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CAPÍTULO 2. AS GUARRAS DA ÁGUIA: a política norte-americana para o

3. O SOBE E DESCE: o processo decisório no Brasil

3.5. O papel da imprensa

A imprensa brasileira, nos primeiros meses de 1965, mantinha um certo grau de liberdade. No entanto, os grandes jornais no Brasil tendem, por tradição, a ser

227 Ibidem., Entrevista, 09-05-1965 p. 26

conservadores. Consultamos aos principais cotidianos de então: Correio da Manhã (CM), Jornal do Brasil (JB), O Estado de São Paulo (OESP) e O Globo (OG).

A imprensa publicou, basicamente, quatro Grandes categorias de artigos.

l) Notícias da situação dominicana fornecidas por grandes agências internacionais (Associated Press, AP, United Press International, UPI, Reuters e Agence France Presse, AFP). Estas divergiam quanto ao conteúdo das notícias. A UPI (norte-americana), sendo tendenciosa em favor da junta militar; a AFP, mais isenta, desmentindo em mais de uma ocasião as notícias da primeira, em particular a respeito das violações de direitos humanos (verdadeiras no caso da junta e falsas no caso dos constitucionalistas, conforme provaram a ONU e a OEA).

2) Notícias com declarações dos principais formuladores de política, no caso brasileiro - Presidente da República, Ministros, Deputados e Senadores.

3) Notícias com relatos dos enviados especiais à S. Domingos. 4) Editoriais e colunas assinadas comentando a situação.

Acreditamos não ser interessante traçar aqui um relatório do noticiário internacional da crise dominicana. Fica apenas o registro da “guerrilha” UPI-AFP e a manipulação da informação pelas grandes potências. Quanto às três categorias restantes, optamos por apresentá-las (seletivamente, pois consultamos mais de 300 artigos) em ordem cronológica, por assunto, destacando sinteticamente, em conclusão, o posicionamento de cada órgão da imprensa. Muitas notícias de jornais provam, pelo que lemos, uma interação entre estes e o Congresso Nacional. Encontramos muitos artigos e citações reproduzidas depois em discursos e vice-versa.

3.5.1.Notícias referentes ao papel do Brasil na crise, inclusive na OEA.

A 30 de abril encontramos os primeiros artigos que se relacionam com o escopo do presente trabalho.229 O JB traçou um recapitulativo das intervenções norte-americanas na América Latina muito utilizado no Congresso, e o CM publicou uma retrospectiva do 229 “EUA intervieram 65 vezes no Hemisfério” In Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 30-04-1965, caderno 1 . p.

sistema interamericano230. Nos dias seguintes, a atenção se concentrou na OEA: a dois de maio, o OESP informou sobre a formação do Comitê de Paz e dos debates231, e o JB sobre a situação em S. Domingos232. Com a chegada de Harriman, as notícias intensificaram-se: a quatro de maio, o OESP noticiou o apoio brasileiro aos EUA233, com entrevistas de Harriman e Vasco. No dia seguinte, um dos ápices da informação: o JB noticiou os debates na Câmara234 e no Senado235 e, mais interessante ainda, uma passeata dos estudantes dominicanos em frente à embaixada dos EUA, à época na cidade do Rio de Janeiro. Divulgou estes um comunicado do qual destacamos o seguinte trecho: “Estamos indignados e repudiamos as clássicas agências internacionais que, uma vez mais, tentam apresentar à opinião pública mundial a luta democrática de um povo como revolução comunista”236. Tal excerto ilustra nossa afirmação anterior sobre a manipulação de notícias.

Também no JB encontramos informações sobre o debate na OEA, onde foi rechaçada a proposta norte-americana de criação de uma Força internacional de Paz Permanente237. Os únicos votos favoráveis foram os da Bolívia, Brasil, Argentina e Paraguai. No mesmo dia cinco, em página inteira desse periódico, comentou-se a situação dominicana anunciando o envio de tropas238, o apoio à permanência de tropas norte- americanas pelo Chanceler239 e a mobilização do bloco governamental no Congresso240.

230 “Intervenções e textos” In Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 30-04-1965. caderno 1, p.4. 231 “A OEA forma comitê de Paz” In O Estado de São Paulo. São Paulo, 02-05-1965. caderno 1. p.1. 232 “Mediação” In Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 02-05-1965, caderno 1 . p.3.

233 “Brasil vai apoiar proposta dos EUA para S. Domingos” In O Estado de São Paulo. São Paulo, 04-05-

1965. caderno 1. p.8.

234 “Oposição combate na Câmara envio de Tropas” In Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 03-05-1965, caderno

1 . p.4-5.

235 “Líder do governo explica no Senado posição do Brasil como sinal de virilidade” In Jornal do Brasil. Rio

de Janeiro, 03-05-1965, caderno 1 . p 4.

236 “Policia dissolve passeata de estudantes dominicanos na Embaixada americana. ” In Jornal do Brasil. Rio

de Janeiro, 05-05-1965, caderno 1 . p4.

237 “OEA não acha solução e EUA vão mudar proposta” In Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 05-05-1965,

caderno 1 . p2.

238 “Brasil manda tropas e apóia OEA, diz Castelo a Harriman” In Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 05-05-

1965, caderno 1 . p3.

239 “Vasco diz que tropas dos EUA tem de ficar” In Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 05-05-1965, caderno 1 .

p3.

Importante também é a previsão do adiamento da Conferência da OEA no Rio241, um dos instrumentos do governo Castello Branco para tentar projetar-se no âmbito interamericano.

Dia seis de maio, destaque para a assinatura da Ata de S. Domingos, que estabelecia uma trégua no conflito e era o primeiro passo rumo a uma saída do impasse.242 O CM destacou o manifesto de 131 intelectuais contra a intervenção norte-americana243, condenando não somente os EUA, mas também a atitude do governo brasileiro. O JB enfocou os debates na Câmara, em particular da oposição244, assim como o OESP245, dando a tônica geral da imprensa. O governo não usufruiu da unanimidade dos periódicos. Preferiram eles, até onde lemos, enfatizar as vozes discordantes.

Após a missão Harriman, deu-se um intervalo no noticiário, até à chegada do pedido de tropas pela OEA. A destacar, a polêmica pelo apoio de certos líderes sindicais (Ruder Blum e Vicente Orlando, da Confederação Nacional dos trabalhadores da Indústria, CNTI) ao governo246, logo desmentido pela CNTI, que disse estarem eles agindo apenas “em nome próprio e não da entidade”247. A 18 de maio apareceram comentários sobre as discussões na Câmara248, com participação de membros da situação e da oposição, informando ainda sobre os acontecimentos dominicanos e a rivalidade ONU/OEA249, sendo mias completas as do OESP. No dia seguinte, as notícias relatavam a tranqüilidade do governo quanto à aprovação da mensagem presidencial, dando já o envio de tropas como fato consumado.

O noticiário acompanhou então o desenrolar da votação e a evolução em S. Domingos. Os editoriais e artigos assinados, como veremos na próxima seção, davam a

241 “Previsto adiamento da Conferencia da OEA no Rio” In Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 05-05-1965,

caderno 1 . p3.

242 “Assinado em S.Domingos acordo para fim da luta”In O Globo. Rio de Janeiro, 06-05-1965. caderno 1.

p.8.

243 “Intelectuais são contra intervenção no Caribe’ In Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 06-05-1965, caderno

1, p.1.

244 “Carta da OEA está rasgada e jogada à lata do lixo, diz deputado na Câmara” In Jornal do Brasil. Rio de

Janeiro, 06-05-1965, caderno 1 . p.8.

245 “Debates sobre posição do Brasil” In O Estado de São Paulo. São Paulo, 06-05-1965, caderno 1, p.8. 246 “Sindicalistas apóiam decisão do governo sobre S. Domingos” In O Estado de São Paulo. São Paulo, 11-

05-1965, caderno 1, p.6.

247 “Remessa de tropas suscita desmentido” In Correio da Manha, Rio de Janeiro, 13-05-1965, caderno 1,

p.10.

248 “Relator da Comissão de Justiça é favorável ao envio de tropas”. In O Estado de São Paulo, São Paulo,

18-05-1965, caderno 1, p.8.

opinião dos órgãos de imprensa a respeito da decisão do governo na crise dominicana e dos problemas da OEA e de todo o sistema interamericano.

3.5.2.Editoriais e artigos assinados.

Esta é outra dimensão da imprensa, que se caracteriza por através de informações, fornecer elementos de julgamento ao leitor. Através de seus editoriais e artigos assinados cada órgão de imprensa comentava os fatos e pretendia formar a opinião. Convém frisar que acreditamos que dificilmente exista notícia neutra, pois mesmo na origem as grandes agências internacionais já manipulam os fatos, ainda que pelo simples processo de seleção. Procederemos aqui a uma abordagem por ordem cronológica, detendo-nos no instante do embarque do FAIBRAS.

A três de maio, o JB publica seu editorial intitulado “Pax Americana”. Nele, condenava a intervenção dos EUA e apelava para um reexame do sistema interamericano, que incluiria a formação de uma força armada permanente. Insistiu o JB, no seu editorial de cinco de maio250, em criticar o governo Castello Branco por justificar o envio de tropas brasileiras com base em textos e tratados já ultrapassados e reiterou a necessidade de reforma do sistema interamericano. No mesmo dia, Martins251, no JB, equiparou a invasão da República Dominicana à invasão da Áustria por Hitler, em evidente exagero, semelhante ao de alguns no Congresso, que compararam os argumentos de Johnson aos de Hitler e concluíram que, pela Doutrina Johnson, não existiam mais soberanias nacionais.

A comparação de Martins fez sucesso e foi retomada por Carpeaux252, dois dias depois, no CM em que critica a atitude brasileira. Uma semana transcorreu e Sobrinho253, a 16 de maio, atacou os argumentos norte-americanos e brasileiros de defesa do Hemisfério contra o comunismo. Ironizando - o anticomunista só se aplicaria a fracos, pois os fortes (URSS, China) seriam poupados desta estratégia.

250 “PAX Americana” In Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 03-05-1965, caderno 1, p.2.

251 MARTINS, Mario. “Agressão e traição” In Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 05-05-1965, caderno 1, p.6. 252 CARPEAUX, Otto M . “ O Doutor Fantástico em ação” In Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 07-05-

1965, caderno 1, p.4.

253 SOBRINHO, Barbosa Lima. “ A matéria prima dos pretextos” In Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16-05-

Por fim, a 21 de maio, Carpeaux254 critica, em artigo de primeira página do CM, o deputado Paulo Sarasate (UDN/CE) que declarou que “os Estados Unidos, violando a Carta da OEA, teriam suas razões”. Desfez o perigo representado pelos 58 comunistas em São Domingos frisando, causticamente, que naquela altura os norte-americanos dispunham de 520 homens e quatro aviões para cada um, e finalizou ainda citando motivos econômicos na queda de Bosch em 1963, utilizando argumentos do Senador Ermírio de Morais.