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O MULTICULTURALISMO E A LUTA PELO RECONHECIMENTO DA

3 ÉTICA DA ALTERIDADE E DA RESPONSABILIDADE COMO

3.3 O MULTICULTURALISMO E A LUTA PELO RECONHECIMENTO DA

ALTERIDADE

Pressuposto para a compreensão do multiculturalismo consiste em apreender o significado atual do termo “cultura”. Johann Gottfried (von) Herder foi o primeiro autor a usar o termo no sentido de cultura de identidade, a significar um modo de vida sociável e tradicional298. Como ressalta Bhikhu Parekh, Herder acabou, entretanto, por ignorar a enorme influência do poder econômico na formação da cultura. Para o referido autor, o erro de muitos teóricos consiste em desconsiderar as diferenças entre sociedades e períodos históricos distintos, bem como em pensar que o mesmo fator exerceu mais ou menos uma influencia idêntica em relação aos demais na formação da cultura em cada um deles299.

297 Caracterizado pela crise do paradigma da modernidade e incerteza quanto ao novo paradigma. Nesse sentido: SANTOS, Boaventura de Souza. A crítica da razão indolente. Contra o desperdício da experiência: Para um novo senso comum: A ciência, a política e o direito na transição paradigmática. vol. 1, 6. ed., São Paulo: Cortez Editora, 2007, passim.

298 EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. São Paulo: UNESP, 2005, p. 43.

299 “Marx, for example, gave pride place to the model of material production, rightly arguing that culture did not exist in a social vacuum, that it often performed the ideological role of legitimizing the prevailing system of economic and political power, that it could not be understood independently of the later, and that it object to constant reinterpretation and manipulation. He was, however, wrong to think that material production occurred in a material vacuum, that it was logically and temporally prior to culture, and that the latter lacked the power to exercise an independent influence on it. Herder saw this more clearly than Marx, but made the opposite mistake of ignoring the enormous power of the economic system. Montesquieu rightly stressed the influence of climate and geography. Hegel that of ideas, and Weber that of religion, but each again went wrong in neglecting the influence of other factors. All, alike, made the further mistake of ignoring the differences between societies and historical periods and thinking that the same factor exercised more or less the same influence in all of them”. Tradução nossa: “Marx, por exemplo, concedeu uma relevante posição para o modelo de produção material, justamente argumentando que a cultura não existiria em um vácuo social, que muitas vezes desempenhou o papel ideológico de legitimar o sistema predominante de poder econômico e político, que não poderia ser entendido independentemente desse último, e ser objeto de constante reinterpretação e manipulação. Ele estava, no entanto, errado ao pensar que a produção material ocorreu em um vácuo material, que era lógica e temporalmente anterior à cultura, e que esta última não tinha o poder de exercer uma influência independente sobre ele. Herder viu isso mais claramente do que Marx, mas cometeu o erro oposto de ignorar o enorme poder do sistema econômico. Montesquieu justamente sublinhou a influência do clima e geografia. Hegel as ideias, e Weber a religião, mas cada um cometeu o erro de negligenciar a influência de outros fatores. Todos, da mesma forma, cometeram o erro mais grave de ignorar as diferenças entre as sociedades e períodos históricos e pensar que o mesmo fator teria exercido mais ou menos a mesma influência em todos eles”. PAREKH, Bhikhu. Rethinking Multiculturalism: Cultural diversity and political theory. Second edition. Chippenham and Eastbourne: Palgrave Macmilian, 2006, p. 151.

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Para Lévi-Strauss, a cultura pode ser definida como todo conjunto etnográfico que apresenta, em relação a outros, distinções significativas, do ponto de vista da pesquisa. Segundo o referido autor, essa definição não impede que sejam identificadas diferenças culturais no interior de um mesmo grupo300.

Não obstante a existência de diversos significados acerca da palavra cultura, considerada uma das mais complexas da língua301, aqui deve ser entendida como um conjunto de mecanismos simbólicos, ou sistema de significados, através do qual o ser humano dá forma, ordem, objetivo e direção às suas vidas302.

Não se pretende, aqui, fazer uma análise detalhada da evolução histórica desse conceito, mas entender, com Todorov, a cultura como o nome atribuído a um conjunto de características da vida social, às formas de viver e pensar, aos modos de organização no tempo e no espaço, o que inclui a língua, a religião, as formas de comer, de se vestir, de criação de utensílios etc. A cultura é formada coletivamente e é um dos resultados da comunicação303.

Esse conjunto de elementos não deve ser entendido como algo estático, uma vez que toda cultura se encontra em um constante processo de construção, desconstrução e reconstrução, no qual as instituições políticas, econômicas e sociais desempenham um importante papel. Consoante afirma Bhikhu Parekh, constitui um erro acreditar que a sociedade desenvolve primeiro a cultura e só então as instituições, ou vice versa. Ambos se desenvolvem juntos, exercem influências recíprocas, e são igualmente vitais para a própria sobrevivência.

Importante também ressaltar que não há culturas puras, uma vez que o contato cultural é um fato universal. Nesse sentido, todas as culturas são mistas304. Isso não significa que não seja importante analisar e identificar o conteúdo de cada cultura. Ao contrário, deve- se fazê-lo, de modo a respeitar o que cada uma tenha de singular.

A partir da segunda metade do século XX, pessoas socialmente excluídas passaram a se organizar em grupos, a fim de lutar pelo reconhecimento e respeito à sua identidade

300 LÉVI-STRAUSS, Antropología Estructural. Barcelona: Ediciones Paidos, 1995, p. 30-33.

301 Acerca dos diferentes significados da palavra cultura: EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. Tradução Sandra Castelo Branco. São Paulo: Editora UNESP, 2005.

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Nesse sentido: GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2013, p. 37.

303 TODOROV, Tzvetan. O medo dos bárbaros: para além do choque das civilizações. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010, p. 38.

304 Nesse sentido: CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 1999, p. 137 e 140.

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cultural. Dentre elas, destacam-se as mulheres, os negros, os índios, os homossexuais e os imigrantes.

Não obstante esses grupos terem desempenhado e ainda desempenharem um importante papel, faz-se necessário afirmar que a identificação ou participação em um deles não é capaz de definir isoladamente a identidade de uma pessoa, uma vez que cada sujeito possui afinidades com diferentes grupos, em razão dos diversos papéis sociais que desempenha. Sua identidade vai se formando por meio das diferentes relações sociais que são travadas ao longo da vida.

Iris Young ressalta que cada sujeito constitui sua própria identidade, apesar de não escolher as condições sob as quais ela é formada. Não tem escolha e compõe a identidade a partir das posições que ocupa em determinadas relações com os outros, ou seja, a partir dos sentidos, práticas, condições estruturais, bem como suas interações, sob os quais o sujeito se encontra inserido. Por outro lado, o sujeito é um agente, o que lhe permite fazer algo da sua própria maneira, a partir das restrições e possibilidades que condicionam a sua vida305.

A formação de grupos que reivindicavam o reconhecimento ocorreu como reação ao fato de que, sob o manto de uma aparente neutralidade, a sociedade e o Estado ocultavam a defesa de valores burgueses, fundados na ideologia liberal-individualista, que estabelecia um modelo de sujeito (homem, branco, proprietário, contratante, heterossexual) excludente de tudo quanto se distanciasse do referido padrão. Ademais, essa ordem mercantilista transformou a força de trabalho em mercadoria. Com isso, o ser humano perdeu sua condição de sujeito, o que gerou ainda mais violência e exclusão.

O multiculturalismo surge como reação a este quadro, diante da necessidade de reconhecimento e respeito às diferenças culturais, bem como do combate a valores universalizantes e totalizantes, criticados em razão de terem promovido a dominação por uma raça, um sexo e uma classe social.

Um importante pressuposto para que se possa compreender o multiculturalismo é a noção de diferença, que pode ser identificada tanto entre distintas sociedades como também no interior de uma mesma comunidade. É possível falar em multiculturalismo em ambos os sentidos. Ademais, um mesmo sujeito possui identidades plurais e distintas no seio do ambiente social do qual participa, em razão de desempenhar múltiplos papéis. Entende-se, portanto, que a diferença é uma característica humana e social, que se transforma ao longo da história.

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Essas diferenças acirraram-se com o processo de globalização, marcado, segundo Stuart Hall, por descontinuidades, em razão da inexistência de um princípio articulador ou organizador único. Identifica-se, na modernidade tardia – também chamada de pós- modernidade306 – uma pluralidade de centros de poder, que cria divisões e antagonismos sociais, produzindo uma variedade de posições de sujeito, ou seja, de identidades307.

As novas tecnologias de comunicação e representação provocam uma explosão de imagens e saberes que complicam todas as formas de identidade social, criam dúvidas existenciais que dificultam a ação coerente e trazem consigo o medo da falta de sentido das coisas. O dilema pós-moderno consiste em enfrentar esse caos aparente308.

Diante desse quadro, passou-se a admitir a necessidade de reconhecimento e proteção às diferentes identidades. A pesquisa da identidade cultural é um tema da pós- modernidade, que recolocou o indivíduo e seu estado mental, em vista do desenvolvimento tecnológico, no centro das atenções309.

Essa necessidade surgiu em virtude da verificação que a identidade de um sujeito é formada pela existência ou inexistência de reconhecimento e, muitas vezes, pelo reconhecimento incorreto dos outros. As duas últimas hipóteses podem afetar negativamente a pessoa e ser consideradas formas de agressão310. A identidade de uma pessoa é formada a partir da relação com “outras-importantes311”.

306 David Harvey identifica como uma das características mais espantosas do chamado pós-modernismo a total aceitação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo e do caótico: “Portanto, na medida em que não tenta legitimar-se pela referência ao passado, o pós-modernismo tipicamente remonta à ala de pensamento, a Nietzsche em particular, que enfatiza o profundo caos da vida moderna e a impossibilidade de lidar comele com o pensamento racional. Isso, contudo, não implica que o pós-modernismo não passe de uma versão do modernismo; verdadeiras revoluções da sensibilidade podem ocorrer quando ideias latentes e dominadas por um período se tornam explícitas e dominantes em outro. Não obstante, a continuidade da condição de fragmentação, efemeridade, descontinuidade e mudança caótica no pensamento modernista pós-moderno é importante”. HARVEY, David. Condição pós-moderna. 24. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2013, p. 49.

307 Nesse sentido: HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2011, p. 16-18.

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MORRISON, Wayne. Filosofia do direito: dos gregos ao pós-modernismo. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p.16.

309 Nesse sentido: JAYME, Eric. Kulturelle Identität und Internationales Privatrecht. In: JAYME, Eric. (org.) Kulturelle Identität und Internationales Privatrecht. Heidelberg. C.F. Müller Verlag, 2003, p. 06.

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Nesse sentido, afirma Axel Honneth: “É do entrelaçamento interno de individualização e reconhecimento, esclarecido por Hegel e Mead, que resulta aquela vulnerabilidade particular dos seres humanos, identificado com o conceito de ‘desrespeito’: visto que a autoimagem normativa de cada ser humano, de seu ‘Me’, como disse Mead, depende da possibilidade de um resseguro constante no outro, vai de par com a experiência de desrespeito o perigo de uma lesão, capaz de desmoronar a identidade da pessoa inteira”. HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Trad. Luiz Repa. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 213-214.

311 TAYLOR, Charles. A política de reconhecimento. In: TAYLOR, Charles (org). Multiculturalismo: examinando a política de reconhecimento. Lisboa: Instituto Piaget, 1998, p. 56.

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Enrique Dussel entende que a afirmação plena e positiva da própria cultura no sistema mundial vigente pressupõe dois importantes momentos: 1) a descoberta, feitas pelas vítimas, da opressão e exclusão que atinge sua cultura; 2) a conscientização crítica e autorreflexa acerca do próprio valor312.

Os laços de solidariedade entre os membros de uma comunidade são elementos fundamentais na formação das identidades culturais, composta pela união de memórias, tradições e mitos partilhados313.

A recusa ao tratamento igualitário do outro pode prejudicar as pessoas visadas, pois a projeção de uma imagem de alguém como um ser desprezível pode, realmente, ter um efeito de distorção e de opressão, a ponto de essa imagem ser interiorizada. Esse discurso é válido tanto na esfera pública, quanto na íntima. Por isso, o respeito devido não é um ato de gentileza, mas uma necessidade humana vital314.

Portanto, deve haver o reconhecimento e respeito às diferentes identidades culturais dos cidadãos. Essa ideia nasceu sob a designação de multiculturalismo, cujo escopo consiste em permitir a coexistência harmônica entre subjetividades distintas.

De acordo com Andrea Semprini, enquanto a identidade corresponde a uma noção de pertencimento a determinado grupo e, assim, representa o potencial e os limites da formação identitária do sujeito, a experiência da diferença permite que o indivíduo possa se distanciar de sua identidade, questioná-la e fazê-la evoluir, ao compará-la com outros modelos identitários, daí a importância da valorização da diferença315. Tais perspectivas pressupõem um olhar para o outro, ou seja, alteridade e multiculturalismo.

Para Nestor Canclini, essa hibridização representa a oportunidade de relativizar os fundamentos nacionais, religiosos, políticos e étnicos que absolutizam certos patrimônios e discriminam os demais316. Exemplo de discriminação cultural pode ser identificado na classificação de certos objetos como arte e outros como artesanato.

Não obstante a nobreza do multiculturalismo, constata-se que o seu recrudescimento tem levado à conduta de, “a pretexto de preservar determinados valores não universais,

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DUSSEL, Enrique. Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012, p. 420.

313 BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Solidariedade: um direito ou uma obrigação? In: BEZERRA, Paulo. Cesar Santos (org.). Temas Atuais de Direitos Fundamentais. Ilhéus: Editus, 2012, p. 246.

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TAYLOR, Charles (org). Multiculturalismo: examinando a política de reconhecimento. Lisboa: Instituto Piaget, 1998, p. 45-46.

315 SEMPRINI, Andrea. Multiculturalismo. Bauru, SP: EDUSC, 1999, p. 103-104.

316 CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas - estratégias para entrar e sair da modernidade. Trad. Ana Regina Lessa e Heloísa Pezza Cintrão. São Paulo: EDUSP, 1997, p. 294.

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manter-se um isolacionismo cultural317”. No mesmo sentido, reconhece Denys Cuche que a exaltação da diferença pode levar, em sua forma mais perniciosa, à justificação de regimes segregacionistas, transformando o direito à diferença em obrigação de diferença318. Em verdade, defende-se, aqui, o multiculturalismo como convivência integrada, harmônica e respeitosa entre diferentes culturas.

Nas sociedades democráticas, marcadas pelo multiculturalismo, não se pode considerar a cidadania como uma identidade universal globalizante, porque: 1) as pessoas são indivíduos únicos, auto-formantes e criativos, conforme afirmam John Stuart Mill e Ralph Emerson; 2) as pessoas são “portadoras de cultura” e as culturas de cada uma diferem consoante as suas identificações passadas e presentes319.

O multiculturalismo pôs em cheque o projeto da modernidade, marcado pela ideologia universalista, ao defender o respeito à diferença e não apenas o direito à igualdade, bem como ao exigir o cumprimento das promessas da modernidade, dentre elas a promoção da justiça e a emancipação dos sujeitos.

Em 2001, a UNESCO reconheceu, em uma declaração universal, a diversidade como direito humano e patrimônio cultural da humanidade, além de importante fonte de intercâmbio, inovação e criatividade; voltado para garantir a originalidade e a pluralidade de identidades320. Em seguida afirmou a necessidade de se implementar políticas de inclusão social, capazes de garantir a interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades distintas, plurais. O pluralismo cultural seria a resposta política adequada à realidade da diversidade cultural321.

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AGUIAR, Mônica. A proteção do direito à diferença como conteúdo do princípio da dignidade humana: A desigualdade em razão da orientação sexual. In: ALENCAR, Rosmar Antonni Rodrigues Cavalcanti de. (org.)

Direitos Fundamentais na Constituição de 1988. Porto Alegre: Nuria Fabris Editora, 2009, p. 81.

318 CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC, 1999, p. 241. 319

GUTTMAN, Amy. Introdução. In: TAYLOR, Charles (org). Multiculturalismo: examinando a política de reconhecimento. Lisboa: Instituto Piaget, 1998, p. 25.

320 Texto original: “Article 1 – Cultural diversity: the common heritage of humanity

Culture takes diverse forms across time and space. This diversity is embodied in the uniqueness and plurality of the identities of the groups and societies making up humankind. As a source of exchange, innovation and creativity, cultural diversity is as necessary for humankind as biodiversity is for nature. In this sense, it is the common heritage of humanity and should be recognized and affirmed for the benefit of present and future generations”. Tradução nossa: "Artigo 1 - A diversidade cultural: o património comum da humanidade

A cultura assume diversas formas no tempo e no espaço. Esta diversidade se consubstancia na originalidade e na pluralidade das identidades dos grupos e sociedades que compõem a humanidade. Como fonte de intercâmbios, de inovação e criatividade, a diversidade cultural é tão necessária para a humanidade como a biodiversidade é para a natureza. Nesse sentido, é patrimônio comum da humanidade e deve ser reconhecida e consolidada em benefício de gerações presentes e futuras".

321 Texto original: “Article 2 – From cultural diversity to cultural pluralism

In our increasingly diverse societies, it is essential to ensure harmonious interaction among people and groups with plural, varied and dynamic cultural identities as well as their willingness to live together. Policies for the inclusion and participation of all citizens are guarantees of social cohesion, the vitality of civil society and

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A defesa da diversidade cultural foi declarada como um imperativo ético, essencial à dignidade da pessoa humana e se reconheceu a necessidade de respeito à identidade cultural de todos.

Axel Honneth identifica três padrões de reconhecimento como fundamentais para a plena realização do sujeito: na experiência do amor, desenvolve-se a autoconfiança; na experiência do reconhecimento jurídico, o autorespeito; e, na experiência da solidariedade, a autoestima322.

Ademais, afirma que as formas de desrespeito consistentes em privação de direitos e exclusão social não representam somente uma limitação violenta da autonomia pessoal, mas também um vínculo com a ideia de não ser atribuído ao outro o status de um membro com igual valor na interação social, o que significa, portanto, uma lesão à expectativa intersubjetiva de “ser reconhecido como sujeito capaz de formar juízo moral323”. Assim, junto

com a experiência de privação de direitos, ocorre também uma perda de autorrespeito, na qual o sujeito deixa de se perceber como alguém em posição de igualdade em relação aos demais324.

O autor identifica, todavia, no desrespeito a base motivacional para que o ofendido lute por seu reconhecimento. A partir das reações emocionais negativas causadas pelo desrespeito, a exemplo da vergonha ou ira, vexação ou desprezo, poderão se formar sintomas psíquicos que levarão o sujeito a perceber que a consideração social lhe é negada de forma injustificada325 e, a partir daí, buscar sua adequada realização.

Esse pensamento se coaduna com o de Enrique Dussel e é por este complementado, conforme foi anteriormente apresentado. Na presente tese, defende-se, portanto, que, uma vez constatada a recusa ao reconhecimento, os diversos grupos compostos pelas vítimas, pelos oprimidos, devem se organizar, a fim de reivindicar sua participação nos debates, com o

peace. Thus defined, cultural pluralism gives policy expression to the reality of cultural diversity. Indissociable from a democratic framework, cultural pluralism is conducive to cultural exchange and to the flourishing of creative capacities that sustain public life”. Tradução Nossa: "Artigo 2 - Da diversidade cultural ao pluralismo cultural

Em nossas sociedades cada vez mais diversas, é essencial para garantir a interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais plurais, variadas e dinâmicas, bem como a sua vontade de viver juntos. Política de inclusão e participação de todos os cidadãos são garantias de coesão social, a vitalidade da sociedade civil e da paz. Assim definido, o pluralismo cultural dá expressão política à realidade da diversidade cultural. Indissociável de um contexto democrático, o pluralismo cultural é propício ao intercâmbio cultural e ao desenvolvimento das capacidades criadoras que sustentam a vida pública ". ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. ˂Disponível em: http://portal.unesco.org/en/ev.php˃. Acesso em 25.jun.2015.

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HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: A gramática moral dos conflitos sociais. trad. Luiz Repa. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009, p. 272.

323 Ibid., p. 216. 324 Ibid, p. 217. 325

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escopo de formar um contradiscurso pautado pela defesa do desenvolvimento da vida humana concreta de todo sujeito ético no interior da comunidade.

No Brasil, a Constituição Federal, ao estabelecer diretrizes para o Plano Nacional de Cultura, admite que o processo civilizatório nacional contou com a participação de diferentes grupos e ressalta a importância de se promover a proteção às distintas manifestações

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