O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) é um programa de transferência direta de renda do governo federal para as famílias de crianças e adolescentes
que sofrem algum tipo de exploração do trabalho infantil102. Esse repasse de renda é feito através de co-financiamento das três esferas de governo: federal, estadual e municipal.
O objetivo geral do PETI é combater toda e qualquer forma de exploração do trabalho que envolva crianças e adolescentes, na faixa etária dos 7 aos 15 anos, possibilitando sua saída destas atividades. Em substituição às atividades de trabalho, o PETI oferece uma bolsa de incentivo financeiro e exige que as famílias mantenham as crianças e adolescentes freqüentando a escola. No turno oposto ao da Escola, são oferecidas atividades de ação educativa complementar dentro de suas jornadas ampliadas. Essas atividades
[possibilitam] aos educandos a oportunidade de desenvolverem suas potencialidades, através das atividades Sócio-Educativas de Vivência que lhes possibilitem uma formação para o exercício da cidadania, proporcionando às famílias apoio e orientação por meio de ações socio- educativas e ofertando projetos de geração de trabalho e renda103.
Compreendendo-se as atividades das crianças e adolescentes que estão em situação de rua enquanto trabalho, estes se tornaram alvos inquestionáveis das ações do PETI, já que são priorizadas as situações de trabalho, consideradas degradantes, em que se encontram as crianças e adolescentes104.
102 Segundo o ECA (Artigo 60), “É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na
condição de aprendiz”. A emenda constitucional nº 20, de 16 de novembro de 1998, estabelece que somente os adolescentes entre 16 e 18 anos podem ingressar no mercado de trabalho, em atividades que não sejam perigosas, insalubres ou noturnas.
103 Texto extraído do relatório anual do PETI, referente ao ano de 2006.
104 Para o PETI, são consideradas degradantes as seguintes atividades de trabalho: “trabalhos em feiras,
trabalho ambulante, trabalho em lixões, trabalho como engraxate, trabalho como flanelinhas, distribuição e venda de jornais e revistas, venda de drogas, trabalho na agricultura, trabalho em pedreiras, trabalho em salinas, trabalho em olarias, trabalho em madeireiras, trabalho em tecelagem, trabalho na fabricação de farinha e outros cereais, trabalho na pesca, trabalho em carvoaria, entre outros” (Texto extraído do relatório anual do PETI, referente ao ano de 2006). O coordenador ainda acrescenta a mendicância e a venda de drogas enquanto trabalhos reconhecidos pelo PETI.
Atualmente, o PETI de Vitória da Conquista funciona com 40 núcleos, subdivididos em 100 jornadas ampliadas. Os 40 núcleos funcionam em espaços físicos alugados (unidades alugadas, espaços de igrejas, associações, escolas etc), atendendo, em média, a 2800 crianças e adolescentes. Sua meta é atender a 3034 no ano de 2008. Segundo o Coordenador do PETI, o ingresso das crianças no Programa respeita um cadastro do Programa Bolsa-Família (CadÚnico), “porque lá já é feita visita e já tem todo perfil de cada família, aquela que sofreu algum tipo de exploração sexual, aquela que sofre exploração do trabalho” 105.
No que se refere às crianças e adolescentes em situação de rua, suas atividades são reconhecidas pelo PETI enquanto trabalho. Conforme o coordenador, com “A ida do filho para rua, para mendigar, para poder conseguir recursos, muitas vezes, a família não tem uma outra opção a não ser essa”, e isso se configura como trabalho. Afirma ainda que a ida das crianças e adolescentes para a rua se dá, muitas vezes, por exploração da família, tendo em vista a facilidade que eles têm em ganhar dinheiro. “Porque para sociedade é muito mais sensível quando chega uma criança pedindo do que um adulto forte”.
Ainda, segundo o coordenador, muito recai sobre os ombros da família:
[...] o que a gente tem como concepção é o entendimento de deixar claro para as famílias que, independente da sua condição social, a obrigatoriedade da responsabilidade pela criança e pelo adolescente é do pai e da mãe. Se não há condicionalidade para que eles possam estar desenvolvendo esse atendimento, aí entram os programas, [...] para que possa amenizar a situação de pobreza.
105 Dados obtidos em entrevista realizada com o coordenador do PETI em Vitória da Conquista, no dia 10 de
Essa afirmação apenas contribui com o pensamento de Oliveira (2003) e situa o PETI como uma política de “manutenção da pobreza”, ou de “amenização da pobreza”. Complementa também o pensamento de Melo (2005:12), quando ela, em seu artigo sobre “Gênero e Pobreza no Brasil”, assevera que um dos desafios “das políticas públicas anti- pobreza é o de [...] impedir que as pessoas morram de fome”.
Para o Coordenador do PETI, o governo municipal tem se preocupado em atender às crianças e adolescentes em situação de rua, quando prioriza o atendimento às famílias. O trabalho está focalizado na prevenção
[...] é por isso que hoje o município desenvolve uma série de ações buscando ofertar a essas famílias, e o PETI vem fazendo isso, [...] formação nas áreas de pintura, de artesanato, de crochê, de macramé, fabricação de sabão, para possibilitar às famílias uma oportunidade, para que elas possam também angariar recursos. Aí a pergunta é: “Isso resolve?” A gente ainda não mediu, mas eu tenho certeza que ajuda.
Nota-se que tal ação configura-se como um trabalho de prevenção e não de erradicação, no que se refere aos que estão em situação de rua.
Tais informações, quando somadas às anteriores, apenas reforçam a teoria de que não existe uma política pública de qualidade, direcionada às crianças e adolescentes em situação de rua no município de Vitória da Conquista. No entanto, enquanto gestor público, o coordenador afirma que tal política existe “ela é muito bem clara, até, por exemplo, a estrutura que existe hoje foi criada em função dessa política”. Para corroborar sua afirmação, cita o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que agrega todos os benefícios sociais, como principal referência de desta política, mesmo que os dados demonstrem a inexistência de resultados positivos.
Pode-se afirmar que o governo instrumentaliza as famílias, possibilitando-lhes condições de sobrevivência, mas não as retira dos “territórios de pobreza”.
[...] porque hoje a família ela passa a ter dignidade no sentido de ela ter seu próprio cartão, ter uma data definida, não precisa estar pegando fila, aguardar se o município vai ou não fazer o pagamento. Naquele mês, o dinheiro já cai na conta dela de forma direta (Coordenador do PETI).
Talvez as razões do insucesso no atendimento às crianças e adolescentes em situação de rua residam nesse modo de pensar a política pública municipal.
O coordenador enumera dois motivos para o não-atendimento às crianças e adolescentes em situação de rua pelo PETI: 1) para serem atendidos, precisam estar cadastrados no CadÚnico; 2) precisam de um atendimento que envolve uma estrutura diferenciada da que o PETI disponibiliza. Quando o PETI verifica que uma das crianças ou adolescentes está em situação de rua, é realizada a seguinte ação:
[...] Nesses casos, a gente tem encaminhado todos pro Programa
Conquista Criança, porque lá ele passa a ter um acompanhamento; no
turno oposto, ele vai para a escola e, no terceiro turno, [quando não há possibilidade de retorno à família], ele vai para a Casa de Acolhimento.
Importa ressaltar que o Programa Conquista Criança não dispõe de condições para atender a este público. Assim, conclui-se que as crianças e adolescentes em situação de rua permanecem sem atendimento.