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O processo humanizado. O processo oral como modelo humanizador

Dentro dessa evolução dos modelos processuais, percebeu-se que o modelo de processo eminentemente escrito129 acarretava em um pernicioso afastamento entre o jurisdicionado e o julgador. Por seu turno, afastava-se o julgador da atividade probatória.

Justamente pela atividade probatória ser realizada à distância do magistrado, justificava-se a tarifação de provas, fazendo do juiz um autômato que seguia regras fechadas para chegar em resultados, afastando-se, por completo, do ideal de justiça130.

Percebeu-se que o processo escrito não era um processo humanizado, na medida em que gerava um julgamento opaco, sem qualquer diálogo, no qual as partes restariam insatisfeitas, haja vista que o resultado construído não era feito em coparticipação131, mas por um juiz sem rosto, logo, desumanizado.

A opacidade desse julgamento sem rosto gerava uma menor aceitação do resultado, instigando o desdobramento da lide em recursos ou até mesmo em novas demandas decorrentes da insatisfação com o resultado.

Nessa senda, tem-se que a qualidade do produto jurisdicional entregue não atendia aos ideais de justiça, já que era proferido por um juiz que não tinha contato com as provas e com as partes, resultando em uma sentença estéril dissociada da realidade, o que não aconteceria se houvesse a imediatidade do julgador na produção das provas132.

Além disso, o modelo processual que dá primazia aos escritos em detrimento da oralidade desagua em um procedimento de fases estanques. E, por isso, o que era realizado

129 Referindo-se ao processo comum, que substituiu o processo oral romano e era predominantemente escrito, a doutrinadora Renata Christiana Vieira Maia diz que “O processo comum, portanto, destacou-se por ter sido um retrocesso frente ao processo oral romano, uma vez que o juiz impedido de estar cara a cara com as partes e com seus testemunhos baseava suas decisões em escritos e nas provas tarifadas, impedido de exercer a livre valoração das provas” (MAIA, 2015, p. 37).

130 THEODORO JR., Humberto. Curso de direito processual civil. 59. ed. Rio de Janeiro: Forense, v. 1, 2018.

p. 465.

131 A respeito da atual necessidade de diálogo e da comparticipação dos atores do processo: “As ponderações delineadas neste breve ensaio demonstram que a leitura dinâmica da garantia do contraditório, como incentivador ao aspecto dialógico do procedimento, impõe uma efetiva comparticipação dos sujeitos processuais em todo o iter formativo das decisões”. (THEODORO JUNIOR, Humberto; NUNES, Dierle José. Uma dimensão que urge reconhecer ao contraditório no direito brasileiro: sua aplicação como garantia de influência, de não surpresa e de aproveitamento da atividade processual. Revista de Processo. São Paulo, v. 168, p. 107-142, 2009. p. 122).

132 GRECO, Leonardo. Instituições de Processo Civil. 5. Rio de Janeiro: Forense, v. 1, 2015. p.536.

oralmente transformava-se em papel e o julgamento deixava de ser humanizado, pois era fundado na letra fria dos relatos transcritos.

Conclui-se que, no método do processo estritamente escrito, não há um processo humanizado, pois tem-se um processo inteiro conduzido por advogados diante de um juiz distante das partes, que figura apenas como um espectador calado, refém das escrituras a ele expostas, bem como das provas produzidas pelo arbítrio dos litigantes133.

Para combater esse distanciamento entre juiz, as partes e a produção das provas, surgiu um movimento reformador que tinha como como objetivo eliminar os princípios retrógrados que informavam o processo escrito e trazer de volta o processo oral, prestigiando o diálogo e a transparência e fomentando a concentração dos atos do processo.

De fato, o coração da reforma era romper por completo com o velho processo.

Buscava-se aproximar o juiz das partes e da atividade probatória e, com isso, conferir liberdade ao julgador na valoração das provas, já que ele teria contato direto com a sua produção. Evidenciou-se uma revalorização do elemento oral, propiciando o maior contato do juiz em diálogo com as partes, o que faria com que o resultado entregue não fosse opaco e fruto de uma atuação robótica e solipsista134.

Adolfo Gelsi Bidart pondera que o processo em si já é uma construção humana civilizatória, na qual todo o seu procedimento é realizado por humanos. Assim, problematiza inquirindo o sentido de falar-se de humanização daquilo que já é humano. O autor conclui que humanizar não é tornar humano o que já é, mas sim trazer socialidade, civilidade e proximidade à realidade do jurisdicionado, respeitando sua condição de pessoa humana, seus anseios, medos e receios. O que se quer com a humanização é permitir que o jurisdicionado esteja próximo do ambiente de julgamento e do próprio julgador e, assim, consiga se

133 CALMON, Petrônio. O modelo oral de processo no século XXI. Revista de Processo. São Paulo, v. 34, n.

178, p. 48-52, dez. 2009.

134 Nesse sentido, vaticina a doutrinadora Renata Maia: “Desse modo, o movimento reformador buscou muito mais do que mera “reação contra o predomínio da escritura do procedimento ius comune e nos procedimentos destes derivados. Queria reagir contra — ou romper com — todas as outras características do velho processo”, por meio de uma revalorização do elemento oral, propiciando o maior contato do juiz, por meio da imediação, com as partes e as provas, eliminando o sigilo, e possibilitando a participação mais ativa do juiz no processo, permitindo que ele pudesse, livre das amarras das provas legais, valorar livremente as provas, culminando, assim, na concentração dos atos processuais em uma ou poucas audiências próximas. (MAIA, 2015, p. 43).

expressar, ser ouvido para poder influenciar e, dentro de um diálogo, se faça uma justiça mais humana mediante uma decisão coparticipativa135.

Ainda na construção do que se espera de um processo humanizado, impende ressaltar que, para que o processo tenha essa qualidade — ser humanizado — é necessário que haja o enfretamento de três obstáculos. O processo humanizado136 deve evitar o desperdício de tempo, o excesso de forma e a despersonalização do julgador e das partes, mirando sempre em um julgamento próximo, regrado pelo contraditório comparticipativo, no qual haja o poder de influência das partes que possuem as mesmas posições subjetivas de agir e reagir, dentro de uma igualdade efetiva.

Apesar do apontamento dos três obstáculos, entendo que o maior deles, e o que permitirá um processo mais humanizado, é o rompimento com a despersonalização dos atores do processo. A pedra de toque para vencer a despersonalização é o diálogo franco, com a necessidade de uma audiência na qual se permita a participação e a influência da todos os sujeitos, objetivando a construção de um ato derradeiro que resolva a crise do direito material e trazendo a pacificação social.

No processo humanizado, a fala deve ser dividida entre iguais, sem preponderância entre os participantes, que atuam de forma conjunta. Não se adequa ao processo humanizado a fórmula simplista de apresentação de requerimentos e da imposição de decisão solitária que se tem em modelos de processo escrito e distante137.

135 BIDART, Adolfo Gelsi. La Humanización del Proceso. Revista de Processo. São Paulo, v. 9, p. 105-151, jan. 1978.

136 Já em 1978, Celso Agrícola Barbi diagnosticava a necessidade de uma justiça humanizada e em sua anamnese apontava os requisitos para buscar a humanização da justiça. “A nosso ver, Justiça humanizada é aquela que não seja fria, distante, impessoal, desinteressada, burocratizada, mas sim a que seja atenta à situação pessoal das partes litigantes e às consequências da solução da demanda para elas, notadamente nas classes pobres;

cada caso levado a julgamento deve ser considerado um caso especial. Para alcançar esse fim, as técnicas a serem usadas são notadamente: a interpretação mitigadora do rigor de certas leis; maior conhecimento da situação pessoal das partes; efetivação do princípio da igualdade real - e não apenas formal - das partes no processo”.(BARBI, Celso. Formação, seleção e nomeação de juízes no brasil, sob o ponto de vista da humanização da justiça. Revista de Processo. São Paulo, v. 3, n. 11, p. 31-36, 1978).

137 No mesmo sentido, Leonardo Greco informa que “O significado moderno da oralidade é o de que, em qualquer processo, o juiz tem que estar sempre aberto à instauração de um diálogo humano, que se dá pela palavra oral, porque esta é o modo mais perfeito de comunicação, e, portanto, que pode efetivamente assegurar o respeito ao contraditório participativo e assegurar o direito das partes de influir eficazmente nas decisões”. (GRECO, Leonardo. Instituições de Processo Civil. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, v. 1, 2015. p.

535).

De forma cirúrgica, sobre a importância seminal do diálogo para humanização do processo e sintetizando o que verdadeiramente é um processo humanizado, a processualista Renata Christiana Vieira Maia se posiciona138:

O verdadeiro diálogo ocorre em contraditório. O diálogo é a saída para maior humanização do processo, no sentido de que a humanização do processo perpassa pela humanização dos sujeitos que fazem parte dele, permitindo-lhe maior participação ativa e interventiva. (...) A humanização do processo nada mais é que permitir a intervenção direta e pessoal das partes para que elas possam relatar, por si, por meio de uma audiência, os fatos tais como teriam ocorrido, permitindo que elas confrontem, de acordo com o seu ponto de vista, e que possam superar até mesmo as dissidências, possibilitando, sob o auxílio do juiz, encontrar possíveis soluções para certos aspectos do conflito. (...) Só será dialético o processo quando as partes puderem falar e também serem verdadeiramente ouvidas sem que, para tanto, seja preciso apenas falar por meio de um interlocutor, como é o caso do procurador e só por meio de alegações escritas. A participação dos interessados na construção do provimento final, depois de um profícuo e civilizado debate oral, contribui para a pacificação dos interessados, ou, se não, ao menos contribui para a diminuição do tempo do processo e de recursos.

Diante do que já se expôs a respeito das exigências para ser ter um processo humanizado, verifica-se que é o modelo oral de processo que responde satisfatoriamente, pois é regido pelo contraditório comparticipativo, tendo a sua espinha dorsal formada não só, mas principalmente, pelos princípios da imediatidade, da identidade física do juiz, da concentração e da livre valoração das provas.

Pode-se dizer, sem ter espaço para dúvida139 que é processo oral aquele que consegue travar um bom combate aos três problemas supra mencionados, pois, por ser concentrado, evita tempos mortos e atos inúteis. De outro lado, a franqueza da oralidade evita artimanhas que o papel e a escrita permitem, impedindo que o zelo excessivo pela forma seja um obstáculo à solução da lide ou aos estratagemas dos “sem razão”.

138 MAIA, 2015, p. 111-112.

139 Concordam com essa afirmação Cunha Barreto (CUNHA BARRETO. Oralidade e concentração no processo civil. Revista Forense. Rio de Janeiro, v. 74, p. 65-76, maio 1938), Barbara Gomes Lupetti (BAPTISTA, Bárbara Gomes Lupetti. Os rituais judiciários e o princípio da oralidade: construção da verdade no processo civil brasileiro. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2008 p.335), Francisco Morato (MORATO, Francisco. A Oralidade. Revista Forense, Rio de Janeiro, v. 74, p. 141-148, maio 1938), Leonardo Greco (GRECO, 2015, p.335), Giuseppe Chiovenda (CHIOVENDA, 1965, p. 92) e Renata C.

Vieira Maia (MAIA, 2015, p.142-143). Além desses: “Para Celso Barbi, Gelsi Bidart, Fairen Guillén e Cappelletti, do ponto de vista técnico, o processo oral é o tipo ideal por ser um processo mais humanizado e moralizado. Se a humanização do processo se volta na direção do homem e das suas necessidades, não se vislumbra outro tipo que não o processo oral que é concentrado, simplificado, menos complicado e permite a interlocução com participação ativa e efetiva de todos os interessados no provimento final. Além disso, o processo oral resgata o diálogo e a personalização dos sujeitos”. (Ibid, p.142).

Por fim, com o processo oral, o diálogo ganha destaque e o juiz torna-se pessoa participativa que está ao lado — e não acima — das partes, em favor da construção de uma solução ao problema posto em juízo, deixando de ser uma entidade impositora e solitária. O contraditório comparticipativo é o coração de um processo humanizado, pois permite que o processo deixe de ser um monólogo de um juiz distante e passe a ser um diálogo humano.

Passa-se a esmiuçar o contraditório para dar mais sentido à assertiva que acabara de ser exposta.