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FEMME ELLE S’OUVRE

4.3 Visualidade, vocalidade e Lacan

4.3.1 O olhar e a voz

Os objetos que foram promovidos, enquanto tais, pelo discurso psicanalítico, são, inicialmente, o oral e o anal, que repousam diretamente sobre a relação da demanda de amor e que foram relacionados por Freud. Em seguida, vêm o olhar e a voz, que constituem a contribuição lacaniana à série desses objetos e que fazem corpo com a divisão do sujeito de quem suportam o desejo. Eles fazem recuar a apreciação da prática de linguagem que é feita através do recobrimento das identificações especulares.

Assim como o objeto escópico não pertence à ordem do visível, o objeto vocal não pertence à ordem do audível, constituindo ambos o Outro da visão e o Outro da palavra, ao mesmo tempo em que se tornam sua causalidade.

Enquanto o paradoxo do olhar, como objeto, é o de ser invisível, o da voz se centra no fato de ser a-fônica, na medida em que ela não pode ser dita, permanecendo, pois, a voz do Outro da linguagem. Isso traz problema e solução novos para a escrita porque a relação paradoxal, que liga som e sentido, é o que define a operação poética, sendo que o olhar e a voz deslizam misteriosamente e implicitamente nessa operação.189 Disso surge toda a relevância de sua compreensão, para elucidar a operação de linguagem dos poemas concretos.

A inscrição desses objetos, na poesia, é um problema que se apresenta, desde os textos medievais, segundo Paul Zumthor, para quem a voz é essa outra voz perdida, o Outro da escrita, que vai se instalar no papel que lhe é destinado, reivindicando sua própria verdade invertida.190

De tudo isso, decorre que o estatuto do objeto a é um problema poético, sendo fundamental acrescentar que ele faz parte de outra contribuição de Lacan e que é a

189 ATTIÉ, 2008, p. 351.

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nomeação que ele lhe fez. Foi ele quem denominou cada um dos quatro objetos do conjunto, no qual se incluem os dois primeiros formalizados por Freud, de objeto a.

No presente estudo, a consideração do objeto a na rotação dos registros, de forma a criar o quarto elemento, demonstra de maneira mais flexível as criações de linguagem, que contornam o vazio de representação pela suplência que compreende a noção de sinthoma. A suplência se baseia na noção de sintoma, mas dela se afasta, na medida em que tal sintoma é elevado à dignidade de uma resposta do sujeito, numa criação única, que tanto pode ser um poema ou um trabalho, quanto um estilo de vida, constituindo este caráter de invenção singular o cerne da noção.191

Para chegar a isso, o conceito de objeto passou por alguns desenvolvimentos teóricos que podemos compreender com a ajuda de Alain Vanier, em seu texto “Mouvements de

l’objet”, onde ele lembra que a Coisa não é o objeto a e que este vem nesse lugar como

semblant, para dar um nome à falta.192

Da mesma maneira, o autor nos lembra que Lacan havia observado que, em Freud, há um emprego distinto entre apresentação e representação, colocando a representação no pré-consciente e deixando o campo aberto para que ele colocasse a apresentação do lado do lugar do objeto a, no discurso analítico.

Lacan o situa dentro de três dimensões em que, numa primeira, a apresentação é feita pelo objeto a, numa segunda, a imagem do objeto é dada pela relação especular e, finalmente, numa terceira, a representação é feita pelo campo do simbólico que veicula a transmissão do significante. Trata-se de uma concepção teórica que facilita a compreensão do trabalho com a escrita topológica.

Vanier lembra ainda que o objeto a foi formulado enquanto tal por Lacan, a partir do objeto transicional de Winnicott, para quem ele era um elemento terceiro entre a mãe e a

191 Cf. ATTIÉ, 2008, p. 36: Para Joseph Attié, aquele que faz uma análise fala apenas de seu sintoma,

enquanto aquele que se levanta cedo, para construir uma obra, também apenas fala de seu sintoma. Este, entretanto, é elevado à dignidade de uma obra que se torna, no mesmo ato e ao mesmo tempo, o sinthoma como a resposta que o sujeito dá a seu sintoma. Estamos aqui entre um sintoma que paralisa e um outro que mobiliza o sujeito, lhe dando asas, às vezes.

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criança, fazendo objeção a uma relação dual entre elas. Assim, inicialmente, Lacan o identificou à bobina do jogo do Fort – da, não o situando como diretamente ligado ao desmame.

Assim, ao abordar o objeto, com sua resposta, o sujeito o faz através da criação imaginária da fantasia, uma tela que dissimula essa coisa primeira. Além do que, essa repetição apresenta, ela própria, variações moduladas exigidas pelo jogo da linguagem, para se evadir da primeira significância. O objetivo desse esforço maior é fazer esquecer o ponto-de-vista da significância primordial, transformando o ato do mau encontro, num jogo infinito de descarga de prazer. Por isso, Lacan vai forjá-lo inicialmente com o a que é a letra inicial do outro (autre, em francês) e, logo, no registro imaginário.

Mas, o jogo do Fort – da reiterado, em torno da brecha introduzida pela ausência, é um traçado centrífugo que se agrega a esta, demonstrando que o sujeito pensa com seu objeto e, ao ser situado no contorno da demanda , opera-se o deslocamento que o leva para o registro simbólico, onde ele tem lugar como causa e não como seu objeto.

Ele passa a ser o resto da própria operação de simbolização, o resto da divisão do sujeito, sendo o que escapa à apreensão significante, causando o desejo e, portanto, não constituindo um objeto empírico, mas sim um objeto de consistência lógica que se encarna episodicamente nos objetos parciais que ele não é.

A retomada do objeto a se complicou, por seus numerosos destinos na linguagem, e, se o simbólico dá as coordenadas de sua função, não é isso o que ele é porque ele não pode ser conhecido, enquanto tal, na medida em que maneja um acesso ao real, ao lhe fazer uma tela.

Mesmo que Alain Vanier aponte nisso a dimensão real do objeto, que é salientada por vários autores e que diz avalizar, ele faz também outra afirmação essencial. Para ele, as etapas do objeto, nos registros sucessivos, e o percurso em torno do qual gira o próprio movimento de Lacan são franqueamentos ornados de oscilações, que só encontrarão uma solução final com o nó borromeano.

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As etapas sucessivas do objeto, a que ele se refere, são consideradas, em primeiro lugar, quando o objeto a se coloca na pura falta, como ponto cego da imagem no espelho e, logo, no registro imaginário. Em segundo lugar, o objeto a causa de desejo tem uma relação à castração que causa a linguagem e, por aí, se torna essencial como suporte do sujeito na fantasia. Em último lugar, o objeto a é articulado como objeto da pulsão parcial, que se reativa pelo fato de ele ser fundamentalmente perdido. E é exatamente por esse movimento em direção ao desnudamento do objeto, que ele pode ser alojado como um efeito da linguagem que faz furo no real.

O resumo da explicação de Vanier deixa, finalmente, entender que o objeto a percorre os três registros, ficando contido nas três voltas do nó, onde ele é sucessivamente imaginário, simbólico e real, sendo que escapa a esse plano.

Ou seja, ele é ao mesmo tempo e sucessivamente imaginário, simbólico e real, num movimento em que ele contém as três voltas do nó. E, simultaneamente, ele não é imaginário, porque não está no espelho, nem é simbólico, porque é precisamente o que cai da apreensão na cadeia significante, e deixa a resolver o problema do que seria um objeto no real. É por isso que o objeto a é também externo a cada interseção do nó borromeano, onde tem o seu lugar.

Como é possível observar, é essa localização do objeto a, na topologia do nó borromeano, que pode auxiliar na compreensão dos signos vocal e visual, que se atam ao verbal, como um signo verbivocovisual, mas deixando espaço à abertura que promove o poema concreto como uma obra de arte aberta.