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O poder, ou o binômio saber-poder

No documento 2017JarbasDamettoTese (páginas 61-65)

Definir objetivamente o que é o poder é uma tarefa que impõe alguns desafios, certamente por ele não ser algo palpável, passível de observação direta, mas sim um atributo volátil, do qual sentimos somente os efeitos. O termo poder seria, grosso modo, adequado para nominar uma situação ou experiência de dominação ou sujeição humana, em que uns exercem influência, coagem ou submetem os outros de acordo com seus interesses e objetivos. Por tal ângulo, evidencia-se uma feição negativa do poder, vinculada essencialmente a privação da liberdade dos que ao poder são submetidos. Tal forma de poder emanaria de lugares específicos: o Estado, o capital, etc., estando com aquele que o possui por condições materiais ou institucionais específicas. Tais concepções não podem ser tomadas como totalmente equivocadas, entretanto, Foucault lança o olhar sobre o poder em sua positividade e dispersão – poder não necessariamente “tira” algo das pessoas, não se concentra em algum lugar, nem está em posse de alguns e absolutamente distante de outros.

Na lógica foucaultiana (2002b), as relações de poder são uma prática social constituída historicamente através das relações sociais estabelecidas pelas pessoas, podendo ser, inclusive, localizado na resistência contra o seu exercício. Ainda segundo Foucault,

O poder deve ser analisado como algo que circula, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam, mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação: nunca são o alvo inerte ou consentido do

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poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles. (2002b, p.183).

Dentro desta perspectiva, o poder não está presente em um único ponto, em uma unidade: a origem de toda dominação, o lugar de toda opressão, como o Estado, por exemplo. O poder possui uma existência capilar e móvel, "o poder está em toda a parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares" (FOUCAULT, 2001, p. 88). O poder não existe enquanto algo monolítico, mas em práticas ou relações que se disseminam por todo corpo social. Assim, para o autor (FOUCAULT, 2002b), todo sujeito humano é colocado em relações de produção e de significação, da mesma forma como é colocado em complexas relações de poder.

Ao contrário das relações de produção e de significação, o poder não oferece instrumentos claros que possibilitem seu estudo, como ocorre, com os objetos acima, através da Economia e a Linguística. O que se oferece como recurso são os modelos legais de pensar o poder: como por exemplo, o Estado, ou modelos táticos, como a guerra. Não existe para Foucault (2002) uma teoria geral sobre o poder (e não se pode dizer ao certo se ele tentou construir uma), pois poder se exerce, se disputa e funciona em rede. Poder é uma relação. Esse caráter relacional do poder implica que as próprias lutas contra o seu exercício não possam ser feitas de fora, de outro lugar, do exterior, pois nada está isento de poder – a busca por conhece-lo já implica em enredar-se nele. Qualquer luta é sempre resistência dentro da própria rede de poder, e não de sua periferia.

O poder está em toda parte, não porque engloba tudo e sim porque provém de todos os lugares (...) O poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada. (FOUCAULT, 2001, p.89).

Este corpo fluído do poder, aparentemente inominável, mas paradoxalmente localizável em todas as relações e lugares, faz com que o poder não esteja associado unicamente a um conjunto de instituições e/ou aparelhos garantidores da sujeição dos indivíduos. O poder funciona como um mecanismo social que não está situado em um lugar delimitado ou embutido em circunstâncias particulares, mas dissemina-se por todo tecido da sociedade e, desta forma, apresenta-se como uma prática cotidiana.

Caminha neste sentido a recomendação foucaultiana de que pouco adianta concentrar a atenção ao poder unicamente sobre o óbvio poder estatal e das suas ideologias, sendo que para

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melhor ver o poder, sugere Foucault, é preciso romper com a análise estatizada do mesmo, e avançar sobre outros pontos:

[...] em vez de orientar a pesquisa sobre o poder no sentido do edifício jurídico da soberania, dos aparelhos de Estado e das ideologias que o acompanham, deve-se orientá-la para a dominação, os operadores materiais, as formas de sujeição, os usos e as conexões da sujeição pelos sistemas e os dispositivos estratégicos. É preciso estudar o poder colocando-se fora do modelo do Leviatã, fora do campo delimitado pela soberania jurídica e pela instituição estatal. (FOUCAULT, 2002b, p. 186).

Essa concepção do filósofo constituiu uma guinada importante na abordagem do poder, rompendo com os parâmetros clássicos de sua interpretação, levando a uma maneira diferenciada de compreender o fenômeno e dando um novo fôlego a pesquisas em torno da questão. Retomando as propostas típicas dos autores pós-estruturalistas acima debatidas, pôde-se perceber que houve um deslocamento da atenção, da culminância maior do poder, para suas práticas miúdas e dispersas, para os pontos onde ele efetivamente acontece.

Dizendo poder, não quero significar 'o poder', como um conjunto de instituições e aparelhos garantidores da sujeição dos cidadãos em um estado determinado. Também não entendo poder como um modo de sujeição que, por oposição à violência, tenha a forma de regra. Enfim, não o entendo como um sistema geral de dominação exercida por um elemento ou grupo sobre o outro e cujos efeitos, por derivações sucessivas, atravessem o corpo social inteiro. A análise em termos de poder não deve postular, como dados iniciais, a soberania do Estado, a forma da lei ou a unidade global de uma dominação; estas são apenas e, antes de mais nada, suas formas terminais. Parece-me que se deve compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de forças imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização; o jogo que, através de lutas e afrontamentos incessantes as transforma, reforça, inverte; os apoios que tais correlações de força encontram umas nas outras, formando cadeias ou sistemas ou ao contrário, as defasagens e contradições que as isolam entre si; enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo nos aparelhos estatais, na formulação da lei, nas hegemonias sociais. (FOUCAULT, 2001, p. 88- 89).

Para fins de clareza, é importante expor o que não se enquadra na concepção de poder aqui proposta. Poder é aqui tomado como algo de natureza diferente da violência. A violência incide diretamente sobre uma coisa ou um corpo, destruindo-o ou submetendo-o. De modo diverso, o poder age de forma menos ostensiva, guiando as ações do sujeito e fazendo-se perceber como necessário, enfim, tendo um efeito de subjetivação, no qual suas expressões são incorporadas a ação dos indivíduos. Também, reforçando o ponto acima proposto, não há a primazia do aspecto superestrutural na abordagem foucaultiana acerca do tema. Em síntese, pode-se dizer que, para Foucault, não existe o "fora do poder”, não há a possibilidade de estar

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à margem dele, pois este se estrutura em rede envolvendo todos os sujeitos em uma dada circunstância social.

Ao analisar as relações de poder que ocorrem nos espaços institucionais da sociedade moderna, como hospitais, prisões, manicômios, escolas, etc., e a intensa produção discursiva sobre os sujeitos atrelados a tais espaços, Foucault acaba por atestar que:

[...] o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder. Essas relações de “poder-saber” não devem então ser analisadas a partir de um sujeito do conhecimento que seria ou não livre em redação ao sistema do poder; mas é preciso considerar ao contrário que o sujeito que conhece, os objetos a conhecer e as modalidades de conhecimentos são outros tantos efeitos dessas implicações fundamentais do poder-saber e de suas transformações históricas. (2006a, p. 27).

Pôde-se constatar que o saber e o poder possuem entre si uma relação simbiótica, uma relação de gênese e potencialização mútua, sendo este conjunto denominado por Foucault através do binômio poder-saber, analisado a seguir.

Antes de adentrarmos à problemática do saber-poder, caberia elucidar o que o autor concebe como saber. Tal termo destoa da noção de ciência, embora também possa englobá-la, saber não se resume ao conteúdo científico (MACHADO, 2007). Também não seria uma concepção idêntica ao conhecimento.

Foucault distingue nitidamente o "saber" do "conhecimento": enquanto o conhecimento corresponde à constituição de discursos sobre classes de objetos julgados cognoscíveis, isto é, à construção de um processo complexo de racionalização, de identificação e de classificação dos objetos independentemente do sujeito que os apreende, o saber designa, ao contrário, o processo pelo qual o sujeito do conhecimento, ao invés de ser fixo, sofre uma modificação durante o trabalho que ele efetua na atividade de conhecer. (REVEL, 2005, p.77).

De tal modo, na concepção o autor, o saber comporta um potencial de subjetivação, não se trata de uma mera concepção cognitiva sobre algum objeto, mas um discurso no qual se apreende o outro, e também a si mesmo. Tal saber não seria, também, um sinônimo de verdade. A problematização da verdade viria a compor um momento posterior da obra do autor, que será à frente abordada. Nas instituições modernas, como o hospital, o exército e a escola, e a prisão, articularam-se e produziram-se tecnologias de poder e saberes que as afirmaram enquanto necessárias e úteis à sociedade, atuando na modelagem dos sujeitos a elas ligados. Tais instituições transformaram de forma substancial as civilizações nas quais se

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inseriram, modificando suas arquiteturas, valores morais, o trato com o corpo, os modos de educar, as formas de punir, etc.. Através dessas experiências históricas, pode-se afirmar que o binômio poder-saber gera consentimento, naturalizando práticas e ideias construídas historicamente, tornando-as parte integrante das subjetividades.

Foucault (2006a; 2006b), em seus estudos sobre as instituições disciplinares, se propôs a analisar a forma como o os enfrentamentos e os dispositivos de poder produzem enunciados, teorias, negações e afirmações, enfim, um discurso de verdade sobre o sujeito com o status de Ciência. Em tais abordagens, acabou por verificar que as instituições não são o local de “aplicação” de teorias prévias, mas sim um local de gênese dessas, em que procedimentos e suas justificativas emergem em um mesmo tempo.

Temos que admitir que o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder. (FOUCAULT, 2006a. p.27).

De especial interesse ao âmbito educacional é a relação de poder, que de acordo com Foucault (1987), é típica da Modernidade: o poder disciplinar, operado cotidianamente, dentre outros lugares, nos estabelecimentos escolares. Como propõe Revel (2004, p.78) “[...] o poder não pode disciplinar os indivíduos sem produzir igualmente, a partir deles e sobre eles, um discurso de saber que os objetiva e antecipa toda experiência de subjetivação”. De modo que o poder disciplinar veio a instituir tecnologias para seu exercício e parâmetros de avaliação muito peculiares, e que povoam a nossa concepção contemporânea das mais diversas experiências. A fim de explicitar tais questões, as páginas a seguir serão dedicadas ao próprio poder disciplinar em sua especificidade, às suas técnicas de controle e vigilância, bem como aos parâmetros de normalidade aí originados.

No documento 2017JarbasDamettoTese (páginas 61-65)