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O processo de luto do filho da pessoa que cometeu o suicídio

CAPÍTULO 2 – FRAGMENTOS DO ENTRE: ATUALIDADES EM PESQUISAS

2.4 O processo de luto do filho da pessoa que cometeu o suicídio

Depois houve a morte de meu pai. Uma morte brutal, inesperada, cruel. Um suicídio, com 82 anos de idade, realizado com sua própria arma, uma morte incompreensível, que ficará assim para sempre. Nunca pude saber o porquê. O que conheci foram o peso e a dor desse desaparecimento, sem que pudéssemos nos despedir. Tudo o que gostaria de ter dito a meu pai e que não tive tempo de dizer: as palavras, os gestos de amor, de gratidão, esta morte que não pude acompanhar, tudo isso certamente pesou na minha escolha, anos mais tarde, de consagrar-me a acompanhar pessoas no fim da vida (HENNEZEL, 2004, p. 30).

As palavras de Hennezel refletem as dúvidas, situações inacabadas, dores e sofrimento de uma filha que enfrentou a morte de seu pai por suicídio. Fontenelle (2008, p. 21) compartilha também sua experiência: “[...] O que eu não esperava era que, para compreender a sua escolha de eliminar o amanhã, seria preciso relembrar, tão profundamente, o ontem que havíamos construído juntos”.

Meu pai / mãe morreu... Morreu por escolha...

Morreu por desespero... Onde está meu genitor?

Onde está minha referência e meu norte?

Para onde foi o responsável por iniciar minha existência? Para onde foi meu colo?

Para onde foi meu amparo?

Para onde foram os apontamentos e as direções que tomarei? Para onde foram partes de minha história?

Qual é a explicação? Qual é o cuidado?

Qual é a lição que deverei tirar de tudo isso? Meu luto é um processo da continuidade de uma vida que ficou?

É um recomeço?

Ou é uma questão de sobrevivência?

Vida quase toda sem colo materno – travesseiro que os deuses-do-acalanto fizeram sob medida para cabeças atormentadas. O órfão é caminhante cujo trajeto só tem ida. Vive-se eternamente em alto-mar por falta de porto para se atacar. É ruim viver sem mãe – principalmente sem o adeus daquela que se matou. É ruim viver; principal- mente só – falando apenas com ela palavras que nascem a todo instante neste bloco de papel de rascunho que já amanhece inquieto carente de vocábulos (FERREIRA, 2010, p. 34).

Nem sempre os pais têm condições para oferecer os ensinamentos aos filhos e um dos aspectos que considero é que o filho da pessoa que cometeu suicídio não teve o mesmo privilégio que o meu, como exposto na apresentação, de ver sua mãe saindo das cinzas. Por esse motivo, os filhos de pais que cometeram o suicídio podem sentir solidão, falta de oportunidade por não terem recebido colo e acalanto, cuidado, amor e direção, culpa, raiva e ressentida sensação de abandono.

Como dito anteriormente, o suicídio é um evento que pode tornar a vida do sobrevivente um caos, provocando a dúvida sobre possibilidade de reconciliação. Contudo, mesmo antes do evento trágico, a vida e os relacionamentos entre os membros da família talvez fossem disfuncionais e, portanto, a dinâmica familiar já era caótica e aprisionante: “[...] muitas das famílias enlutadas por suicídio [...], viam-se como se estivessem presas em um caminho do qual não conseguiam sair” (PARKES, 1998, p. 160).

Quando o filho sobrevive ao suicídio de um dos genitores pode ter uma experiência cujo sofrimento provoca a sensação de desamparo, e o suicídio parental representa mudança, um divisor de águas: o antes e o depois do suicídio. “Um dia, nossos mundos mudam e não somos os mesmos” (FOX e ROLDAN, 2009, p. 22). Dessa frase, elaborou-se uma história cuja legenda é:

• A vida = festa;

• O convidado = filho da pessoa que cometeu suicídio; • O anfitrião = a mãe ou o pai que cometeu o suicídio.

Uma festa foi idealizada e os convites foram encaminhados aos convidados. A festa foi organizada, preparada e, após a entrada do convidado, o anfitrião se ausentou e saiu de cena. O anfitrião não desfrutou daquilo que preparou e organizou. O convidado, que não conhecia o local, talvez tenha ficado com a sensação de que não estava no lugar certo, pois o anfitrião, que supostamente deveria estar lá, não estava. O convidado, em dúvida, desconfiou que pudesse estar na festa errada e perguntou para outras pessoas se era esse mesmo o lugar onde deveria estar. Em outros momentos, olhou por várias vezes verificando se lera corretamente as informações que estavam em seu convite, indagando:

• Será que vim ao lugar certo?

• O que deverei fazer agora, uma vez que, quem me convidou, não está aqui? • Poderei aproveitar o momento? Como?

• Serei capaz de vivenciar este espaço? Estarei preparado para utilizar o espaço sem o anfitrião?

• Por quanto tempo deverei ficar aqui?

• Como ficarei sem o anfitrião?

• Deverei assumir o lugar do anfitrião? E, se assumir o lugar dele, terei tempo para assimilar a nova informação de que deverei assumir outra tarefa?

• Que droga! Minha expectativa era de ser um convidado – apenas. Alguém poderia me dizer como um convidado pode se tornar um anfitrião?

Um convidado, ao se tornar anfitrião (difícil tarefa!), perde a referência, a direção e vê abalado o apego seguro (PARKES, 1998), pois o suicídio do pai ou da mãe limita a possibilidade da aprendizagem por modelos.

Dessa maneira, o filho da pessoa que cometeu suicídio, mesmo não tendo escolhido a morte de seu pai ou de sua mãe, carrega consigo uma história na qual tudo o que lhe acontece está com ele e dentro dele. Histórias fragmentadas e vivências picotadas que aparecem nas poucas lembranças que revelam o vivido e o percurso até o momento do suicídio – uma morte precipitada, malcompreendida, sem sentido...

Soifer (1994, p. 26) afirma que uma das funções dos pais é oferecer limites e, “pôr limites significa dar a noção de realidade, noção que, em última instância, constitui o limite decisivo com relação à fantasia”. Depois do suicídio, os papéis de todos da família devem ser redimensionados, principalmente, porque o limite da vida foi ultrapassado e um conjunto de reações surge e exige reorganização. É o que destaca Judy Fox, uma das autoras do livro Voices of Strength (2009, p. 29), ao mencionar que uma criança, ao perder o pai ou, principalmente, a mãe, por volta de 5 anos ou menos, pode sofrer por querer saber quem ela é e qual é seu lugar de pertencimento: “Essencialmente, a primeira lição em sua história e geograficamente acontece pela própria linhagem”.

O filho terá de reaprender seus papéis e deverá redescobrir ou descobrir que, apesar da dor e confusão, sua vida continua e clama por uma nova configuração e pela busca de amparo que já não recebe das figuras parentais, pelo menos, daquele que morreu. Jamison (2010, p. 273) destaca:

Os filhos, embora devastados e marcados para sempre pelo suicídio de um pai, em sua maioria sobrevivem à morte sem patologia grave ou duradoura. Como os adultos na esteira do suicídio, porém, muitos filhos passam por pesar, culpa e ansiedade profun- dos que persistem por muitos meses, se não anos.

Por que a morte do meu pai ou mãe aconteceu justamente comigo? O que fiz de errado para não continuar com minhas referências? Por que fui lançado no mundo e agora me sinto sozinho para continuar minha trajetória? Essas são questões que expressam a falta de sentido dos motivos do suicídio parental – geralmente mal respondidas, mal-acolhidas e mal compreendidas – podem gerar frustrações e, consequentemente, amedrontar e ameaçar o filho da pessoa que se matou. Por que os filhos não foram razão suficiente para que a pessoa se mantivesse viva? É o que Alvarez (1999, p. 49) levanta quando reflete sobre o suicídio de Sylvia Plath: “acima de tudo,

tinha os filhos: Sylvia era uma mãe passional demais para querer perdê-los ou para desejar que eles a perdessem”. Sendo assim, há de se pensar sobre o fato de alguns filhos se tornarem ou não fatores de proteção para os pais que cometeram o suicídio. Contudo, também se consideram situações em que os filhos, talvez, não tenham tido a função de proteção para que os pais pudessem escolher a vida e não, a morte.

O suicídio pode significar o grande sequestro da proteção. Nesse sentido, ressalta-se que ao cometer o suicídio, a mãe ou o pai se torna estrangeiro para sua prole, pois a tarefa da compreensão do fato de um dos genitores sinalizar a vontade de sair de seu território é, no mínimo, árdua. Já os filhos que perderam seus pais perdem também uma fonte de segurança e tendem a permanecer próximos ou tentam direcionar suas necessidades para outras fontes de segurança – pessoas ou lugares aos quais estão vinculados.

Pais e país apresentam uma correlação direta, ou seja, o estrangeiro deve ser compreendido na fronteira entre o individual e o social. Os pais que saem do território original são os que saem de seu país original, considerando a ideia de que a perda da pátria corresponde à perda de um ente querido. A imigração provoca a sensação de perda do enraizamento e o sentimento de abandono, revela o sentimento de estar sem bando, que, segundo Maaloulf (2005, p. 2): “É muito angustiante não se compreender o que o outro fala, é uma experiência de estranhamento, de estraneidade, que deixa o solo remexido, com as raízes suspensas”.

A criança é simultaneamente atraída e repelida pelo componente desconhecido desse mundo, mas é a proximidade da mãe que irá determinar se um novo objeto ou pessoa deve ser evitado ou contatado. Períodos nos quais a criança fica “grudada” à mãe são alternados com períodos de exploração, garantindo uma distância segura desta. Se uma pessoa estranha aparecer ou se a criança de repente perceber que foi além da distância de segurança, irá imediatamente “retornar à base” (PARKES, 1998, p. 29).

No entanto, há de se considerar que o filho da pessoa suicida não pode retornar à sua base, ou, em outras palavras, ao seu país, porque sua mãe (ou seu pai) está morta (o).

A perplexidade do ato suicida do pai ou da mãe não produz uma resposta que possibilitaria a simbolização, pois o objeto a ser punido não está mais presente, tampouco vivo.

Para nós e para a maioria dos sobreviventes com quem falamos o sentimento de caos nos acompanha em algum nível de nossos mundos. Acreditamos que os pais supos- tamente oferecem muitas coisas: amor incondicional, segurança, proteção, a sensa- ção de estabilidade emocional e psicológica. Quando um pai ou mãe se mata, todos esses aspectos são colocados em questão. Vemos o mundo como incerto, injusto e potencialmente trágico. No luto antecipatório, frequentemente sentimos que aqueles a quem amamos (o pai ou a mãe que não morreu, irmãos, maridos, viúvas, crianças, pessoas amadas ou amigos) podem ser retirados da nossa vida, seja por suicídio ou outra causa de morte (FOX e ROLDAN, 2009, p. 158).

O que se torna traumatizante, talvez, seja a luta constante para conviver com a violência, uma vez que o pior não se trata o suicídio de per si, mas, sim, de todo o processo anterior, o durante e o pós-suicídio. Aquilo que poderia ser ameaçador – a morte dos pais – tornou-se realidade. Então, a resposta da morte também dependerá da estabilidade ou instabilidade das relações familiares mesmo antes do suicídio acontecer.

Parte-se da premissa que enfrentar o suicídio do pai ou da mãe é uma vivência violenta e de grande pressão e, por esse motivo, o estresse é uma das reações da família enlutada devido ao suicídio. Parkes (1998, p. 123-4) salienta: “Quando a perda foi repentina, grande e impingida à atenção do enlutado, são usadas palavras relacionadas à mutilação e violência”.

Foi na disciplina Família, violência social e trauma – ministrada em 2010 pela docente Belinda Mandelbaum – que fui apresentada à obra Carta ao pai, de Franz Kafka (2009). Mandelbaum e Mandelbaum (2002, p. 5), sobre os escritos de Kafka, mencionam que “[...] a família é núcleo originário de um modo de relação entre pais e filhos que conduz à alienação ou à solidão”.

O fato de termos uma lente de aumento para as vivências da família diante de um luto, e não apenas de indivíduos enlutados, apresenta-nos uma perspectiva de grande valor, uma vez que desdobra situações presentes na vida diária e desafiadas pelas mudanças do mundo contemporâneo (FRANCO, 2010, p. 32).

As ideias sobre a família ser representante do acolhimento e do sofrimento provocado pela sociedade são questionadas. E, enquanto se pensa que um dos objetivos da família seria a defesa da vida, que inclui ensinar a cuidar-se emocional e fisicamente, Kafka apresenta uma compreensão que está na contramão da maioria das teorias sobre família, pois amplia a reflexão sobre a função na educação das crianças. “Definitivamente, em Kafka, a família não é o lugar de promoção da compreensão e do entendimento” (MANDELBAUM e MANDELBAUM, 2002, p. 5). Kafka expressa na obra Carta ao pai (1919) a crença de que a família não acolhe; ao contrário, provoca sofrimento ao filho, por causa da incomunicabilidade das expectativas e dos mitos familiares.

Aqueles que deveriam proteger – os pais – são justamente aqueles que se matam e, por consequência, tornam-se os causadores da violência. Gary Small, no prefácio de Nobody’s child anymore (2000) afirma: “O momento em que estiver a frente do túmulo de seus pais será o ápice da sua solidão”. Solidão e desamparo são sentimentos que os filhos das pessoas que cometeram suicídio parecem conhecer bem, mas isso será outra história...

OBJETIVOS

1.a OBJETIVO GERAL

Conhecer e compreender o processo de luto do(a) filho(a) da pessoa que cometeu o suicídio.

1.b OBJETIVO ESPECÍFICO

• Compreender o processo de luto da família da pessoa que cometeu o suicídio.

2. PROBLEMA DE PESQUISA

A questão a ser explorada é: “Como é o processo de luto do(a) filho(a) da pessoa que cometeu o suicídio?”.

3. MÉTODO

A pesquisa qualitativa, baseada no modelo fenomenológico proposto por Edmund Husserl e adaptado por Clark Moustakas (1994) foi utilizada para as análises dos depoimentos de 9 (nove) colaboradores, e a teoria que ofereceu sustentação para o presente estudo foi a Gestalt-terapia.

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