2 A POLÍTICA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL E AS REQUISIÇÕES DO
2.3 A METODOLOGIA DO TRABALHO SOCIAL NO SUAS
2.3.4 O perfil profissional do Trabalhador do SUAS
O documento “Orientações Técnicas para Centros de Referência da Assistência Social – CRAS” (2009) apresenta o perfil e as atribuições dos diversos profissionais no CRAS/PAIF. Destacamos no Quadro 05, abaixo, apenas o direcionamento ao Técnico de Nível Superior.
Quadro 05 – Perfil e atribuições: Técnico de Nível Superior em CRAS, conforme MDS Perfil:
Escolaridade mínima de nível superior, com formação em Serviço Social, psicologia e/ou outra profissão que compõe o SUAS (dependendo do número de famílias referenciadas ao CRAS e porte do município, conforme a NOB-RH); com experiência de atuação e/ou gestão em programas, projetos, serviços e/ou benefícios socioassistenciais; conhecimento da legislação referente à política nacional de assistência social; domínio sobre os direitos sociais; experiência de trabalho em grupos e atividades coletivas; experiência em trabalho interdisciplinar; conhecimento da realidade do território e boa capacidade relacional e de escuta das famílias.
Atribuições:
• Acolhida, oferta de informações e realização de encaminhamentos às famílias usuárias do CRAS;
• Planejamento e implementação do PAIF, de acordo com as características do território de abrangência do CRAS; • Mediação de grupos de famílias dos PAIF;
• Realização de atendimento particularizados e visitas domiciliares às famílias referenciadas ao CRAS; • Desenvolvimento de atividades coletivas e comunitárias no território;
• Apoio técnico continuado aos profissionais responsáveis pelo(s) serviço(s) de convivência e fortalecimento de vínculos desenvolvidos no território ou no CRAS;
• Acompanhamento de famílias encaminhadas pelos serviços de convivência e fortalecimento de vínculos ofertados no território ou no CRAS;
• Realização da busca ativa no território de abrangência do CRAS e desenvolvimento de projetos que visam prevenir aumento de incidência de situações de risco;
• Acompanhamento das famílias em descumprimento de condicionalidades;
• Alimentação de sistema de informação, registro das ações desenvolvidas e planejamento do trabalho de forma coletiva.
• Articulação de ações que potencializem as boas experiências no território de abrangência; • Realização de encaminhamento, com acompanhamento, para a rede socioassistencial; • Realização de encaminhamentos para serviços setoriais;
• Participação das reuniões preparatórias ao planejamento municipal ou do DF;
• Participação de reuniões sistemáticas no CRAS, para planejamento das ações semanais a serem desenvolvidas, definição de fluxos, instituição de rotina de atendimento e acolhimento dos usuários; organização dos encaminhamentos, fluxos de informações com outros setores, procedimentos, estratégias de resposta às demandas e de fortalecimento das potencialidades do território.
Da análise do Quadro, observamos que o perfil e as competências são generalistas para o rol de profissões enumeradas na NOB RH SUAS. Esta classificação generalista, sob o codinome de “trabalho social”, invisibiliza o conteúdo das profissões, o protagonismo profissional – seus processos de construção histórico, político e social. Desconsidera as atribuições privativas de cada profissional. Torna o trabalho interdisciplinar uma espécie do trabalho social, em que todos os profissionais são arrolados da mesma forma e desempenham as mesmas funções junto às famílias – função protetiva. Desse modo, desconsidera-se também a identidade profissional, essencial ao trabalho interdisciplinar em que cada um tem seu papel a desempenhar.
Nesse sentido, a política social assume a função de reguladora das relações de trabalho na sociedade capitalista o que pressupõe adesão, pelos trabalhadores, através dos ditames da política social, o que se consubstancia como alienação do trabalho.
Quanto ao perfil e atribuições dos profissionais de nível superior que devem atuar na equipe técnica de CREAS, acrescenta-se que, em muitos aspectos, se assemelha aos requeridos para o CRAS e que especifica apenas o trabalho do advogado, que é de orientação jurídico-social, conforme observado no Quadro 06, abaixo.
Quadro 06 – Perfil e atribuições Técnico de Nível Superior em CREAS conforme MDS Perfil:
• Escolaridade mínima de nível superior, com formação em Serviço Social, Psicologia, Direito;
• Conhecimento da legislação referente à política de Assistência Social, direitos socioassistenciais e legislações relacionadas a segmentos específicos (crianças e adolescentes, idosos, pessoas com deficiência, mulheres etc.);
• Conhecimento da rede socioassistencial, das políticas públicas e órgãos de defesa de direitos;
• Conhecimentos teóricos, habilidades e domínio metodológico necessários ao desenvolvimento de trabalho social com famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos (atendimento individual, familiar e em grupo);
• Conhecimentos e desejável experiência de trabalho em equipe interdisciplinar, trabalho em rede e atendimento a famílias e indivíduos em situação de risco pessoal e social, por violação de direitos;
• Conhecimentos e habilidade para escuta qualificada das famílias/indivíduos. Atribuições:
• Acolhida, escuta qualificada, acompanhamento especializado e oferta de informações e orientações;
• Elaboração, junto com as famílias/indivíduos, do Plano de acompanhamento Individual e/ou Familiar, considerando as especificidades e particularidades de cada um;
• Realização de acompanhamento especializado, por meio de atendimentos familiar, individuais e em grupo; • Realização de visitas domiciliares às famílias acompanhadas pelo CREAS, quando necessário;
• Realização de encaminhamentos monitorados para a rede socioassistencial, demais políticas públicas setoriais e órgãos de defesa de direito;
• Trabalho em equipe interdisciplinar; • Orientação jurídico-social (advogado);
• Alimentação de registros e sistemas de informação sobre das ações desenvolvidas;
• Participação nas atividades de planejamento, monitoramento e avaliação dos processos de trabalho;
• Participação das atividades de capacitação e formação continuada da equipe do CREAS, reuniões de equipe, estudos de casos, e demais atividades correlatas;
• Participação de reuniões para avaliação das ações e resultados atingidos e para planejamento das ações a serem desenvolvidas; para a definição de fluxos; instituição de rotina de atendimento e acompanhamento dos usuários; organização dos encaminhamentos, fluxos de informações e procedimentos.
Fonte: MDSA (2011, P. 99)
O desempenho destas atribuições é essencial para que a atenção ofertada nos Serviços do SUAS possa atingir seus objetivos, quais sejam:
o fortalecimento da função protetiva da família; a construção de possibilidades de mudança e transformação em padrões de relacionamento familiares e comunitários com violação de direitos; a potencialização dos recursos para a superação da situação vivenciada e a reconstrução de relacionamentos familiares, comunitários; o empoderamento e a autonomia; o exercício do protagonismo e da participação social; o acesso das famílias e indivíduos a direitos socioassistenciais e à rede de proteção social; e a prevenção de agravamentos e da institucionalização (MDS, 2011, p. 60). De acordo com Silveira Júnior (2016, 204), a metodologia do trabalho social com família consiste em atuar nas condições do contexto, focado na estrutura de oportunidades e necessidades personalizadas. Nessa perspectiva, a dimensão psicossocial é restringida às “ações (e não ações) das famílias, para prevenir, mitigar ou enfrentar os riscos”. O trabalho social é “personalizado”, “à la carte” com vistas a atender às especificidades, dentre as quais o empoderamento figura como processo e resultado do trabalho social.
Nesse sentido, de acordo com Silveira Júnior (2016, p.210), exige-se um profissional que, na composição de seu perfil, agregue “qualificações, destrezas e habilidades que vão além de formação profissional técnica convencional, setorial e unidimensional” e demonstre capacidade de desenvolver relações de referência e também vínculos psicoemocionais.
Da análise do trabalho social no SUAS, observa-se uma maior responsabilização dos quadros técnicos sobre os resultados a serem alcançados com a política de assistência social. Exige-se que o trabalhador do SUAS seja um “superprofissional” que apresente um perfil que dê conta de uma enormidade de atribuições e que possa responder às demandas dos usuários do SUAS por serviços, benefícios e apoio psicossocial e psicoemocional às famílias de modo a favorecer sua (da família) capacidade protetiva.
Dessa forma, o Estado – o provedor dos serviços e benefícios socioassistenciais - cada vez mais se desresponsabiliza à medida que credita ao trabalhador do SUAS a responsabilidade pelo provimento desses serviços e benefícios sem, no entanto, promover as condições objetivas necessárias à sua realização e concessão. Outro aspecto relevante é a condução política, teórica e metodológica do trabalho social com famílias; à medida que responsabiliza a família por sua situação de pobreza expressa na vulnerabilidade social, notadamente se exime de prover os meios para superação da pobreza, uma vez que a família é a única responsável.
Os próximos capítulos reservamos ao estudo das condições objetivas de trabalho do assistente social no SUAS, as possibilidades e os limites do trabalho profissional e a direção social do trabalho profissional, considerando as relações de subordinação do trabalho profissional do assistente social no SUAS.
3 O ASSISTENTE SOCIAL NO SUAS: TRABALHO E SUBORDINAÇÃO