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3. COMPOSIÇÃO E PERFORMAÇÃO DE SITUAÇÕES MUSICAIS

3.1 Mediação informática

3.1.2 A formalização de um campo de experiência

3.1.2.3 O paradigma do modelo o desenho como disciplina

“Penso que o desenho é uma forma de vida, uma maneira de existir.”

Rui Chafes 85

“Agir é construir, destruindo.” Teixeira de Pascoaes 86

O conceito de desenho a que aqui nos referimos implica, tal como atrás aludimos, o que podemos compreender como uma acção de destruição, irremediavelmente instantânea ao próprio gesto e radicalmente subjectiva, de qualquer objecto que tomemos como modelo. Trata-se de um processo de construção pela subjectivização do olhar, tendo no seu centro uma imagem (entendendo aqui por imagem toda a informação que nos chega a partir de qualquer uma das modalidades perceptivas).

Manuel Castro Caldas (n. 1954), director da escola do Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), com o qual temos vindo a colaborar durante os últimos anos no contexto da criação e orientação de um Laboratório de Som e Composição, enquadra, parece- nos que da melhor forma, a funcionalidade que a prática do desenho pode adquirir no contexto da criação artística:

“Rawson [Philip] dizia que os nossos olhos nunca são confrontados, na Natureza, com as linhas e as relações entre linhas que, segundo ele, são o material cru do desenho. Penso que o que fascina aqueles para quem o desenho constitui uma categoria especial é efectivamente este «pensar» sem uma correspondência visual possível, que nos coloca de um modo drástico em relação com o invisível, com o possível, com o virtual - e com o mental, com o intelectual, com o teórico. Traçam-se linhas, unem-se pontos… e o mundo visível não é feito de linhas e pontos. Daí que se trate sempre, muito claramente, de uma questão destas linhas em vez de outras, destes pontos em vez de outros, a subjectividade extrema (de que fala Rawson) oferecida à partilha. (…) Unimos pontos invisíveis, obliterando, deformando, torcendo, passando por cima do que está ali, isso de que a

O Génio do Olhar - desenho como disciplina 1991-1999 é o título de uma exposição comissariada por Manuel 84

Castro Caldas e realizada no Museu de Aveiro em 2000. (Chafes, 2005: 100).

85

(Pascoaes, 1998: 32). 86

página em branco está sempre cheia, de que o visível está sempre demasiado cheio. Segue-se uma matéria invisível, todas as artes fazem isto, evidentemente, mas o desenho surge-nos como procedimento e gráfico do procedimento em simultâneo, há nele uma

transparência constitutiva. Por isso falar de desenho é tão difícil, parece que estamos a

descrever o que já está descrito da maneira mais económica, mas sóbria, mas «inteligente».” (Castro Caldas, 2008: 19)

Embora faça questão de se desmarcar de quaisquer afinidades com o empenho social do movimento construtivista: “não estou do lado dos conceptuais ou dos constructeurs, por muito prometedores que sejam; a arte é sempre desilusão, nunca promete nada”, o escultor português Rui Chafes (n. 1966) não deixa de anunciar o seu comprometimento com o ideal de um “rigor poético como forma de construção da realidade.” (Chafes, 2005: 110-11). O exemplo de Chafes parece-nos especialmente pertinente porque, muito embora se trate de um escultor, reconhece como primordial na sua produção artística a prática do desenho, atribuindo à ideia o primado da sua actividade criativa e refutando mesmo um apego à sua materialização concreta: “todo o rigor de que necessito para executar uma ideia está no desenho. O espaço em que as peças actuam é abstracto”. (Chafes, 2005: 123)

“Construo objectos em ferro sem acreditar na existência de objectos, sem acreditar em matérias. Por isso, todos estes objectos têm de ter um estatuto de ideia. É essa a dificuldade, o eterno paradoxo: criar objectos de matéria para provar que eles não existem. Não acredito em objectos, mas sei que só posso demonstrar a sua ideia por meio de objectos. É tudo o que me é possível fazer. (...) Os objectos artísticos (...) são apenas possibilidades, não são certezas” (Chafes, 2005: 119).

Trata-se de compreender o desenho como uma descrição de possíveis materializações, como a definição de uma classe de objectos, de carácter simbólico e abstracto, da qual resultam manifestações concretas de qualidades puramente contingentes:

“cada escultura em ferro que faço é apenas uma possibilidade, uma hipótese, não é um fim em si própria, nem tão-pouco o fim de um processo experimental de uma técnica. É uma hipótese dessa ideia formal que quero demonstrar. Daí o facto de ter anulado a ideia do objecto como o culminar da pesquisa técnica.” (Chafes, 2005: 130)

A prática interessada do desenho parece então pressupor um trabalho de construção marcadamente subjectivo, tomando a percepção como centro para a articulação desse mesmo processo construtivo:

“ao permitir a verificação subjectiva das condições que permitem a emergência do símbolo, o regime de construção educa («o desenho é um dos mais importantes elementos na educação do olhar e no desenvolvimento da percepção visual»); (...) A dedicação disciplinar ao treino, à instrução, é uma educação da atenção para a subjectividade absoluta. Esta subjectividade não encerra os caprichos do eu, não é um campo psicológico, ela é a comunidade de todos aqueles a quem o poder do codificado abandonou, porta aberta para a duplicação criativa do cifrado, acesso ao Novo. (...) O que se constrói e consolida na disciplina não é o saber-fazer que produz o Belo, mas essa dedicação que abre as portas do ethos, tornando o saber-fazer num gesto que qualifica esteticamente o seu resultado.” (Castro Caldas, 2000: 14-15)

Desta forma, esta aproximação ao desenho parece levar ao desenvolvimento simultâneo e aparentemente paradoxal de um constante refinamento da percepção do mundo e de um desinteresse quase total pela sua representação objectiva, acentuando o desejo de construção de uma realidade própria, plenamente subjectiva: “a realidade, o mundo real, não me interessam, tudo o que faço é inventado. Acredito, como Oscar Wilde, que a arte deve ser uma mentira, o mundo construído, absolutamente artificial.” (Chafes, 2005: 141)