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O objeto de escolha deliberada

2.3 Escolha deliberada

2.3.3 O objeto de escolha deliberada

Tratar dos objetos de escolha deliberada é o mesmo que tratar dos objetos de deliberação. As mesmas limitações presentes na deliberação são características da escolha deliberada. Neste sentido, a escolha deliberada é o resultado de uma deliberação prévia. Esta, por sua vez, tem papel importante na constituição de uma ação, visto que delimita a investigação ao que é possível de ser realizado pelo agente. A escolha deliberada, como apresentada em EN III 2, possui as características de um proceder deliberativo, a tal ponto que a própria virtude seria afetada por considerações deliberativas. Ao tratar dos objetos de deliberação, o objetivo foi encontrar aqueles sobre os quais uma deliberação ou conselho são ditos sensatos. A conclusão foi de que são os objetos de deliberação as coisas que estão em nosso poder ( ' ), pois são estas que estão sujeitas a iniciativa humana. No

entanto, estas coisas ocorrem no mais das vezes ( ), e possuem um

registro equivalente, uma vez que são a expressão de uma potencialidade racional. No entanto, Aristóteles define a virtude como uma disposição de escolher por deliberação ( ), consistindo em uma mediedade relativa a nós, disposição delimitada pela razão (EN II 6, 1116b 36 - 1117a 2). Isso pode sugerir que uma ação virtuosa é aquela que tem por base uma escolha deliberada, ou seja, uma escolha delimitada pela razão, que vem a ser constituída por uma mediedade. A respeito disso, Aristóteles mesmo procurou evidenciar sua compreensão de virtude moral por meio da doutrina da mediedade (EN II 1108b 11-19). De acordo

com esta, as virtudes se constituem como meios entre extremos que conduzem ao vício. Assim, uma ação é correta quando se constitui em um ponto intermediário entre dois extremos identificados como errados, sendo que não se trata de uma medida fixa, uma vez que a determinação da mediedade é relativa ao sujeito.

Hobuss destaca que a doutrina da mediedade não pode ser entendida em termos quantitativos, assim como não pode ser vista somente em termos de determinação dos objetos corretos e incorretos, já que as condições do agente e a relação que ele mantém com os objetos é aquilo esta doutrina da mediedade destacaria (HOBUSS, 2008, p. 24-26). Neste caso, a deliberação realizada pelo agente, a fim de encontrar as especificações adequadas ou corretas para a realização de um fim, visa, também, a adequação do agir na esta estrutura intermediária, que ao fugir dos extremos vai de encontro à mediedade.

Se a virtude é uma disposição de escolher por deliberação, e esta escolha se constitui em uma mediedade relativa a nós, seria possível definir a mediedade com sendo o objeto definido (em sua forma) a ser alcançada em uma escolha deliberada, mesmo que em si a mediedade permaneça indeterminada, pois o conteúdo material permanece particular, visto que as descrições presentes em uma tomada de decisão referem-se às circunstancias específicas da escolha e, também, relativas a especificidade dos indivíduos. Não longe disso, no campo de atuação do conhecimento prático, o ser humano se vê limitado ao que está em seu poder de atuação, a exigências práticas de uma ação estão limitadas a um campo singular de atuação, a saber, o campo em que o movimento local é possível, o que não é diferente de afirmar que é o âmbito no qual a potência pode ser atualizada: “a matéria, por sua vez, é potência, ao passo que a forma é atualidade, e isto de dois modos: seja como ciência, seja como inquirir”84

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84

DA II 1 412a 9-11: ’ , ’ , ( ,

3 Sabedoria prática e esfera desiderativa

Em Aristóteles encontramos uma interessante proposta de fundamentação do agir moral, baseado não somente em pressuposto racionais, mas também procurando identificar elementos motivacionais. Isso ocorre por meio de uma vinculação do desejo humano com as especificações de uma conduta entendida como virtuosa. Assim, o que pretendo analisar neste capítulo é o modo como Aristóteles estabelece a aproximação entre a esfera desiderativa e a razão, a fim compreender como a razão e os desejos atuam na determinação das ações com valor moral.

Neste sentido, na primeira parte deste capítulo, pretendo realizar considerações sobre como Aristóteles compreende a alma humana. O objetivo é fornecer uma analise de como se dá a relação entre a esfera desiderativa e a razão. Para tanto, inicio com uma análise da divisão da alma. Neste ponto, trato especificamente da parte não-racional da alma humana. Em um segundo momento, realizo uma análise da esfera desiderativa, a fim de compreender como Aristóteles entende a relação entre os desejos e a razão. Em específico, o objetivo é apresentar como ocorre a determinação de uma ação a partir desta relação entre desejo e a razão. Neste caso, serão identificados três tipos de desejos: o apetite, o impulso e o querer. Por fim, pretendo realizar uma análise sobre o querer, que se configura como um tipo de desejo compatível com as considerações racionais, diferentemente do apetite e impulso, que são desejos presentes tanto nos homens como nos demais animais.

Na segunda parte deste capítulo, procuro analisar as especificidades da sabedoria prática, tendo por objetivo caracterizar o campo de atuação deste tipo de racionalidade, como também analisar o método proposto para o conhecimento prático. No livro VI da EN, Aristóteles procura apresentar a sua noção de sabedoria prática por meio de uma identificação das virtudes intelectuais. Em um primeiro momento, pretendo analisar as virtudes intelectuais, ressaltando a divisão estabelecida na alma racional, entre uma parte científica e outra deliberativa. Ainda,

destacar a peculiaridade da intuição, que possui uma função nas duas partes da alma. A seguir quero estabelecer uma compreensão das virtudes intelectuais da parte da alma denominada científica, tendo em vista suas diferenças em relação à sabedoria prática. Em terceiro lugar, analiso as virtudes da parte deliberativa da alma racional, procurando caracterizar o tipo de conhecimento desta esfera. Em um quarto momento, pretendo esboçar as características normativas da sabedoria prática, destacando como este tipo de racionalidade pode oferecer elementos prescritivos para a orientação das ações.