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2. A CONSTRUÇÃO DO ESTADO-NAÇÃO APÓS A INDEPENDÊNCIA

2.1. O novo Estado moçambicano a partir da década de 90

Na nova Constituição adotada em 1990, é referido que o país muda do sistema de partido único para o multipartidarismo e a liberdade de associação dos cidadãos. Começaram a proliferar neste período diversos partidos políticos e outras

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ADAM, Yussuf. Op. cit, p. 122.

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Idem, ibidem.

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Nome da moeda moçambicana.

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ADAM, Yussuf. Op. cit, p. 126.

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organizações da Sociedade Civil. Organizações como as Igrejas que vinham atuando no território ganharam um novo espaço na participação da vida do país. Estas já vinham desempenhando um papel ativo na vida nacional através do seu envolvimento na ajuda humanitária que Moçambique precisou devido a guerra civil, desastres naturais etc. Desempenharam também um papel muito importante nas negociações para a paz em Roma que culminaram com a assinatura do acordo de paz em 1992 entre o Estado moçambicano representado pelo então presidente da República Joaquim Alberto Chissano e Afonso Dlhakama líder da Renamo. Dois anos após o término da guerra, realizaram-se as primeiras eleições multipartidárias que foram ganhas pelo Partido Frelimo e pelo presidente Joaquim Chissano. Embora o país tivesse começado a fazer mudanças políticas sérias desde 1989 quando abandonou o marxismo-leninismo, a comunidade internacional ou os novos parceiros ocidentais condicionaram mais ajuda ou investimentos ao país à mudanças estruturais radicais.

Às mudanças de ordem econômica e a abertura política colocou-se na pauta a questão do lugar a ser ocupado pelas chamadas “autoridades tradicionais”. O surgimento destas em Moçambique data da formação das primeiras unidades políticas e de acordo com os contextos de cada sociedade surgiam pequenos núcleos familiares conhecidos por linhagens117. Estes foram crescendo, ora pela sua reprodução constituindo as famílias alargadas ou através de agregação de famílias estrangeiras; estruturavam-se politicamente em termos de sua reprodução social e material118. Foi deste modo que estas autoridades se enraizaram em muitas sociedades locais. Dependendo da sociedade e das suas características culturais, as designações dos chefes ou figuras políticas variam e assim, exemplificando nos grupos lingüísticos ndau, as principais figuras políticas são o mambo ou nhakwawa, saphanda, sabuko e xiduno; entre os macua, são o mwene, sangira, o fumo, entre outros, sendo a apwiyamwene, principal figura do sexo feminino. No grupo changana, a hierarquia política sustenta-se no hosi, seguido do nqulume, nduna, ndota e xindotane119.

Considera-se os chefes locais ligados aos antepassados e crê-se que jogam um papel fundamental na vida da comunidade, como elo de ligação entre os vivos e os mortos. É este aspecto que lhes confere certos poderes sobre a terra,

117Breve caracterização da evolução da autoridade tradicional em Moçambique. disponível em

http://www.mec.gov.mz/dep.php?=177&pag=121, 1999, p. 03. Acessado em 02/08/07.

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Ibidem, p. 04.

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tida como patrimônio da comunidade, mas propriedade dos antepassados120. Este fato interfere na toponímia atual em que determinadas regiões continuam nominalmente ligadas aos seus antepassados. Eram as autoridades locais que antes da instalação do poder estatal colonial velavam pela manutenção da segurança social comunitária, cobravam os impostos, velavam pelo bom ambiente e harmonia da comunidade intervindo se fosse necessário nos conflitos existentes, principalmente ligados a posse da terra121. Desde a implantação do colonialismo português os chefes tradicionais que faziam parte da estrutura local foram submetidos ao novo Estado colonial; no período pós-independência, estas foram de novo deslegitimadas, provocando um mal entendido entre as novas autoridades do país porque elas haviam apoiado a luta armada de libertação nacional movida pela Frelimo contando com o seu apoio e legitimação após a independência. Este contrariando às expectativas rotulou-as de retrógradas e como um empecilho ao Estado-nação que se pretendia construir.

Para Lundin a escolha de modelos políticos nos países africanos após as independências foi ditado mais pela conjuntura internacional da Guerra Fria do que por contextos locais; esta escolha criou novas exclusões de caráter ideológico, que adquiriram contornos econômico, religioso étnico/regional agrupando muitas vezes o mesmo grupo de indivíduos e comunidades nestas distorções exclusivistas122. A sua argumentação sobre a deslegitimação de uma autoridade que tem raízes seculares no continente africano e particularmente em Moçambique deve-se ao contexto da política internacional que estes deviam observar.

Lundin refere ainda que convivem na África duas elites e no caso particular de Moçambique pode-se distinguir uma elite que é do Estado Moderno, que é a nova burguesia emergente ligada tanto ao poder econômico como ao político e, por vezes à produção intelectual e a chamada elite “tradicional” que compõe a diversidade da autoridade “tradicional” que Moçambique comporta. Estas são instituições que seguem diferentes paradigmas de percepção do mundo123.

A realidade é que hoje em dia com as novas transformações que ocorrem e com a apologia do pluralismo numa era da globalização, há uma necessidade do Estado trazer ao seu lado uma massa humana rural e urbana que desde o tempo colonial aprendeu a viver alheia ao mundo político formal, driblando os Estados

120 Idem, ibidem. 121 Idem, ibidem. 122

LUNDIN, Iraê. op.cit, p. 12.

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para a sua sobrevivência cultural124. Este é o caso que está ocorrendo em Moçambique, em que o Estado já reconhece que este tipo de autoridade é muito importante na vida social das comunidades locais. É esta uma nova forma de governação em que os órgãos linhageiros locais tomam partido para a decisão de questões da sua vida social. Mas será que este mecanismo de representação e identificação se dá nos meios urbanos? O próximo capítulo procurará responder a isto, tomando Maputo como estudo de caso. Esta cidade é o local de origem de alguns reinos africanos que tiveram influências tanto dos estados africanos zulu, swazi e de Gaza de Sochangana que foram determinantes para a formação da identidade tsonga que é alvo de discussão nesta dissertação. Também pela antiga Lourenço Marques passaram a maior parte dos dirigentes nacionalistas moçambicanos.

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3. GÊNESE E EVOLUÇÃO DA CIDADE DE LOURENÇO MARQUES, ATUAL