não se revela tão rígida quanto as apresentadas anteriormente, uma vez que o autor afirma que os episódios não são fixos e que a sua importância varia consoante as culturas que os produziram, já que “Differing characters or episodes can become fused, or a single element can reduplicate itself and reapear under many changes.”78

A chamada para a aventura é uma etapa crucial que antecede a demanda e que segundo Campbell se afirma como um dos elementos presentes em todos os mitos de herói. Contudo, nem sempre o protagonista se apercebe de imediato da chamada, pois a mesma pode ser clara e directa – e neste caso o herói sabe desde o início qual é a tarefa que terá de realizar – ou menos evidente. Em algumas situações, este momento corresponde a uma epifania, que confere um novo entendimento do cosmos e da sua função ao herói.79

Campbell nota como, por vezes, o herói recusa inicialmente a demanda que lhe é apresentada. No entanto, esta situação acaba por alterar-se, com este, de forma mais ou menos relutante, a aceitar a tarefa que lhe é incumbida. Existem, apesar de tudo, heróis que recusam definitivamente o seu destino, o que resulta em episódios drásticos, seja para o próprio, seja para o colectivo que este representa.80

76 Vd. Anexo 2.

77 Vd. LEEMING, D., “Monomyth” in LEEMING, D. (ed.), op. cit., p. 1124. 78 CAMPBELL, J., op. cit., p. 212.

79 Vd. MILLS, A., “Call, The” in LEEMING, D. (ed.), op. cit., pp. 272-273.

80 Cf. MILLS, A., “Refusal of the call” in LEEMING, D. (ed.), op. cit., p. 1482. Joseph Campbell serve-se do exemplo do rei Minos. Este soberano mitológico da ilha de Creta – que disputava o trono com os seus irmãos – pede a Posídon que envie um touro como sinal de que ele é o legítimo detentor do poder. O touro seria sacrificado por Minos, como forma de agradecimento pelo apoio divino, caso o pedido se concretizasse. O deus acede à súplica e Minos torna-se rei. No entanto, decide guardar o animal, ao invés de sacrificá-lo. Ao quebrar a promessa, Minos rejeita a chamada para a aventura e, consequentemente, não realiza a sua demanda, que consistia em garantir o bem-estar da sua comunidade, no papel de governante. Desta decisão de Minos advêm uma série de eventos negativos e que afectam, tanto Minos e a sua família, como todo o seu reino. Sobre o mito do rei Minos, veja-se CAMPBELL, J., op. cit., pp. 9-10; 49-50.

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A chamada para a aventura é o primeiro momento de transformação interior do herói, assemelhando-se a um rito de passagem, a uma morte e a um consequente renascimento.81 Quando o herói aceita a chamada, uma das primeiras figuras que encontra

no seu percurso é um ajudante, normalmente masculino, que lhe fornece amuletos protectores.82 O herói é, então, acompanhado por esta figura até à primeira fronteira, onde

se depara com guardiões que controlam a passagem. Para lá deste ponto tudo é desconhecido. Os guardiões podem aparentar ser benéficos mas ao tentar transpor a fronteira, o herói desperta neles o seu lado mais negro e agressivo, o que pode ter consequências negativas. Apesar disso, só provocando ou ludibriando os guardiões é que o herói consegue cumprir o seu objectivo.83

A travessia da fronteira representa, assim, uma etapa de auto-aniquilação. Neste episódio, o corpo do herói pode mesmo ser mutilado ou destruído para que se concretize a aniquilação do eu. Para Campbell, o sacrifício do corpo do herói visa a renovação da Criação.84

Sendo o objectivo do herói cumprir uma demanda, esta apresenta-se, normalmente, antecedida por testes. Quando a aventura não se encontra repleta destes obstáculos significa, provavelmente, que estamos perante um herói “superior”, no sentido em que é – ou está destinado a ser – um rei ou um deus.85

Quando chega a um novo plano, o herói entra em contacto com os deuses, tendo como objectivo apreender a sua graça, a sua energia ou poder miraculoso. Note-se, contudo, que este contacto nem sempre é facilitado pelas divindades:

But the gods may be oversevere, overcautious, in which case the hero must trick them their treasure. Such was the problem of Prometheus. When in this mood even the highest gods appear as malignant, life-hoarding ogres, and the hero who deceives, slays, or appeases them is honored as the savior of the world.86

Após cumprir a sua demanda, seja ela qual for, o herói deve regressar ao ponto de partida, para junto da sua comunidade. No entanto, este regresso acarreta responsabilidades, o que faz com que alguns heróis se recusem a regressar. Caso o herói

81 Vd. Idem, pp. 42-43. 82 Cf. Idem, pp. 57-59. 83 Cf. Idem, pp. 64-67. 84 Vd. Idem, pp. 77-78. 85 Vd. Idem, p. 148. 86 Idem, p. 155.

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seja incumbido pelos deuses de levar para o plano terreno algum bem, o seu regresso caracteriza-se pela falta de eventos problemáticos. Pelo contrário, se o herói tiver subtraído o elemento que irá permitir melhorar a vida da comunidade – por exemplo, um elixir – sem a permissão dos deuses, vê-se obrigado a fugir, deparando-se com vários obstáculos ou sendo perseguido por divindades ou demónios.87 Curiosamente, ao

regressar, o herói pode enfrentar dificuldades em adaptar-se à normalidade, ou pode ser a comunidade a rejeitá-lo.88

David Leeming resume o percurso do herói proposto por Campbell, comparando- o ao percurso que o indivíduo deve fazer no sentido do seu desenvolvimento psicológico:

The middle of the hero’s life, mirroring the passage of our conscious search in the conscious life and the progress of the inner psychic journey into the unconscious (…) is made up of three essential elements: the Departure from home (the status quo), the Adventure in the unknown world, and the Return with some new understanding.89