Com o propósito de estabelecer o limite exterior da plataforma continental brasileira no seu enfoque jurídico, ou seja, determinar a área marítima além das 200 milhas na qual o Brasil exercerá direitos de soberania para a exploração e o aproveitamento dos recursos naturais do leito e do subsolo do mar, o Governo brasileiro instituiu, pelo Decreto nº 98.145 de 15 de setembro de 1989, o Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira (LEPLAC), em cumprimento ao seguinte preceito estabelecido na CNUDM:
Quando um Estado costeiro tiver intenção de estabelecer, de conformidade com o artigo 76, o limite exterior da sua plataforma continental além de 200 milhas marítimas, apresentará à Comissão, logo que possível, mas em qualquer caso no prazo de dez anos a contar da entrada em vigor da presente convenção para o referido Estado, as características de tal limite juntamente com informações científicas e técnicas de apoio. O Estado costeiro comunicará ao mesmo tempo os nomes de quaisquer membros da Comissão que lhe tenham prestado assessoria científica e técnica.
(CNUDM, 1985, anexo II, art. 4).
As atividades de levantamento de perfis geofísicos teve início em junho de 1987, dois anos antes da criação do LEPLAC, com a primeira Comissão de Levantamento efetuada pelo Navio Oceanográfico Almirante Câmara, da Marinha do Brasil, e foram desenvolvidas conjuntamente pela Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), pela Empresa Brasileira de Petróleo S.A. (Petrobras) e pela Comunidade Científica Brasileira, sob a coordenação da Comissão Interministerial
para os Recursos do Mar (CIRM), criada, pelo Decreto-Lei no 74.557 de 12 de setembro de 1974, com a finalidade de assessorar o Presidente da Republica na consecução da Política Nacional para os Recursos do Mar (PNRM) (BRASIL, 2012c).
Durante toda a fase de aquisição de dados, que terminou em novembro de 1996, da qual participaram quatro navios da Marinha do Brasil em 20 comissões, foram coletados cerca de 50.366 km de perfis sísmicos de reflexão multicanal, 90.707 km de perfis batimétricos, 93.604 km de perfis magnetométricos e 97.237 km
de perfis gravimétricos, ao longo de toda a extensão da margem continental brasileira (Fig. 5) (BRASIL, 2012b).
A Proposta de Limite Exterior da Plataforma Continental Brasileira foi protocolada em 17 de maio de 2004 à Comissão de Limites da Plataforma
Figura 5 – Mapa de localização das linhas geofísicas do projeto LEPLAC Fonte: Moura Neto (2012)
Continental (CLPC), na sede da ONU, por intermédio do Ministério das Relações Exteriores, a fim de ser apreciada por aquela Comissão. A proposta brasileira foi exposta e defendida perante a CLPC no período de 30 de agosto de 2004 a 17 de setembro de 2004, e uma subcomissão de sete peritos internacionais dessa comissão foi, em seguida, designada para analisá-la detalhadamente (BRASIL, 2012c).
Ocorreram diversas interações entre essa subcomissão e delegações brasileiras (abril/maio de 2005, agosto/setembro de 2005, março e setembro de 2006), sucedendo a última em 27 de março de 2007, com a presença de todos os membros da CLPC. Nessa ocasião, foram minuciosamente apresentados à Comissão os argumentos científicos e técnicos que embasaram a proposta brasileira (BRASIL, 2012c).
A CLPC concluiu a análise da proposta brasileira em abril de 2007, quando encaminhou suas recomendações relativas à mesma ao Governo Brasileiro. As recomendações recebidas foram desfavoráveis a cerca de 189 mil km2 da área pleiteada de aproximadamente 960 mil km2 de plataforma continental além das 200 milhas, e refere-se ao Cone do Amazonas, às Cadeias Norte Brasileira e Vitória-Trindade e à Margem Continental Sul da plataforma continental brasileira, o que não foi aceito pelo Governo Brasileiro. ―A área não aceita pela CLPC corresponde, aproximadamente, a 4,2% da área de nossa Amazônia Azul e a 19% da área da nossa plataforma continental estendida.‖ (BRASIL, 2012c, não paginado).
A fim de sustentar o pleito inicial, a CIRM, na sua 168ª Sessão Ordinária, decidiu coletar novos dados oceanográficos para que fosse elaborada uma Proposta Revisada de Limite Exterior da Plataforma Continental Brasileira além das duzentas milhas, a ser oportunamente encaminhada à CLPC. Por despacho exarado na Exposição de Motivos nº 263, de 16 de junho de 2008, publicada no DOU nº 127, de 4 de julho de 2008, a elaboração dessa Proposta Revisada foi autorizada pelo Exmº Sr. Presidente da República, que posteriormente sancionou a Lei nº 11.824/2008, por intermédio da qual foi aprovado um crédito especial para custear as despesas decorrentes da elaboração da Proposta Revisada (BRASIL, 2012c).
A aquisição de novos dados geofísicos ao longo da margem continental brasileira foi efetuada pelos navios de pesquisa M/V Sea Surveyor (Bahamas) e R/V Professor Logachev (Rússia), nos quais embarcaram pesquisadores de universidades e Oficiais de Marinha brasileiros.
O M/V Sea Surveyor realizou, no período de 14 de março de 2009 a 27 de maio de 2010, investigação científica marinha na Margem Continental Sul, Margem Meridional Brasileira, Cadeia Norte Brasileira e Delta do Amazonas. Durante as 13 comissões realizadas por esse navio de pesquisa, foram coletados dados de batimetria multifeixe, sísmica multicanal, gravimetria, magnetometria, sonoboias e perfilador de subfundo (BRASIL, 2012b).
O R/V Professor Logachev realizou, no período de 22 de fevereiro de 2010 a 18 de abril de 2010, dragagens de rochas frescas na Cadeia Vitória-Trindade (13 amostras) e na Cadeia Norte Brasileira (17 amostras) (BRASIL, 2012b).
O LEPLAC está agora em fase de processamento e interpretação desses novos dados adquiridos, que subsidiarão a elaboração da Proposta Revisada de Limite Exterior da Plataforma Continental Brasileira além das duzentas milhas. A prontificação do seu relatório final está prevista para abril de 2013, para posterior encaminhamento à CLPC em maio de 2013 (MOURA NETO, 2012).
Em razão da experiência obtida com a realização do LEPLAC, o Brasil passou a ter uma capacitação técnica única em relação ao estabelecimento de limites no mar (BRASIL, 2012c). Esse know-how vem permitindo ao País atuar na área internacional de cooperação técnica, onde ―contribuiu significativamente com a realização do LEPLAC da Namíbia e tem mantido entendimentos no sentido de cooperar com Moçambique e Angola, no estabelecimento de tais limites.‖ (COSTA, 2012, p. 31).