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Um outro ponto que a mim parece carecer de reflexão diz respeito a uma contingência operacional do sistema BACENJUD: a possibilidade de a ordem de bloqueio recair positivamente sobre mais de uma conta do devedor, resultando na constrição em valor superior ao crédito exeqüendo.

É que a ordem navega pela rede financeira nacional, tocando a todas as instituições, sendo que o limite de bloqueio, em cada uma delas, é o valor exeqüendo indicado pelo Juiz que protocola e aciona a ordem. Logo, se o devedor possuir mais de uma conta e nelas

houver saldo, é possível que o bloqueio alcance todas elas, até o limite, em cada uma, do valor da execução.

Essa, como disse, é uma contingência do sistema porque não sabe o Juiz, a priori, em qual instituição mantém o devedor ativos passíveis de bloqueio. Claro que, uma vez detectado o excesso, cabe ao Juiz ordenar a liberação imediata do que sobejar ao valor previamente indicado para o bloqueio, transferindo-se apenas este para conta judicial.

Na primeira versão do sistema – quando as respostas à ordem de bloqueio eram feitas por carta enviada pela instituição financeira que efetivou o bloqueio e o Juízo que o ordenou-,o desconforto maior estava na demora na determinação de liberação do excesso de penhora de crédito. A comunicação do banco demorava a chegar, sendo mais comum que o próprio devedor buscasse apresentar ao Juízo a existência do excesso e solicitasse o desbloqueio da constrição sobejante ao crédito exeqüendo.

Nesta altura, o Tribunal Superior do Trabalho adotou uma ferramenta curiosa para estancar os bloqueios múltiplos. Disso se ocupa os dispositivos a seguir transcritos, extraídos da Consolidação dos Provimentos da Corregedoria-Geral da Justiça do Trabalho:

Art. 58 Qualquer pessoa física ou jurídica poderá solicitar ao Tribunal Superior do Trabalho o cadastramento de conta única apta a acolher bloqueios on-line, realizados por meio do Sistema BacenJud. As Instituições Financeiras poderão solicitar o cadastramento tão-somente do banco destinatário da ordem judicial.

§ 1º A solicitação a que se refere o caput deste artigo deverá ser encaminhada por petição dirigida ao Corregedor-Geral da Justiça do Trabalho e instruída com cópias dos comprovantes do CNPJ ou CPF e da titularidade da conta indicada (banco, agência, conta corrente, nome e CNPJ/CPF do titular);

§ 2º As informações sobre o cadastramento de que trata o caput desse artigo, poderão ser obtidas, eletronicamente, no endereço www.tst.gov.br, opção BacenJud.

Art. 59 A pessoa física ou jurídica que optar pela indicação de que trata o caput do artigo 58 obriga-se a manter recursos suficientes para o atendimento da ordem judicial, sob pena de o bloqueio ser direcionado às demais Instituições Financeiras/contas e de o cadastramento ser cancelado pelo TST. § 1º O executado descadastrado na forma do caput desse artigo poderá, após o período de 6 (seis) meses, contados da data da publicação no Diário da Justiça, da decisão que a descadastrou, postular o recadastramento, indicando a mesma ou outra conta, conforme a sua conveniência.

§ 2º A reincidência no não-atendimento das exigências de manutenção de recursos suficientes ao acolhimento dos bloqueios on-line importará em novo descadastramento pelo prazo de 1 (um) ano, podendo, após esse período, o executado postular novamente seu recadastramento, nos termos do parágrafo anterior.

§ 3º Após a faculdade de recadastramento descrita no parágrafo anterior, posterior descadastramento terá caráter definitivo.

Art. 60 Os pedidos de recadastramento a que se referem o artigo anterior e seus parágrafos deverão ser dirigidos ao Corregedor- Geral da Justiça do Trabalho e instruídos com toda a documentação enumerada no parágrafo 1º do art. 58 desta Consolidação.

A idéia aqui foi, portanto, a de oferecer ao devedor a possibilidade de cadastrar previamente uma conta para a qual deveriam os Juízes do Trabalho de todo o país direcionar as ordens de bloqueio enviadas ao BACENJUD, cabendo à pessoa que a cadastrou nela manter recursos suficientes para atender a todas as ordens, sob pena de descadastramento. Aos Juízes, por seu turno, compete consultar previamente o cadastro de contas antes de expedir as ordens, tudo de modo a evitar a expedição de ordens que tenham o potencial de atingir várias contas da parte executada.

A medida veio a atender ao pleito de grandes empresas e corporações espalhadas por todo o Brasil, que por vezes se sentiam prejudicadas pelos múltiplos efeitos dos bloqueios transmitidos ao sistema financeiro através do BACENJUD.

A medida é, no mínimo, heterodoxa, pois, a rigor, compete ao devedor que possua recursos atender voluntariamente às ordens de pagamento emanadas da Justiça, providenciando o depósito das quantias devidas à disposição do Juízo da execução. Sem embargo, creio que a saída encontrada pelo TST atendeu, por outro lado, à necessidade de estabilização e consolidação do BACENJUD, precisamente numa época de aguda contestação do convênio celebrado com o Banco Central do Brasil, em período anterior, portanto, ao advento da Lei n. 11.382/06.

Atualmente, na versão 2.0, o BACENJUD já permite que as respostas às solicitações retornem ao Juízo da execução também de forma eletrônica, na página do sistema. Isso permite que o Juiz, rapidamente, providencie a expedição da ordem de desbloqueio dos possíveis excessos.

Mesmo assim, é possível, ainda hoje, a existência de bloqueios múltiplos e a impossibilidade da parte executada movimentar o excesso por 48 horas, em média.

Em relação à situação anterior, a eficiência do sistema, nesse aspecto, melhorou consideravelmente. Porém, não há tecnicamente possibilidade, ainda, de se eliminar por completo esse problema.

Daí a pergunta: a possibilidade de bloqueios múltiplos deslegitima, de alguma forma, o manejo do BACENJUD? Em minha opinião, a resposta é negativa.

Com efeito, a moderna Teoria Geral do Processo acentua atualmente o caráter deontológico, isto é, projeta sobre as partes o ônus de se comportarem com ética, atendendo às ordens judiciais da forma mais diligente e escrupulosa possível, de modo a evitar chicanas e manobras protelatórias.

Dois exemplos colhidos do Código de Processo Civil evidenciam esse diagnóstico. A Lei n. 10.358/2001, integrante da segunda grande onda de reformas do CPC em vigor, acresceu ao art. 14, que já fala em seu inciso II de lealdade de boa-fé, o inciso V, que estabelece que compete às partes “cumprir com exatidão os provimentos mandamentais e

não criar embaraços à efetivação de provimentos judiciais, de natureza antecipatória ou final”. A inobservância desse preceito importa na prática de ato atentatório à dignidade da

jurisdição, punível com multa de até 20% sobre o valor da causa.

A Lei n. 11.382/2006 deu nova redação ao inciso IV do art. 600 do CPC, que trata dos atos atentatórios à dignidade da Justiça, que agora apresenta a seguinte redação: “intimado, não indica ao juiz, em 5 (cinco) dias, quais são e onde se encontram os bens

sujeitos à penhora e seus respectivos valores”. Esse novo texto explicita, em contraste com

a redação anterior, que o devedor, uma vez instado a apresentar seus bens, pode ser multado se adotar, de maneira injustificada, uma postura passiva.

Essa nova disposição vai ao encontro da evolução da própria literatura processual (conf., por todos, DINAMARCO, Cândido R. A nova era do processo civil. São Paulo: Malheiros, 2003) a respeito da (i)legitimidade da adoção de uma atitude furtiva e evasiva do devedor. Antes considerada como ‘natural’, quase que à semelhança do direito à fuga no Direito Penal, a falta de colaboração do devedor é, atualmente, tingida de fortes contornos de ilegitimidade, constituindo numa atitude que desafia, a não mais poder, a ética processual, na medida em que contraria a idéia de que todos, sem exceção, devem concorrer para a rápida entrega da prestação jurisdicional.

De mais a mais, não há como deixar de considerar como capricho a atitude passiva e inanimada de que, tendo recursos para satisfazer ao crédito exeqüendo, não providencia o pagamento, demandado do Estado-Juiz mais esforço e mais despesas para a realização de seu munus.

Essa tradicional postura de muitos devedores tem colaborado, em grande medida, para que o Judiciário experimente a tramitação de uma pletora de processos envolvendo cobrança de créditos.

E essa realidade não é só um ‘privilégio’ brasileiro. Em recente diagnóstico sobre o Poder Judiciário de Portugal, o Observatório Permanente do Poder Judiciário, entidade de pesquisa vinculada à Universidade de Coimbra e coordenada pelo professor Boaventura de Sousa Santos, detectou um índice muito elevado (por volta de 81% nos tribunais de Lisboa) de ações de cobrança em tramitação nos diversos órgãos do Judiciário daquele país (SANTOS, 2007, p. 27-8).

Por tudo isso, entendo que não constitui ofensa a direito fundamental do executado eventual e momentânea indisponibilidade de parte dos seus ativos, ainda que superiores ao crédito exeqüendo, decorrente de bloqueios múltiplos perpetrados pelo acionamento do sistema BACENJUD, pois ao devedor, especialmente àquele que possui sobejantes recursos, compete a satisfação rápida e até voluntária da obrigação judicialmente exeqüenda de que é sujeito passivo. Se não o faz, parece-me razoável que suporte a essa contingência do sistema, que, como assentei, levará pouco tempo para ser corrigida, uma vez que o desbloqueio também se faz pelo mesmo sistema BACENJUD.

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