Entre 1952 e 1954, a Sagmacs realizou o estudo das necessidades e possibi-lidades do Estado de São Paulo para a Comissão Interestadual da Bacia Paraná – Uruguai (CIBPU). Após esse estudo, ela foi chamada a atender aos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, cujos trabalhos foram efetuados de dezembro de 1955 a julho de 1957 (CIBPU, 1958).
Para a execução desse trabalho adotaram-se o método de análise e as normas já usadas no estudo sobre o Estado de São Paulo, ou seja, a microanálise, por sondagens de unidades territoriais distribuídas no conjunto dos três estados, para obter para cada zona homogênea uma amostra que propiciasse uma ideia exata da situação das subpopulações e apresentasse os problemas mais diversos que afetavam essas subpopulações. Para o exame dos dados brutos que pertencem à
macroanálise, recorreu-se às informações do IBGE, fossem elas brutas ou elaboradas, e aos dados da Fundação Getúlio Vargas e de outros organismos e institutos.
A interpretação dos dados obtidos dessas fontes foi feita confrontando-os com
"as observações e entrevistas efetuadas in loco" (CIBPU, 1958, p.5).
A perspectiva de análise foi o da Economia Humana, cujo significado é a integração dos problemas humanos como primordiais, numa síntese das ciências sociais visando à satisfação das necessidades. A economia humana é a "disciplina especulativa e prática da passagem, para uma população determinada, de uma fase menos humana para uma fase mais humana, no ritmo mais rápido e ao custo menor possível, levando em conta as outras populações" (CIBPU, 1958, p.7).
Entretanto, logo no início ficou claro que não se tratava de um plano propriamente dito, uma vez que para isso não houve tempo. Ainda asim, o estudo permitiu que se trouxessem para os responsáveis pela planificação em cada estado e à Comissão os elementos que deveriam facilitar o seu trabalho.
O estudo começa tratando da população, sua distribuição e sua renda. Nesse sentido, ao analisar a documentação que forma o repertório analítico que se relaciona com o desenvolvimento e a valorização humana, a equipe observa que recenseamentos decenais são insuficientes para um país em crescimento como o Brasil, ao mesmo tempo em que registra a necessidade de treinamento dos agentes que operam a rede do IBGE, destacando a importância do trabalho que exercem.
A par disso, constata a necessidade de escritórios regionais de conjuntura, que poderiam realizar sondagens periódicas, para complementar a documentação existente e corrigir problemas de incongruência entre dados do Censo Demográfico e os dos Censos Econômicos (população ativa, por exemplo), entre o Censo Agrícola e as Estatísticas do Serviço de Estatística da Produção do ministério da Agricultura.
Dessa forma, o estudo faz uma análise das entidades geradoras de informações, recomendando, inclusive, um levantamento intercensitário, o que veio a ser adotado em 1996, por meio da Contagem da População.
Define como centro de gravidade da população os locais ou áreas para os quais se direcionam os fluxos demográficos de população, detectando que esses movimentos dirigiam-se para o norte, no Rio Grande do Sul, para o oeste, em Santa Catarina, e para o nordeste, no Paraná.
Ao mesmo tempo, procura mostrar o lugar dos três estados no conjunto do Brasil, mediante a construção de gráficos centrados nos percentuais da área ocupada
pelos estados em relação ao Brasil e pela participação da sua população na população brasileira em 1950 e 1955. Traça, então, duas linhas verticais representando cada uma dessa variáveis, e as demais informações são expressas em barras horizontais como a daquelas variáveis de referência (CIBPU, 1958).
Devido ao fato de os três estados serem povoados também por descendentes de europeus não ibéricos, dedica um capítulo à distribuição étnica da população e, seguindo as ideias expostas em artigo por Leo Waibel, contrapõe a população antiga, formada por portugueses e açorianos, que preferiam os campos ou o litoral, a uma onda de conquista de não ibéricos que ocuparam as florestas (CIBPU, 1958).
No geral, esses estudos são detalhados, exaustivos e têm como objetivo uma descrição do quadro representado pelos estados. Analisando o emprego e o subemprego rural, o estudo destaca a evolução da propriedade agrícola assinalando os prejuízos acarretados pela falta de dados precisos. Considera que o "fenômeno do desemprego dissimulado ou do subemprego é disfarçado na agricultura quando predomina a exploração familiar" (CIBPU, 1958, p.93), concluindo que a
A forte natalidade provoca em cada geração uma nova repartição das terras das famílias e já muitas delas têm uma propriedade rural insuficiente para viver. Essa é a causa das partidas freqüentes dos filhos adultos rumo a terras disponíveis e que, sobretudo, não tenham ainda atingido um preço exorbitante. O problema até agora, tem um aspecto diferente no Paraná, o desmembramento se manifesta por um aumento importante do número de explorações de menos de 10 hectares e mesmo de 10 a 100 hectares (CIBPU, 1958, p.97).
Conforme essa análise, a apreciação do subemprego urbano é dificultada pela impossibilidade da comparação com os países desenvolvidos. Recorre a uma pesquisa de Rafael Xavier, que estima a população marginal como o excedente da população urbana em relação ao quíntuplo da população industrial, isto é, é marginal toda população urbana cujo número exceda àquela que resulta da multiplicação da população empregada na indústria por cinco. Com isso, o estudo define uma "taxa de marginalismo" para o Brasil de 40%, sendo 16% em São Paulo e 35% no Sul, onde Santa Catarina aparece com 0,9%, Paraná, 24,3% e Rio Grande do Sul, com 39,7% (CIBPU, 1958, p.97).
Quanto à renda da população, após apresentar várias tabelas, constrói um gráfico da evolução da renda territorial de alguns estados da bacia e do Brasil que cruza a participação da renda de cada um dos setores na renda total. Em geral, os
estados do Sul concentram na área de intersecção alta participação da renda gerada pelo setor primário e baixa ou média participação da renda gerada pela indústria e comércio. Esses dados são confrontados com os de São Paulo e Brasil, que se concentram na área oposta do diagrama.
Define e analisa o que chama regiões de vida coletiva, que são conjuntos territoriais, "mais ou menos polarizados por um centro urbano" dotado de melhores equipamentos nos diversos setores: comercial, de crédito, de transporte, de saúde, jurídico, cultural, espiritual e administrativo (CIBPU, 1958, p.185). Nesses termos, essas regiões de vida coletiva coincidem com o que é conhecido como regiões polarizadas nas análises da hierarquia e divisão funcional urbanas.
Com essa definição encerra-se a primeira parte do estudo, composta de análises estatísticas que permitiram diferenciar a população que será objeto de estudo, ainda que os dados estatísticos não permitam conhecer um aspecto capital dos habitantes dos estados, que é o nível geral de vida. E isto foi feito na segunda parte mediante a observação direta sobre mais de 100 unidades rurais e quase 30 unidades urbanas.
O método empregado é o do movimento "Economia e Humanismo".
A respeito do assunto, o estudo registra que uma
[...] concentração exata da noção de nível de vida não foi ainda elaborada completamente. É que, de fato, o estudo do nível de vida geral de uma população exige a análise de tão grande número de elementos que se torna difícil, ou quase impossível, apresentá-los todos de uma só vez. Por outro lado, os componentes particulares que entram na definição do nível geral de vida podem variar segundo os climas, as raças, as civilizações, etc.
(CIBPU,1958, p.211).
A terceira parte do estudo refere-se aos problemas do desenvolvimento da organização territorial. No segundo volume em que se encontra a terceira parte, o desenvolvimento é conceituado em termos muito cuidadosos, pois um mal-entendido sobre o assunto pode resultar em graves perturbações, em enormes desequilíbrios e, finalmente, em regressão (CIBPU, 1958).
O desenvolvimento é integral, quando as pessoas são causa e beneficiárias da produção ordenada. Como causas, as pessoas devem ser instruídas técnica e eticamente; como beneficiárias é necessário que se atente para todas as camadas sociais e não somente para as subpopulações privilegiadas. Dessa forma, o
desen-volvimento é um processo contínuo, harmonizado que procura corresponder às necessidades e satisfazê-las (CIBPU, 1958).
A investigação relativa à terceira parte concentrou-se em cinco pontos: a pesca nas lagoas e interiores e no mar; a melhoria da infraestrutura de comunicações, em que se destacam a rede rodoviária e ferroviária, além dos portos e a navegação interior;
a produção de energia, associando renda e consumo de energia, compara o consumo per capita de alguns países com o Brasil recorrendo à medida de tonelada equivalente de hulha. A seguir são construídos gráficos em que se associam consumo e renda nesses países. Nesse tópico, dá-se destaque ao programa de eletrificação, enfatizando o consumo per capita de energia do Paraná, correspondentes a 24 watts, uma medida que esconde os efeitos das variações regionais de povoamento.
O norte do Paraná já ligado, em parte, às redes elétricas paulistas, será beneficiado com o aproveitamento das barragens paulistas no Paranapanema, na medida em que o Paraná participe dos investimentos. É o caso, por exemplo, da central hidráulica de Salto Grande (rio Paranapanema) cujo funcionamento é previsto para 1.957... Além da interconexão prevista com o sistema do rio Paranapanema e que não assumirá seu pleno efeito em 1965, prevê-se a valorização do rio Capivari. Estudos mais avançados parecem reduzir as previsões primitivas, quanto à vazão d'água real. Talvez seja conveniente modificar os primeiros projetos que comportavam trabalhos de engenharia consideráveis... Apesar disso, o rio Capivari forneceria uma potência importante, que seria somada às realizações mais modestas (CIBPU, 1958, p.427).
O quarto ponto investigado é a industrialização e produção industrial. Nesse caso entra em cena a unificação do mercado, que inviabiliza o artesanato que se beneficiava do isolamento, e destaca a evolução industrial desses estados.
Nas conclusões e recomendações são enfatizados os fatores positivos e negativos do desenvolvimento, representados por grupos, representados por letras e índices numéricos, como os relativos à população (crescimento, migrações internas, imigração estrangeira), fatores relativos ao solo e à sua utilização, até o grupo H, que se refere aos fatores psicológicos e sociológicos, que incluem origens étnicas, particularismos, oposições e tensões (população costeira, população dos grandes planaltos e das zonas de pastagens), entre outros.
Segundo o estudo, o inventário dos fatores positivos e negativos do desenvolvimento
[...] permitem-nos perceber as potencialidades e as possibilidades dos três Estados do Sul do Brasil em relação às necessidades de sua população, particularmente ativa e de crescimento tão rápido. Potencialidades são capacidades em estado bruto. São bastante consideráveis nos três estados tomados em conjunto. As possibilidades são sempre inferiores às potencialidades, pois estas não podem ser, com efeito, desenvolvidas imediatamente. Uma série de fases é necessária para atingir o desenvolvimento. As possibilidades relacionam-se com as primeiras fases:
as de prazo médio, e as de curto prazo, de que deve resultar uma programação. Pertence ao 'político' precisar o plano e o programa para obter o máximo de resultados positivos e coerentes, no ritmo mais rápido e pelo custo menos elevado possível. Seu objetivo não pode ser senão a passagem de todas as camadas da população de um nível menos humano a um nível mais humano. As modalidades desta passagem devem, aliás, variar de camada social a camada social (CIBPU, 1958, p.545).
A partir daí foi possível construir uma matriz de deficiências e ameaças, sendo que o principal entrave ao desenvolvimento é de ordem educativa e cultural.
Segue-se lhe a insuficiência de equipamentos, causada em grande parte pela sede de ganho desordenado "desequilibrando os investimentos e, por conseqüência, a economia global" (CIBPU, 1958, p.547). O terceiro entrave é a insuficiência do poder aquisitivo das massas populares, que limita consideravelmente o mercado industrial e agrícola.
A ausência de diretrizes e de propostas de intervenção impede que se faça uma associação entre os princípios de "Economia e Humanismo" de um desenvolvimento harmonioso voltado à população como causa e objeto do planejamento. Grande parte do diagnóstico, exaustivo e descritivo, não permite que se construa também essa associação. A parte mais rica, ainda que muito convencional, é a identificação dos principais entraves e ameaças que contém de certa forma uma denúncia do estado da arte nesses estados.
Como o objetivo da análise era associar os resultados do estudo com os postulados de Economia e Humanismo, que expressa em larga medida a DSI, a inexistência de um rol de sugestões e de intervenções faz com que essa associação se restrinja ao destaque da ênfase no associativismo, da satisfação das necessidades sob a perspectiva de uma hierarquia até o nível da superação, como será vista também na discussão do Plano Paranaense de Desenvolvimento, e da abordagem integrada dos problemas conforme as várias expressões gráficas constantes nesse estudo.
3.4 PROPOSTAS E REALIZAÇÕES DA SAGMACS NO PARANÁ: O PLANO