• Nenhum resultado encontrado

Parte II – Metodologia

4. A RELAÇÃO TRABALHO/VIDA PESSOAL E O ENVOLVIMENTO COM OS DIFERENTES DOMÍNIOS

4.1. O passado e o presente – que padrões se alteraram?

Ser um profissional de saúde não é, por razões caracterizantes de uma organização de saúde, uma profissão que possa ser encarada como constante e inalterável. Paralelemente, há acontecimentos na vida pessoal e profissional de cada colaborador que podem alterar um padrão anterior.

No caso dos profissionais do Hospital de Braga, estes acontecimentos centram-se, na sua maioria, em acontecimentos da vida pessoal, tais como o nascimento de filhos e a vida conjugal, mas também devido à reestruturação e algumas alterações ao SNS e conjuntura atual. Neste último ponto, inclui-se, o aumento de cargas horárias, os congelamentos dos reposicionamentos salariais, a limitação de contratação de recursos humanos, assim como a passagem de uma

62

gestão inteiramente pública para uma gestão público-privada, situação que dividiu as opiniões dos colaboradores do Hospital de Braga.

A maioria dos discursos dos entrevistados revelam que se torna significativamente mais difícil o relacionamento entre a vida laboral e a vida pessoal à medida que se vai construindo família, se cumprem as exigências do trabalho, e ainda se gerem os desafios impostos pela conjuntura atual. Esses discursos foram evidenciados na resposta a questões de caracterização das relações entre o trabalho e a vida pessoal ao longo da vida profissional.

“No passado já foi muito boa [sem filhos, menor carga laboral/semana], em que trabalhava a 35 horas por semana, era melhor remunerado, e na vida pessoal refletia-se também essa benesse do trabalho. Neste momento trabalho a 40h semanais que nunca são 40h, são sempre mais. No meu serviço temos uma pressão enorme, mas eu sempre também trabalhei em serviços como o meu por isso nesse facto será igual. Mas neste momento acho que está pior, a relação trabalho vida pessoal, porque tenho muito menos tempo para a vida pessoal. Mas eu falo por mim, a minha relação trabalho vida pessoal, o trabalho está a pesar muito na minha vida pessoal.” (Enfermeiro, em união de facto e com um filho, em regime de horário por turnos)

“Tem piorado, claramente. Mais trabalho e menos tempo para nós e para a família, apesar de eu ter passado para um horário que supostamente me iria melhorar essa parte, mas acaba-se por levar o trabalho para casa.” (Enfermeiro-chefe, casado e com dois filhos)

“Já foi bem mais fácil, porque eu sendo [antes] solteira, não tinha uma casa, um filho e o trabalho todo de casa por minha conta, era muito mais facilitado. E agora, agora é bem mais complicado: com um filho de 3 anos, que requerer muita atenção da minha parte; e o meu marido quando está ausente é tudo para mim, e não é muito fácil mas … Eu não me posso queixar muito da vida que eu tenho, sinceramente, mas que é mais difícil, é!” (Assistente Operacional, casada, com um filho e em regime de horário flexível atualmente)

63

“Foi sendo progressivamente mais difícil [risos], porque inicialmente era solteira, não tinha filhos, trabalhava até noutra cidade, portanto era tudo bem mais fácil. Em relação à minha vida pessoal, estava longe dos meus pais sim, agora neste momento, a partir do momento em que passei a viver com outra pessoa, mudamos novamente de cidade e de hospital. Ficamos mais perto das nossas famílias, mas continuamos sozinhos, e a opção de ter um filho e contruir família, numa cidade em que a nossa rede de suporte familiar não existe… Portanto, contamos um com o outro, e foi sendo mais difícil adequar a nossa vida profissional com a nossa vida pessoal. Tudo se faz. Tem-se feito, e há um ano que se faz [risos]. Mas é mais difícil de gerir, o tempo é mais difícil de gerir.” (Enfermeira, em união de facto e com um filho, em regime de horário por turnos)

“Acho que cada vez se tem tornado mais difícil, por diversas razões, quer por alterações do estado da minha vida pessoal, estado civil, filhos, por alterações a nível das políticas laborais e também, se calhar, por alteração do Estado. Como é que eu hei-de dizer isto? Eu antes trabalhava numa instituição que era puramente do sector público e agora trabalho numa instituição que é empresarial e que tem objetivos diferentes e com certeza que isso também interfere na dinâmica, na distribuição do trabalho, na carga de trabalho, que veio também agravar… foi as 40 horas, porque uma coisa é ter uma carga horária de 35… [Agora] são mais 5 horas, que acaba por fazer diferença.” (Enfermeiro, casado e com dois filhos, em regime de horário por turnos)

Há ainda relatos de profissionais que caracterizam a sua situação passada e presente de modo muito semelhante quanto à relação trabalho e vida pessoal.

“Quase sempre conflituosa. É muito difícil fazer um horário rotativo e… pertencer a qualquer grupo social ou ter qualquer afinidade minimamente fixa, [como] natação… Mesmo os miúdos vão-se adaptando ao longo da vida… nunca têm um dia certo de explicação, um dia certo de natação… Eu acho que as instituições já estão um bocado habituadas a isso, é sempre um enfermeiro que pede: ‘Se não poder vir na segunda, pode vir na quarta?’ [risos]. É um

64

bocadinho conflituosa [sempre com a preocupação de ajustar os horários das atividades dos filhos, tarefas de casa com um horário por turnos] …” (Enfermeira, casada, com dois filhos e em regime de horário fixo atualmente)

Entre os entrevistados também se encontram discursos que revelam a diminuição do conflito trabalho/vida pessoal:

“É assim, sendo enfermeira e trabalhando em um horário rotativo, acaba por ser sempre mais difícil conciliar a vida profissional com a vida pessoal. Trabalho aos fins de semana, noites, festas, e acaba por haver sempre algum conflito, mas vai-se fazendo a gestão da melhor maneira possível abdicando daquilo que é possível. A verdade é que para mim neste momento há menos conflito porque trabalho em um serviço, de modo que, o sistema rotativo é mais controlado do que nos serviços onde eu trabalhei antes. Agora nós temos equipas, dessas equipas orientamos o rotativo e eu sei em que meses trabalho em rotativo e em que meses trabalho em fixo, e tenho uma rotação fixa, portanto consigo estabelecer mais ou menos a minha vida.” (Enfermeira, casada e com um filho, em regime de horário por turnos)

“Já foi pior, à medida que os miúdos vão crescendo, eles vão criando alguma independência, e por vezes se tiverem que ficarem um tempinho sós, já ficam. Não é fácil, tem que se fazer bastante ginástica para conciliar os meus horários com os horários da escola, com os horários do desporto, da música que os miúdos frequentam, o pai trabalha por turnos, isto tudo exige muita ginástica. E por vezes pedir ajuda de familiares porque tenho essa necessidade devido aos turnos, principalmente quando eram mais pequenos.” (Assistente técnica, casada e com dois filhos)