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1. OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS

3.3 O poder de controle no Direito Estrangeiro

A questão da revista não encontra, no direito laboral brasileiro, tratamento mais sério por parte da legislação. Como se viu a proposta é num sentido oposto, pela permissibilidade da revista. No direito estrangeiro, entretanto, a legislação também não se mostra muito avançada quanto à necessidade de proteção do empregado no que toca ao procedimento das revistas.

No Direito Italiano, a lei 300/70, conhecida como Estatuto dos Direitos dos Trabalhadores, veda logo em seu art. 6° inspeções pessoais sobre o empregado, salvo em certos casos, com restrições e desde que constante de previsão em acordo entre empregador e comissões sindicais representantes dos empregados. 565

E mesmos nestes casos em que de admissibilidade a revista é feita apenas na saída do trabalho e através de sistema de seletividade automática566, impedindo-se, com isso, que haja discriminação e escolha de determinado empregado com vistas a qualquer tipo de intimidação.

Vê-se que o sistema italiano, no que toca à revista, ainda não chegou ao ideal, que é a abolição de qualquer tipo de sistema de busca pessoal. Entretanto, em que pese a falta de perfeição da norma italiana, vislumbra-se que a mesma é, comparativamente ao sistema brasileiro, mais evoluída. É que, em que pese a sugestão de alteração pela permissibilidade da revista, ao menos o sistema italiano instaura critério objetivo de controle deste procedimento: a seleção automática.

No caso brasileiro, além da evidente violação dos direitos fundamentais do empregado, em face da permissibilidade da revista, será, ainda, possível vislumbrar o uso de tal mecanismo de forma discriminatória pelo empregador. E, muito embora o uso abusivo da revista seja vedado, tal limitação em nada impedirá que, efetivamente, seja manejado de forma discriminatória, já que não há previsão de critério objetivo para escolha de quem será submetido a tal procedimento odioso.

Ainda a respeito do poder de controle no Direito do Trabalho Italiano, lembra Riva Sanseverino a questão polêmica dos policiais privados no âmbito do local de trabalho. Segundo argumenta, no âmbito do Estatuto do Direito dos Trabalhadores, Lei 300, o empregador poderá lançar mão de polícia privada para proteção da propriedade dos meios de produção, mas tais detetives não poderão ser usados para vigiar o trabalho dos empregados, sendo, portanto, aos detetives vedado o acesso ao local de trabalho.567

Vê-se que é possível, portanto, o uso de polícia privada para defesa de propriedade, mas não para a vigilância dos empregados. Tal polícia privada é composta, em verdade, por policiais verdadeiros, os quais podem ser suspensos se denunciados à Chefatura de Polícia568, sempre que abusem de suas prerrogativas.

Vislumbra-se que, se por um lado, este sistema não é o melhor por não privilegiar, de forma alguma, os direitos fundamentais do empregado, por outro lado, não deixa nas mãos do empregador o poder de polícia para proceder a vistorias nos empregados.

Já no Direito Espanhol, a Constituição Espanhola em seu art. 10.1 consagra a dignidade da pessoa humana ao estabelecer o respeito à personalidade e aos direitos

566 BARROS, Alice Monteiro. Op. cit, p. 595 567 Curso de direito do trabalho. Op. cit, p. 208. 568 Ibid, p. 208.

invioláveis, bem como o pleno desenvolvimento da personalidade.569 Resta anunciada a restringibilidade do poder empresarial pelos direitos fundamentais dos empregados, os quais devem ser equilibrados com os direitos do empregador.570

Todavia, em decorrência da necessidade de salvaguarda da dignidade da pessoa humana, consagrada na Constituição, o Estatuto dos empregados da Espanha restringe as formas de busca pessoal, admitindo, desta feita, desde que promovidas no âmbito da empresa e no horário de trabalho571, respeitando-se ao máximo a intimidade e dignidade do empregado.

Nestes termos, o art. 50.1 do Estatuto dos Trabalhadores da Espanha estabelece, inclusive, o direito do empregado de extinguir o contrato com culpa do empregador, recebendo os mesmos direitos decorrentes da despedida injusta, sempre que sentir-se lesado em sua dignidade em face da vigilância empreendida pelo empregador, sem prejuízo da indenização a que fizer jus, bem como da apuração de eventual ilícito administrativo e penal do empregador.572

Pode-se dizer, nesse sentido, que o Direito Espanhol está, no que toca à permissibilidade do sistema de revista, no mesmo patamar que o Direito Brasileiro, eis que conta com uma normativa que tutela apenas em grau repressivo as violações à dignidade e intimidade dos empregados. No entanto, a tutela repressiva espanhola é mais avançada que a brasileira, permitindo caso típico de rescisão indireta em face da violação da dignidade da pessoa humana.

Ao se mencionar a proteção máxima à dignidade e intimidade, ponderando-as com a salvaguarda do patrimônio do empregador incide no mesmo equívoco que a legislação brasileira, vez que inverte a lógica do sistema jurídico que está sustentada pela necessidade de tutela e promoção da pessoa e não tutela e promoção do patrimônio, deixando a pessoa em segundo plano.

Percebe-se, nesta via, que a citada norma infraconstitucional espanhola preocupa-se apenas em tutelar a propriedade do empregador em detrimento dos direitos fundamentais do empregado e, para além da inversão de valores, viola, ainda, a presunção de inocência consagrada na Constituição Espanhola.573

569 Disponível em http://www.boe.es/aeboe/consultas/bases_datos/doc.php?coleccion=iberlex&id=1978/31229. acesso em 03.11.11 às 18:48

570 MELGAR, Alfredo Montoya. Derecho del trabajo. p. 307 571 BARROS, Alice Monteiro. Op. cit, p. 595

572 MELGAR, Alfredo Montoya. Op. cit, p. 308 573 BARROS, Alice Monteiro. Op. cit, p. 595

De seu turno, o Direito Francês veda as revistas vexatórias, mas admite busca pessoal nos pertences dos empregados guardados nos vestiários do empregador, todavia, desde que na presença do próprio empregado.574

Vê-se que o Direito Francês também não apresenta uma tutela efetiva dos direitos fundamentais dos empregados, eis que, se por um lado protege o corpo do empregado, por outro permite que sua vida privada e sua intimidade sejam devassadas pela revista em seus itens pessoais.

Por fim, o Direito do Trabalho Argentino é regido pela Lei 20.744/76, mais conhecida como Lei do Contrato de Trabalho. O art. 70 da LCT é bastante similar ao Direito do Trabalho Italiano, prescrevendo a necessidade de salvaguarda da dignidade do empregado, pelo que o procedimento de revistas somente pode ser aceito através do procedimento da seletividade automática, sendo a busca empreendida sempre por pessoas do mesmo sexo do revistado.575

Trata-se de um sistema mecânico que funciona sorteando quem será submetido à revista, mas que, inicialmente acaba gerando a proteção dos bens do empregador, eis que qualquer um poderá ser submetido à revista.576

O art. 70 da LCT, entretanto, exige a presença de certos requisitos para que se possa submeter o empregado ao procedimento da revista. Nestes termos a revista deverá se dar com razoabilidade e para a proteção dos bens do empregador; com salvaguarda da dignidade do empregado; e sem discriminação, pelo que não se admite a livre escolha do revistado.577

Não é necessário muito aprofundamento para perceber que o Direito do Trabalho Argentino está aquém do Direito Brasileiro no que toca à importância que a pessoa ocupa no ordenamento jurídico. Nota-se que o primeiro requisito para a revista, no Direito Argentino, é a proteção razoável dos bens do empregador, vindo a dignidade apenas em segundo plano.

Isto por si só demonstra que a preocupação primária daquele direito não está em tutelar a pessoa, mas o patrimônio. Talvez esta seja a maior razão para que a legislação mantenha a possibilidade de revista. Em que pese o critério do “sorteio”, trata-se de um critério nefasto e que, a cada dia, faz uma nova vítima, expondo-lhe a vida privada, a intimidade e devassando sua dignidade.

574 BARROS, Alice Monteiro. Op. cit, p. 596 575 Ibid, p. 596

576 DIEGO, Julian Arturo de. Manual de derecho del trabajo y de la seguridade social. p. 232. 577 VIALARD, Antônio Vasquez. Derecho del trabajo y de la seguridad social. p. 374.