O Conselho Constitucional atuou, por décadas, realizando um controle de constitucionalidade exclusivamente preventivo, contudo, durante esse período se viu obrigado a presenciar o “maltrato” à Constituição, com leis declaradamente inconstitucionais, produzindo efeitos no ordenamento jurídico francês. Porém, por vezes acumulou decisões que transcendiam o direito de associação e as normas referentes ao Bloco de Constitucionalidade, que envolve os tratados de direitos humanos no âmbito da União.
No âmbito do Direito Internacional, o Conselho Constitucional manifestou-se em diversas ocasiões para, somente autorizar, a ratificação de acordos internacionais com status de lei, quando ocorresse a revisão constitucional.
Isso ocorreu pela primeira vez em 1992 quando do advento do Tratado de Maastrich114, acordo que instituiu a União Européia como conhecida atualmente, em
112 Disponível em:
http://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx
113 Disponível em: http://www.boe.es/legislacion/documentos/ConstitucionCASTELLANO.pdf
114 Disponível em:
https://europa.eu/european-union/sites/europaeu/files/docs/body/treaty_on_european_union_pt.pdf
1997 com o Tratado de Amsterdã115, que trata das chamadas fronteiras abertas na Europa, permitindo a livre circulação de pessoas, do direito de asilo e da questão, sempre tormentosa, da imigração. O mesmo ocorreu com o Estatuto do Tribunal Penal116, e também em 2007 com o Tratado de Lisboa117 que consolidou a estrutura organizacional do Bloco Europeu.
4.2.2.1 Os revéses das outras reformas constitucionais
Vencida a discussão sobre a França ter se movimentado tardiamente para proceder a um controle de constitucionalidade a postiori, também é preciso ter em mente que os “franceses” em determinadas ocasiões se mobilizaram para buscar maneiras de amenizar as violações contra direitos e garantias constitucionais decorrentes de leis “imperfeitas”.
Quando o Vigésimo Primeiro Presidente da República Francesa François Maurice Adrien Marie Mitterrand118 assumiu o comando do Governo na década de 80, apesar de pertencer ao Partido Socialista com tendências jacobinas,
“se absteve em alguns momentos do seu republicanismo” para adotar um maior liberalismo político, visando provocar algumas mudanças no modelo de controle constitucional francês.
Na tentativa de proporcionar à França certo progresso como um Estado de Direito e, de preencher as lacunas existente no sistema de controle francês, defendeu-se a ideia da implantação da chamada “Exception d’Inconstitutionnalité”119. Vislumbrava-se a possibilidade de conferir ao cidadão o direito de questionar a lei frente ao Conselho Constitucional, quando esta se mostrasse violadora de direitos e garantias fundamentais. Em matéria trazida pelo jornal Le Monde de 03 de março de 1989, Robert Badinter, então presidente do Conselho Constitucional, afirmava:
Por que não reconhecer o cidadão a oportunidade de levantar no contexto de um julgamento, uma excepção de inconstitucionalidade contra uma lei que Conselho constitucional não foi apreendida? O momento parece ter
115 Disponível em: https://www.ecb.europa.eu/ecb/legal/pdf/amsterdam_pt.pdf
116 Disponível em: http://pfdc.pgr.mpf.mp.br/atuacao-e-conteudos-de-apoio/legislacao/segurancapublica/estatuto_roma_tribunal_penal_internacional.pdf
117 Disponível em: https://www.parlamento.pt/europa/Documents/Tratado_Versao_Consolidada.pdf
118 Disponível em: http://www.elysee.fr/la-presidence/francois-mitterrand/
119 L'exception d'inconstitutionnalité est la possibilité qu'a un justiciable, à l'occasion d'un procès devant une quelconque juridiction, d'invoquer qu'une disposition légale est non-conforme à la Constitution.
chegado a reconhecer os próprios cidadãos a possibilidade de recurso para o Conselho constitucional, através de um filtro judicial, se eles sentem que os seus direitos fundamentais foram violados por uma lei120.
Essa possibilidade foi bem recebida pelo Presidente Mitterrand, que se pronunciou na TV no dia 14 de julho de 1989 da seguinte forma:
François Mitterrand reprend l'idée au cours d'un entretien télévisé, le 14 juillet 1989 : "Dans l'immédiat, personnellement, je serais partisan d'une révision constitutionnelle qui permettrait à tout Français de saisir le Conseil constitutionnel s'il estime ses droits fondamentaux méconnus.[...] J'ai déjà adopté une mesure de ce genre lorsque j'ai fait accepter par la France (ce qui avait été refusé auparavant) d'adhérer à la Convention européenne des droits de l'homme.[...] Bien entendu, il faudrait associer les institutions existantes (Conseil d'Etat, Cour de cassation) pour la démarche qui conviendrait [...]. Ce n'est pas une question de majorité politique. Bien au-delà de la majorité présidentielle, il y a des bons citoyens, il y a de braves gens, qui se trouvent à droite, qui se trouvent à gauche, qui sont aussi soucieux que moi des droits de l'homme et qui comprendront fort bien que ce serait un très grand progrès démocratique, en retournant à la base et en permettant, en somme, à chaque Français de ne pas s'adresser à des intermédiaires mais de dire lui-même : " Mon droit fondamental (liberté, égalité, tout ce qui est contenu dans les grands principes inscrits dans la Constitution) est méconnu, il est transgressé ? Eh bien! Je demande justice moi-même! "121.
Era a oportunidade de o cidadão questionar uma lei no curso de um processo administrativo ou judicial, lei esta que violasse direitos e/ou garantias constitucionais e que ainda não estivesse passado pelo crivo do Conselho Constitucional, logo, não declarada em conformidade com a Constituição. Nesses casos o particular poderia suscitar uma Exceção de Inconstitucionalidade.
Em 30 de março de 1990122, foi apresentada à Assembleia Nacional o seguinte projeto, que visava alterar os artigos 61,62 e 63 da Constituição, mudança esta que introduziria o Exceção de Inconstitucionallidade, no ordenamento jurídico francês; que enfim, proporcionaria a possibilidade de atacar uma lei imperfeita já promulgada.
De acordo com as pretenções do projeto, quando o magistrado se encontrasse diante de uma exceção de inconstitucionalidade deveria remetê-la ao
120 Disoinível em: https://www.senat.fr/evenement/revision/revision_inaboutie.html#90:
Pourquoi ne pas reconnaître au citoyen la possibilité de soulever, dans le cadre d'un procès, une exception d'inconstitutionnalité contre une loi dont le Conseil constitutionnel n'a pas été saisi? Le moment paraît venu de reconnaître aux citoyens eux-mêmes la possibilité d'en appeler au Conseil constitutionnel, à travers un filtre juridictionnel, s'ils estiment que leurs droits fondamentaux ont été méconnus par une loi.
121 Disponível em: https://www.senat.fr/evenement/revision/revision_inaboutie.html#90
122 Disposição na integra disponível nos anexos desta composição.
tribunal imediatamente hierarquicamente superior. No que tange questões administrativas o Conselho de Estado seria o órgão competente, já nos casos judiciais a competência ficaria a cabo da Corte de Cassação. Em ambos os casos, as demandas deverião ser analisadas no menor lapso temporal possível e caso fosse constatado o preenchimento dos requisitos de admissibilidades necessários o caso então passaria a apreciação do Conselho Constitucional.
Esse projeto, no entanto, apesar de obtida votação favorável na Assembleia Nacional, sucumbiu na sua chegada ao Senado. Seu mau destino se deu pelos votos dos senadores que o fizeram com base em mero corporativismo contra o Conselho Constitucional ou por discordância de bases opositoras a um projeto de reforma da Constituição apoiada pelo Chefe do Executivo123.
O “desejo dos franceses” em adequar o modelo de controle de leis a realidade da sociedade provocou mais uma tentativa de reforma da constituição em 1993, também no mandato do Presidente Mitterrand. Coube ao professor Georges Vedel124 liderar o comitê que ficaria responsável por iniciar um processo de revisão constitucional. Vedel buscou “ressuscitar” a “Exceção de Inconstitucionalidade” de 1990 no novo projeto de 1993125.
O próprio Mitterrand apresentou o projeto de reforma da Constituição, mas mais uma vez amargou o fracasso. As eleições legislativas que se seguiram puseram fim a maior aliada no Parlamento e a mudança do Primeiro-Ministro.
Édouard Balladur126 ao assumir o cargo de Primeiro-Ministro tomou para si somente as partes que lhe interessavam no projeto apresentado por Mitterrand, ficando de fora a questão do controle de constitucionalidade.
Teria a França que aguardar por mais quinze anos para, enfim, poder se deparar com um projeto que finalmente introduziria no seu sistema um controle de constitucionalidade a posteriori.