4 REPERCUSSÕES DO CONCEITO DE TRANSTORNOS GLOBAIS DO

4.5 Estudos de Casos

4.5.2 Caso G “Faculdade de Aprender”: uma impossibilidade diante de um saber incontestável

4.5.2.6 O professor e a família/ A família e a escola

Nas entrevistas que foram realizadas durante a pesquisa de campo, tanto na escola quanto junto aos educadores do Núcleo de Inclusão, pudemos verificar uma série de conjecturas a respeito da mãe de G.

De modo geral, descrevem-na como alguém que adota sempre uma postura muito provocadora e desafiadora para relacionar-se com os profissionais, demonstrando sempre uma posição de quem aparentemente não aceita conselhos e intervenções externas. Acredita-se que, pela forma da Mãe G se relacionar com a Escola e gerir a frequência da criança à instituição, a transmissão de conhecimentos de que esta escola é responsável não são prioridades para ela. Para os educadores, o efeito desta posição materna em relação à escola seria evidente no pouco desenvolvimento da aprendizagem do aluno.

Assim, a partir da fala da Educadora 1, verifica-se a crença de que esta mãe estaria fazendo um obstáculo à participação e à inclusão da criança na escola, pelo fato de ela constantemente lhe demandar outras questões, diferentes da frequência e da permanência de G. no ambiente escolar.

Com a demanda que ela dá para ele, eu acredito que sim [que ela faz obstáculo à aprendizagem e à participação da criança na escola]. Então, de repente, é isso: - ‘Você não vai sair porque você vai ficar aqui com seu irmão. Você não vai para a escola por causa disso, disso e disso. Quer dizer, eu penso que, para a mãe dele, a escola para ele não é uma prioridade do ponto de vista do crescimento pessoal. A escola para ele é uma forma dela ficar livre da cobrança dos órgãos de proteção, entendeu? Do Família-Escola, mesmo do Conselho Tutelar, do Serviço de Proteção à Família, do Serviço de Proteção à Pessoa com Deficiência. Então assim, ‘ele está na escola!’. É o que ela vai dizer: - ‘Ele tá na escola!’, entendeu? Agora, se ele está aprendendo ou não, para mim isso não é uma prioridade para ela. Isso é do meu ponto de vista. Pode até ser que outro profissional tenha outra visão, que quem vá fazer o acompanhamento tenha outra visão. Mas, do meu ponto de vista, isso não é prioridade para ela, o desenvolvimento do filho, o desenvolvimento escolar dele, entendeu? (Educadora 1, maio de 2011)

Apesar de este ser o ponto de vista de um único profissional, revela-se uma percepção da Escola sobre a mãe de G que termina por ser compartilhada entre os outros educadores. Reitera-se entre eles a percepção em torno da inadequação desta senhora para lidar com a educação formal de seu filho. Assim é que as Professoras 2 e 3 ressaltam que a família não é presente na Escola e que interrogam: “Você estará com a mãe dele? Deveria! Ajudaria muito! Ela é um caso a parte!” (sic – Professora 2 e Professora 3).

Desta forma, estas percepções a respeito da organização familiar de G e, principalmente, a respeito de sua mãe, são reforçadas como um elemento dificultador do processo de ensino e aprendizagem do aluno, pois atribuem à sua genitora a interferência nos processos escolares do filho e a falta de apoio familiar como causas de seus distúrbios de aprendizagem.

Por meio de tudo o que foi apresentado, não é difícil observar que a relação da família com a escola é conflituosa e tumultuada. Contudo, de que ordem é esta relação? Como esta posição materna denunciada pelos profissionais da Escola poderia influenciar na posição da própria criança diante do saber e da aprendizagem a ponto de inviabilizar uma parte importante do processo de inclusão deste aluno?

Da tumultuada, porém produtiva, entrevista realizada com a mãe de G90, extraem-se algumas passagens que parecem estabelecer pontos de correspondência com os impasses da criança na escola.

Desta forma, chama a atenção o enunciado desta senhora em relação à aquisição de conhecimento. Apesar de sua fala não condizer com a aparente realidade, ela afirma que nunca frequentou os bancos de uma escola, mas que sabe ler e escrever, inclusive em inglês – “Tudo que eu sei, eu aprendi sozinha. Contando ninguém acredita!”, ela diz. Sendo assim, ela parece indicar aí certa demissão da função da escola enquanto transmissora de conhecimentos para se colocar no lugar de quem é geradora per se da condição autoditada que anuncia.

Também afirma que, quando o seu outro filho estudava Escola α, “Eu brigava muito, dizia as coisas sem pensar. Às vezes eu ficava nervosa, tudo pra mim era motivo pra falar alto! Às vezes o negócio nem precisava de... de briga, eu já tava brigando.. Aquele trem.. Mas Deus tira tudo!” (sic-Mãe G). Assim como já foi mencionado, uma das dimensões de conflito e dificuldades para a criança na Escola recai justamente sobre os relacionamentos interpessoais da criança com seus colegas. Em relação a isto, os professores referem-se às condutas por vezes impulsivas e agressivas de G no trato com seus colegas e, entrevistando a mãe, pode-se identificar o mesmo tipo de conduta.

Por sua vez, ela ainda afirma que “Eu só faço o que eu quero; se me derem um conselho, eu faço tudo ao contrário. [Mas] Eu arrependo, nó! Às vezes eu tô com as perna cansada, não venho, mas eu fico lá arrependida.” (sic – Mãe G). Tal questão também tem incidência na escolarização de seus filhos, na medida em que, segundo a Educadora 1, após os afastamentos de G e de seus irmãos da escola, ela somente costuma reenviá-los à instituição de ensino caso seja pressionada para tanto.

Desta forma, percebe-se nesta mulher um posicionamento bastante particular em relação à participação de seus filhos na escola. Torna-se preciso relembrar que, quando da realização da presente pesquisa, G estava fora da escola, tendo sido buscado por uma das professoras para que pudesse ser entrevistado. Estava fora da escola porque havia discutido com duas colegas. Assim como já assinalado, na ocasião, verificou-se a posição adotada por esta mãe de orientar o filho a “Deixar a escola para aquela menina” (sic- Mãe G), porque as colegas do filho teriam chamado o garoto e a ela por nomes pejorativos. Por motivos

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Inadvertidamente, o espaço onde estávamos já estava programado para outra atividade na mesma hora. Além disto, não conseguimos levar a entrevista até o final. Ocorrências externas fizeram com que esta mãe tivesse que deixar a escola sem que se tivesse encerrado a entrevista. Depois deste encontro, não houve possibilidade de retomarmos as entrevistas com esta senhora. Tendo sido chamada novamente à escola, ela não compareceu.

semelhantes, ela também retirou o filho mais velho da escola, pois, na escola onde este menino estudava, o chamavam de “doidim” e de “retardado” (sic – Mãe G).

Ela afirma que não admite que zombem dos filhos dela, atribuindo-lhes apelidos ou nomes pejorativos, traduzindo-se aí um ponto insuportável para ela, o qual, aparentemente, não ganha muita dialetização ou possibilidade de mediação, assim como em alguns momentos parece acontecer com G quando ele é apelidado e apelida os colegas, colocando-se em situação de confronto com eles por esta causa. Tal posicionamento parece impedi-la de encontrar saídas para os impasses vivenciados, inclusive os que se referem à vivência doméstica cotidiana e que terminam por fazer frente à permanência de G na escola. Assim, de certa forma, é a imagem de alguém que não possibilita a permanência de seus filhos na escola que os professores guardam a respeito desta mãe.

Além dos trechos trazidos acima do que foi possível conversar com esta senhora, transcreve-se um pequeno trecho em que buscamos saber sobre ela estar sempre envolvida em brigas ou no que diz respeito ao seu extremo oposto, ela não dizer nada para ninguém, mesmo quando isto se faz necessário91:

Pesquisadora: [...] Mas, aqui, sabe [...] o que eu acho importante colocar pra você? Tem um avesso disso [brigar sempre], o contrário disso que é não dizer nada. Mãe G: Essa é boa!

Pesquisadora: Sabe? Uma coisa é sair dizendo “blá blá blá” [faço gestos e voz agressivos]... tudo pra todo mundo! A outra coisa que fica mais ou menos igual... Mãe G: hum..

Pesquisadora: na hora que precisa dizer, né? Mãe G: Ignorar!

Pesquisadora: Ignorar! Porque me parece que foi um pouco isso que aconteceu agora com a história do G., né? Poderia ter sido dito, comunicado para a escola, “Oh! Tá acontecendo uns problemas e tudo! Como é que a gente pode fazer?”. Porque, por outro lado, ao invés de dizer TUDO, não se diz nada, o que parece que acontece é que você rompe com as coisas!

Mãe G: hum.. [acena com a cabeça afirmativamente]

Pesquisadora: Aí é preciso que tenha um meio de caminho nisso... Um meio-termo! Entende?

Mãe G: hum hum.

Pesquisadora: Não sei se você vai concordar comigo agora, pra fazer... porque você falou que assim, que depois você faz tudo do seu jeito.

Mãe G: Não, não... não posso fazer tudo do meu jeito! Porque igual você falou pra vim aqui tal dia, eu num vim...

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Na situação em questão, a escola não havia sido informada do que estava acontecendo. Parte da cena ocorreu dentro da escola. Outras agressões ocorreram dentro da própria comunidade e a Mãe 1 abriu um boletim de ocorrência contra as colegas do filho.

Apesar do bom encaminhamento da conversa no sentido de se buscar uma retificação na posição desta mãe quanto à sua relação com a escola, neste momento, a entrevista precisou ser interrompida.

Do que é possível extrair deste encontro, torna-se necessário localizar que não se trata de atribuir à figura da mãe, às suas características particulares ou à condição socioeconômica em que a família vive o fracasso escolar de G. Entretanto, diante do que foi possível escutar desta mulher, de sua relação com os filhos e com o saber enquanto aquisição de conhecimento, bem como o que indicam os professores a respeito da relação dela com a escola, interroga-se aqui sobre a posição do aluno diante destes fatores.

No documento Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: da categoria psiquiátrica à particularidade do caso a caso nos processos de inclusão escolar (páginas 140-144)