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O papel das escolas profissionais no processo industrial

2. PANORAMA HISTÓRICO: FORMAÇÃO INDUSTRIAL

2.3. O papel das escolas profissionais no processo industrial

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76 abolição da escravidão, o senhor de escravos adquiri-los, ensiná-los ofícios e alugá-los, constituindo uma segura alternativa de renda, além de valorizar o capital investido na aquisição do cativo81. Em termos de formação técnica do trabalho livre, ainda no século XVII, a Casa de Fundição e Moeda passou a ensinar, de forma sistemática, como examinar metais, lavrar minas e fundir o ouro. Outro destaque, nesse sentido, foi a iniciativa dos Arsenais da Marinha, em que eram ministrados conhecimentos sobre a construção naval82.

Quando D. João VI liberou a instalação de estabelecimentos industriais em 1809, foi criado, no Rio de Janeiro, o Colégio das Fábricas, destinado à formação dos artistas e aprendizes vindos de Portugal, com o objetivo de fornecer mão de obra para atender o Arsenal Real Império83. Em 1819 foi instituído o Seminário de Órfãos, onde se ensinavam ofícios para órfãos. Porém, em 1824, a primeira Constituição brasileira, outorgada por D.

Pedro I, proibiu as corporações de ofícios, abrindo uma grande lacuna no aprendizado profissional. Em seu lugar, privilegiou-se a cultura intelectual que, por sua natureza, acabava depreciando o trabalho manual e condenando os ofícios como atividade desprestigiada. Esta situação manteve-se durante todo o Império, caracterizado pela formação de doutores, bacharéis e letrados. Até a proclamação da República, para uma formação tecnológica mais ilustrada, o país contava apenas com a Academia Militar do Rio de Janeiro: fundada em 1810, foi dividida, mais tarde – em 1845 – em Escola Militar e Escola Central – que, em virtude de sua localização, contribuiu decisivamente para a fundação da primeira ferrovia brasileira, a Estrada de Ferro Mauá84.

Apenas com o advento da República é que ressurgiu a preocupação com o ensino de ofícios, mas a partir de iniciativas privadas e de sociedades civis organizadas com objetivos filantrópicos, já no final do século. De tais iniciativas, só seriam sentidos os impactos décadas mais tarde. Em São Paulo, um exemplo é a fundação da Sociedade Propagadora da Instrução Popular, como já mencionado anteriormente, o futuro Liceu de Artes e Ofícios. Outros exemplos na capital são o Instituto D. Rosa (1885) e o Liceu de Artes e Ofícios do Sagrado Coração de Jesus, criado por iniciativa de padres salesianos.

Além da necessidade de escolas técnicas e instâncias formalmente constituídas de ensino profissional – decorrente da antiga proibição do governo colonial e imperial –, também o grande aumento de estabelecimentos industriais no país exigiu a criação de novas escolas de ofícios. Em 1906, o presidente Afonso Pena, em seu discurso de

81 PEREIRA, Paulo César Xavier. São Paulo, a construção da cidade, 1872-1914. São Carlos, Rima Editora, 2004, pp. 24 a 26.

82 Ibid., pp. 71.

83 CONDEPHAAT, Relatórios de Processo de Tombamento. Colégio Técnico de Campinas, agosto/1983 (Centro de Memória Unicamp), p. 46.

84 Em 1854, com a implantação de um pequeno trecho de 15 km, a ferrovia fazia a ligação entre o porto de Mauá e Petrópolis.

77 posse, chamava a atenção para a “criação e a multiplicação de institutos de ensino técnico profissional, contribuindo também para o progresso das indústrias, proporcionando-lhes mestres e operários instruídos e hábeis”. A partir desse compromisso de posse, Pena sancionou um decreto que mandava criar o Ministério dos Negócios de Agricultura, Indústria e Comércio, para propor, entre outros assuntos, ações voltadas para o ensino profissional. Nesse mesmo ano, o engenheiro José Joaquim da Silva Freire criava, nas instalações da Estrada de Ferro Central do Brasil, a Escola Prática de Aprendizes de Oficinas85. Três anos depois, a Câmara dos Deputados propôs a habilitação do poder público para implementar escolas profissionais de âmbito federal.

No caso de já existir uma escola desse tipo, o governo auxiliaria o estabelecimento estadual com subvenção igual à cota destinada ao custeio da escola. Esse decreto, na opinião de Suckow da Fonseca, é o marco inicial das atividades do governo federal no campo de ensino de ofícios. Em 1910, foi inaugurada uma rede de estabelecimentos, mantida pelo governo federal, congregando as escolas de aprendizes artífices: a Escola Técnica Getúlio Vargas (masculina), em 1911, em São Paulo; a Escola Técnica Carlos de Campos (feminina), também em 1911 e também em São Paulo; a Escola Técnica João Belarmino, em Amparo; e Escola Técnica de Jundiaí (fechada logo em seguida).

Tais escolas, contudo, funcionavam em condições precárias, com um quadro profissional inadequado, dado que o corpo docente era composto por professores do ensino primário. Além disso, os edifícios eram inapropriados, dificultando o funcionamento das oficinas. Para melhorar a situação, Hermes da Fonseca regulamentou um decreto – Decreto no 9070, de 25/10/1911 – separando o curso primário dos cursos de ofícios, reservando o primeiro exclusivamente para aqueles que não sabiam ler, escrever e contar, e assegurando, inclusive, o ensino de “desenho para todos”. Já os cursos de ofícios, agregava-os nas Oficinas, com quatro horas por dia para os primeiros e segundos anos e seis horas por dia para os terceiros e quartos anos. O ensino ali incluía aulas teóricas e práticas, concretizando a proposta de educação profissional vigente à época, o “aprender fazendo”: os alunos poderiam, através da escola, receber encomendas e utilizar suas instalações para realizá-las. O regulamento de 1911 também se preocupou em atentar para as questões edilícias, relativas às instalações de ensino, melhorando as condições de iluminação, de insolação, ventilação e de abastecimento de água potável.

É importante ressaltar que a pretensão das escolas técnico-profissionais não era apenas fornecer mão de obra especializada, arvorando-se igualmente como promotora de benefícios sociais. Nesse sentido, é eloquente a frase de Francisco Joaquim

85 FONSECA, Celso Suckow da. História do ensino industrial no Brasil, Rio de Janeiro, 1962, p. 158.

78 Béthencourt, o criador da Sociedade Propagadora das Belas Artes, no Rio de Janeiro:

“Combater a ignorância é defender a liberdade”86. Também relevante é a manifestação do presidente Venceslau Brás Pereira Gomes, quando ressaltou a necessidade de se dar maior atenção às escolas primárias, com o objetivo de combater a “criminalidade, vagabundagem e o alcoolismo”. Para tanto, propunha a criação de escolas industriais de eletricidade, mecânica, química e comércio. O governo, porém, não se encontrava em condições econômicas adequadas para incrementar o ensino profissional, pois as exportações de café haviam decaído com a Primeira Guerra Mundial, gerando grandes dificuldades nas contas públicas.

A quantidade de pequenas indústrias, entretanto, não deixou de crescer paulatinamente, contribuindo para a ampliação da variedade de conhecimentos e especialidades profissionais exigidas, resultado da diversidade de problemas de ordem técnica demandados por esse nascente parque industrial. A falta de mão de obra para atender a demanda exigiu a criação de um maior número de escolas profissionais, além de melhorias nos métodos de aprendizagem87. No estado de São Paulo, foram criadas as seguintes escolas: em 1918, a Escola Profissional Masculina de Rio Claro; em 1924, a Escola Profissional Dr. Julio Cardos, em Franca; em 1927, o Instituto Borges de Artes e Ofícios, em Itu; em 1929, a Escola Profissional Fernando Prestes, em Sorocaba; em 1931, a Escola Profissional Mista Coronel Francisco Garcia, em Mococa; e em 1933, a Escola Profissional Mista de São Carlos88. Nesse período, foram aprovados diversos decretos no sentido de melhorar, sistematizar e legalizar essa modalidade de ensino.

Nessa fase inicial de incremento de escolas profissionais, o governo aprovou, através do Ministério da Agricultura, com João Gonçalves Pereira Lima à sua frente, um novo regulamento para as escolas de Aprendizes e Artífices que exigia, entre outros requisitos, o curso primário obrigatório e idade mínima de 10 anos (lei nº 3454 de 06/01/1918).

Foi nesse contexto, depois de muitos anos de luta para a consolidação de uma rede de escolas profissionais no Estado que, finalmente, foi criada em Campinas a Associação do Instituto Profissional Bento Quirino, em 25 de junho de 1915 – cujo edifício, projetado por Ramos de Azevedo, fora inaugurado em 1918.

86 Conforme o site www. educacional.com.br/revista/0408/pdf/02_Parceria.pdf

87 CONDEPHAAT, Relatórios de Processo de Tombamento. Colégio Técnico de Campinas, agosto/1983 (Centro de Memória Unicamp), p. 52.

88 Suckow da Fonseca, Celso. História do Ensino Industrial no Brasil, Rio de Janeiro, 1962, p. 327.

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