• Nenhum resultado encontrado

3.2 OBJEC ¸ ˜ OES EM POTENCIAL

3.2.2 O problema do acesso

O problema da base questionou a func¸˜ao epistˆemica de ver que p que, segundo o DE, pode servir como suporte factivo para nossas crenc¸as percep- tivas cotidianas. A resposta de Pritchard parece, `a primeira vista, livrar sua proposta disjuntivista da acusac¸˜ao de que essa func¸˜ao n˜ao poderia ser exer- cida sob pena de entregar uma noc¸˜ao insustent´avel de suporte epistˆemico. H´a, entretanto, um outro problema que envolve ver que p, mas que n˜ao diz res- peito `a sua func¸˜ao na nossa economia epistˆemica, mas trata da natureza do suporte epistˆemico que ver que p oferece. O “problema do acesso” questiona, em particular, quais consequˆencias s˜ao geradas pelo entendimento de ver que pcomo suporte racional, como se pressup˜oe na teoria disjuntivista.

Em linhas gerais, o problema do acesso diz respeito `a possibilidade de conhecermos fatos particulares sobre nosso ambiente atrav´es da reflex˜ao independente. A motivac¸˜ao para este problema est´a na ideia disjuntivista de que podemos saber aprioristicamente que ver que p acarreta p. Isso seria problem´atico, de acordo com a objec¸˜ao, na medida em que se eu posso saber que o suporte epistˆemico para minha crenc¸a perceptiva particular de que p ´e o fato de que eu vejo que p, ent˜ao eu estaria autorizado a conhecer que p apenas atrav´es da reflex˜ao. A proposic¸˜ao p, entretanto, ´e uma proposic¸˜ao emp´ırica sobre o mundo. E fatos sobre o mundo n˜ao podem ser conhecidos a priori, reflexivamente, sem investigac¸˜ao emp´ırica. Portanto, o DE deve estar errado e ver que p, ainda que possa ser base factiva para nossa crenc¸a de que p, n˜ao pode servir de suporte epistˆemico racional para a crenc¸a em quest˜ao.

Para entender melhor o problema, lembre da discuss˜ao sobre interna- lismo e externalismo que apresentei no primeiro cap´ıtulo. L´a, apontei que o tipo de internalismo de maior interesse para o presente trabalho ´e um de car´ater acessibilista. Minha preocupac¸˜ao aqui ´e com a posic¸˜ao epistˆemica ca- racterizada pelo requerimento de que aquilo que serve de suporte epistˆemico para nossas crenc¸as cotidianas deve nos ser acess´ıvel reflexivamente. Al- ternativamente, de acordo com a posic¸˜ao acessibilista: o suporte epistˆemico internalista de S para crer que p ´e constitu´ıdo somente de fatos que S pode conhecer pela reflex˜ao independente.

O problema se estabelece quando consideramos que, dada a restric¸˜ao acessibilista, se o suporte que possu´ımos quando estamos em casos de co- nhecimento perceptivo de que p ´e o fato de que vemos que p, ent˜ao podemos saber atrav´es da reflex˜ao que estamos de posse dessa raz˜ao de suporte. Esta nada mais ´e do que uma premissa expressando um comprometimento central do DE, segundo o qual nossas raz˜oes factivas que dispomos em casos de co- nhecimento perceptivo paradigm´atico s˜ao raz˜oes reflexivamente acess´ıveis. Adicione a esta premissa, a premissa que diz que podemos conhecer atrav´es

da reflex˜ao independente que raz˜oes factivas acarretam as proposic¸˜oes para as quais elas s˜ao raz˜oes. Ou seja, se “eu vejo que h´a uma ´arvore no jardim” ´e uma raz˜ao factiva para a crenc¸a de que h´a uma ´arvore no jardim, ent˜ao h´a uma ´arvore no jardim. Podemos conhecer esse acarretamento sem precisar empreender qualquer investigac¸˜ao adicional. At´e ent˜ao, ambas as premissas s˜ao pac´ıficas para quem defende o DE nos moldes apresentados aqui. O que torna a relac¸˜ao delas problem´atica ´e a conclus˜ao motivada pelo problema do acesso que diz que, dadas as premissas acima, ´e poss´ıvel concluir que pode- mos conhecer atrav´es da reflex˜ao independente a proposic¸˜ao emp´ırica p em quest˜ao. Ou de forma canˆonica, como Pritchard sugere:

O problema do acesso:

AP1. S pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que sua raz˜ao para crer na proposic¸˜ao emp´ırica espec´ıfica p ´e a raz˜ao factiva R. (Premissa que expressa os comprometimentos disjuntivistas)

AP2. S pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que R acarreta p. (Premissa)

Ent˜ao,

APC. S pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que a proposic¸˜ao emp´ırica espec´ıfica p ´e verdadeira. (AP1, AP2)45

Posto dessa maneira, se estiver correto, o problema estabelece que o DE est´a autorizando que conhec¸amos proposic¸˜oes emp´ıricas atrav´es da re- flex˜ao independente. E isso ´e altamente contraintuitivo. Como podemos saber que h´a uma ´arvore verde no jardim apenas refletindo sobre esta proposic¸˜ao es- pec´ıfica? Dado que esta ´e uma proposic¸˜ao emp´ırica, a reflex˜ao, sozinha, n˜ao pode dar conta de nos colocar em contato adequado com a realidade.

Por sorte, n˜ao ´e isso que est´a em jogo no DE, pelo menos esta ´e a posic¸˜ao defendida por Pritchard46. Ainda que o DE esteja comprometido com o conte´udo das premissas AP1 e AP2, ele definitivamente n˜ao est´a comprometido com APC, e portanto com a ideia de que podemos conhe- cer proposic¸˜oes emp´ıricas aprioristicamente, sem qualquer participac¸˜ao da investigac¸˜ao n˜ao-reflexiva. Esta conclus˜ao, Pritchard argumenta, sequer se segue das premissas com as quais o DE est´a comprometido. Considere a seguinte vers˜ao do argumento:

AP1*. Duda pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que sua raz˜ao para crer que h´a uma ´arvore verde no jardim ´e o fato de que ela vˆe que h´a uma ´arvore verde no jardim. (Premissa que expressa os comprometimentos disjuntivistas)

45PRITCHARD, Duncan. Epistemological disjunctivism. Oxford: OUP, 2012, p. 46. 46PRITCHARD, Duncan. Epistemological disjunctivism. Oxford: OUP, 2012, p. 46.

AP2*. Duda pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que ver que h´a uma ´arvore no jardim acarreta que h´a uma ´arvore no jardim. (Premissa) Ent˜ao,

APC*. Duda pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que h´a uma ´arvore no jardim. (AP1*, AP2*)

Preenchido desta maneira, o argumento motivado pelo problema do acesso perde forc¸a. Isso porque, em primeiro lugar, ´e poss´ıvel notar que a primeira premissa depende para sua verdade que a base epistˆemica para Duda formar a crenc¸a em quest˜ao seja o suporte emp´ırico contido em sua ex- periˆencia perceptiva ver´ıdica, o suporte emp´ırico de que ela vˆe que h´a uma ´arvore no jardim. Ou seja, o que ´e definido pela primeira premissa, e que alimenta toda a inferˆencia que se segue, ´e a ideia de que sua experiˆencia ´e a raz˜ao emp´ırica que Duda tem para crer que h´a uma ´arvore no jardim. Se este ´e o caso, a conclus˜ao da inferˆencia parece n˜ao seguir das premissas que a precedem, particularmente a primeira premissa. Segundo o racioc´ınio de Prit- chard, seria estranho que Duda conclu´ısse que sabe aprioristicamente que h´a uma ´arvore no jardim quando j´a se sup˜oe logo de sa´ıda que tal conhecimento n˜ao pode ser a priori. O problema do acesso ´e, ent˜ao, rejeitado.

Em outras palavras, o que est´a em jogo aqui ´e uma defesa da posic¸˜ao disjuntiva que diz que ou o conhecimento perceptivo que temos tem como base a raz˜ao emp´ırica em quest˜ao, o que j´a faz naturalmente que a rota para o conhecimento da proposic¸˜ao emp´ırica n˜ao seja puramente reflexiva, ou tal conhecimento n˜ao tem essa raz˜ao como base, e nesse caso n˜ao h´a nada no DE que o comprometa `a ideia de que essa raz˜ao emp´ırica ´e reflexivamente acess´ıvel.

´

E poss´ıvel objetar, entretanto, e Pritchard prevˆe tal objec¸˜ao47, que o problema pode persistir se considerarmos que o DE autoriza que existam ca- sos em que a conex˜ao objetiva se d´a, mas a crenc¸a correspondente n˜ao se forma - como no caso da banana que apresentei acima. Nesse caso, Duda veria que p, mas n˜ao formaria a crenc¸a correspondente de que p. De modo alternativo:

AP1**. Duda pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que ela vˆe que h´a uma ´arvore no jardim, embora ela n˜ao acredite que h´a uma ´arvore no jardim com base nisso - ou com base em qualquer outro suporte emp´ırico.

(Premissa que supostamente expressa os comprometimentos disjuntivistas) AP2**. Duda pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que ver que h´a uma ´arvore no jardim acarreta que h´a uma ´arvore no jardim. (Premissa) Ent˜ao,

APC**. Duda pode saber atrav´es da reflex˜ao independente que h´a uma ´arvore no jardim. (AP1**, AP2**)

O que mudou na formulac¸˜ao acima foi apenas a premissa que, agora supostamente, est´a associada ao comprometimento disjuntivista central. O ponto aqui ´e que a resposta de Pritchard `a primeira formulac¸˜ao do problema teve como fundamento a ideia de que a experiˆencia perceptiva j´a est´a pres- suposta como raz˜ao epistˆemica para a crenc¸a de Duda de que h´a uma ´arvore no jardim, por isso o resultado da inferˆencia n˜ao poderia ser completamente reflexivo. A reformulac¸˜ao estaria explorando a possibilidade autorizada pelo DE de podermos ver que p sem formar crenc¸as de que p. O problema, ent˜ao, residiria na ideia de que desta maneira o DE estaria autorizando que co- nhecˆessemos p atrav´es da reflex˜ao independente, dado que na ausˆencia de crenc¸a o suporte epistˆemico factivo deixa de existir. Note que isso n˜ao ´e o mesmo que dizer que Duda n˜ao vˆe que p. De acordo com essa objec¸˜ao, Duda vˆe que p, mas ver que p neste caso n˜ao funciona como suporte epistˆemico para crenc¸a alguma.

´

E poss´ıvel mostrar, todavia, que essa inferˆencia n˜ao se sustenta sob escrut´ınio. Em primeiro lugar, a premissa reformulada ´e claramente falsa. De fato o DE autoriza que em casos em que experienciamos perceptivamente de forma ver´ıdica, mas nos quais n˜ao estamos subjetivamente autorizados a crer com base nessa experiˆencia, ainda assim nossa conex˜ao objetiva com o mundo permanece intacta. Podemos ver que p mesmo que n˜ao possamos usu- fruir dessa conex˜ao objetiva formando a crenc¸a correspondente. No entanto, essa autorizac¸˜ao considera apenas que a conex˜ao existe e n˜ao que ela, sob tais circunstˆancias, possa ser da maneira que AP1** descreve. O DE n˜ao autoriza que em casos como esse, como o caso da banana discutido anteriormente, a raz˜ao factiva de que vemos que p seja uma raz˜ao que suporte a crenc¸a sub- jetivamente desautorizada de que p. Ou seja, ver que p n˜ao est´a dispon´ıvel reflexivamente como raz˜ao de suporte para a crenc¸a em quest˜ao, mesmo se o agente n˜ao crˆe com base nesse suporte. Note que quando falo aqui de suporte reflexivamente acess´ıvel estou falando do tipo de suporte que ´e racional, no sentido em que a raz˜ao nos autoriza sustentar. Seja qual for o motivo pelo qual Duda deixa de formar a crenc¸a de que h´a uma ´arvore no jardim, este motivo torna opaca a raz˜ao factiva potencialmente dispon´ıvel para ela.

A ideia geral defendida por Pritchard em resposta a essa linha argu- mentativa ´e de que ainda que o DE defenda que ver que p pode ser reflexiva- mente acess´ıvel, ou transparente, em casos paradigm´aticos de conhecimento perceptivo, nem todos os casos em que vemos que p, ver que p ´e reflexiva- mente acess´ıvel48. O caso da banana ´e ilustrativo nesse sentido. Mantendo-se

o testemunho enganoso de que o objeto ´e uma r´eplica de cera e n˜ao uma ba- nana real, parece perfeitamente plaus´ıvel defender que ver que h´a uma banana diante de mim n˜ao ´e uma raz˜ao `a qual eu tenho acesso reflexivo, no sentido em que eu estaria autorizado subjetivamente a tomar tal experiˆencia como suportando racionalmente a minha crenc¸a de que o que vejo ´e uma banana. Afinal, a pr´opria raz˜ao factiva que suporia ter nesse caso est´a sendo colocada em quest˜ao pelo testemunho enganoso.

Perceba ainda que isso n˜ao ´e o mesmo que dizer que ver que p n˜ao oferece qualquer suporte epistˆemico para nossas crenc¸as perceptivas. O ponto da resposta disjuntivista ´e que ver que p de fato oferece suporte epistˆemico para crenc¸as desse tipo, e o faz nos colocando em uma boa posic¸˜ao para conhecer a proposic¸˜ao em quest˜ao. A diferenc¸a crucial aqui ´e que esta raz˜ao factiva s´o oferecer´a o suporte internalista desejado se ela for a base racional s´olida sobre a qual nossa crenc¸a perceptiva ´e formada. E este n˜ao ´e o caso nos exemplos mencionados acima.

O problema do acesso ´e ent˜ao rejeitado. Nenhuma das duas formulac¸˜oes avaliadas aqui resistiu `a an´alise minuciosa, portanto nenhuma delas oferece dificuldades para o DE. Em particular, nenhuma delas consegue demonstrar, como se propunham, que o DE autoriza que possamos conhecer proposic¸˜oes emp´ıricas atrav´es da reflex˜ao independente49.