aquisição de novos imóveis para a produção habitacional
LOGIA POR M2 POR UH
5.5. O programa Morar no Centro
Nos anos 80 e 90, a região central da cidade de São Paulo sofreu uma significativa perda de população e de atividade econômica. Entre 1980 e 2000, perdeu 30,35% de sua população, enquanto que a população da cidade, como um todo, crescia 22,52% e a população de alguns distritos mais periféricos e com infra- estrutura urbana muito precária crescia muito mais, como a de Cidade Tiradentes, que cresceu 2114,98%, Parelheiros, 2231,21%, e Anhangüera, 619,66% (AMARAL, 2002, p. 86).
No aspecto da perda de atividade econômica, verificou-se a transferência de muitas empresas para novos pólos de negócios (avenidas Paulista, Faria Lima, Luiz Carlos Berrini). Em 1996, conforme pesquisa citada por SILVA (2001, p. 7), 14,89% dos escritórios estavam vazios e 28 prédios comerciais estavam completamente desocupados e, em 2000, havia 25.000 unidades vazias, segundo Censo do IBGE (apud. SOMECK, in GASPAR, AKERMAN e GARIBE, 2006, p. 267). No entanto, a região central continuou ainda concentrando a maior oferta de empregos da cidade, pois nela existiam 1,99 empregos/morador, contra 0,47 em todo o município de São Paulo e 0,42 em toda a Região Metropolitana. E sendo destino da maioria das viagens diárias registradas na cidade, 19,61 milhões por dia, sendo que a “segunda região em destino de viagens, a sudeste, alcança a cifra de 4,1 milhões de viagens produzidas” (AMARAL, 2002, p. 90 e p. 83).
Um reflexo do esvaziamento da população residente é o número de domicílios vagos que, no centro, é 17,5% do total, sendo que na cidade de São Paulo é de 11,8% (SILVA, 2001, p. 8).
Paradoxalmente, no centro, são numerosas as moradias precárias, sobretudo cortiços, e no início de 2001, existiam também 3 núcleos de favelas. Em 2004, uma delas, a do Gato, teve seus moradores transferidos para o conjunto residencial homônimo e foi demolida. O Plano Municipal de Habitação adotou dados que indicam a existência de 14.617 domicílios e 38.512 habitantes em cortiços.
A enorme precariedade da vida nos cortiços, abordada por KOHARA (1999), CARICARI e KOHARA (2006), BRANDÃO (2003), ao lado do grande número
de imóveis vazios estimulou o surgimento e o fortalecimento de movimentos populares que reivindicavam moradia no centro, muitas vezes lançando mão da ocupação de prédios.
Por outro lado, o esvaziamento do centro provocou uma reação de entidades empresariais que formaram a Associação Viva o Centro. E a preocupação em garantir habitação social na área central motivou uma articulação de setores populares e técnicos que fundou o Fórum Centro Vivo, e iniciativas dos meios
acadêmicos visando discutir propostas para a região, como foi o “Seminário:
Habitação no Centro de São Paulo: Como Viabilizar Essa Idéia?”, promovido pelo LABHAB, da FAUUSP, em 2000. A essas ações se somaram o início dos trabalhos
do PAC/CDHU74 e do PAR/CEF75, visando promover empreendimentos de HIS no
centro.
Esse conjunto de atores contribuiu para que, no programa de governo da candidata a prefeita Marta Suplicy, elaborado no Instituto Florestan Fernandes, fosse incluída uma proposta de desenvolvimento de um programa de moradia social nas áreas centrais e no anel intermediário, denominado Morar Perto. Esse programa previa:
“[...] requalificação de setores ou imóveis em áreas consolidadas, dotadas de satisfatória infra-estrutura, serviços e equipamentos urbanos, a fim de viabilizar a permanência de habitação para a população de baixa renda nessas áreas. Além disso, o programa inclui também, a construção de conjuntos verticais em terrenos vazios ou através de adaptação e renovação dos edifícios com potencial a um melhor aproveitamento.
Busca-se a reaabilitação dos edifícios recuperando-os ou mesmo dotando-os de padrões satisfatórios de habitabilidade e segurança, tendo como conseqüência a necessária revisão da legislação vigente para a elaboração de novas estratégias de intervenção [...].”
74
Programa de Ação em Cortiços, da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo.
75
Programa de Arrendamento Residencial, da Caixa Econômica Federal.
E era justificado da seguinte maneira:
“As intervenções públicas no campo da moradia têm reforçado a tendência de crescimento territorial da cidade, focando suas intervenções nas áreas periféricas da cidade, em conjuntos, via de regra, precários. O custo da terra é a principal causa deste modelo, característico das décadas de 70 e 80, que deixava de considerar a falta de infra-estrutura e os custos de deslocamento, em grande parte internalizados pela população moradora (gastando ou sofrendo). O resultado deste tipo de intervenção foi a extensão inviável da cidade, a produção de padrões de segregação social no espaço onde a população de baixa renda ficou à margem da “cidade“, sem acesso aos seus benefícios. De maneira indireta, esse modelo acabou resultando na crescente formação de guetos e no aumento da violência nos bairros.
Paradoxalmente, há um crescente abandono de imóveis e terrenos ociosos em suas áreas consolidadas com boa infra-estrutura urbana. Em geral, estes setores apresentam ótima acessibilidade e equipamentos públicos, além de serviço e comércio variados, não só nos bairros centrais como também, nos centros regionais.
A moradia nas áreas centrais tem sido a mais antiga forma de opção para a população de baixa renda. Mesmo contando com edifícios insalubres e com altas densidades, esse tipo de habitação coletiva, permite ter rápido e fácil acesso ao local de trabalho e um melhor atendimento pelos equipamentos e serviços públicos, que são em geral de melhor qualidade.”
Dentre as várias formas de intervenção que relacionava, previa a constituição de um parque de locação social, a assistência técnica e jurídica a grupos de famílias para viabilizar o acesso a financiamentos do FMH ou de outras fontes, e para a execução da reforma de prédios, e também a:
“criação e viabilização de mecanismos de participação da população envolvida em encontros, seminários e reuniões para a troca e exposição das experiências e para a discussão de conceitos que envolvam o meio ambiente urbano e o convívio em condomínios e vizinhança (deveres e limites).”
Cogitava como principais fontes de recursos: o PAR-CEF, o PAC-CDHU, operações urbanas e, evidentemente, o FMH.
A partir de 2001, o Morar Perto teve seu nome mudado para Morar no
Centro, o que refletiu uma priorização das intervenções na área mais central. Mas
foram mantidos os objetivos gerais que havia recebido no Instituto Florestan Fernandes, como um programa de habitação social que visava o atendimento de famílias de baixa renda em empreendimentos a serem implantados no centro e no centro expandido. E visava, também, contribuir para a recuperação de prédios e áreas deterioradas e para o “repovoamento” dessas áreas. Com o tempo, a esses objetivos iniciais foram agregados outros e melhor explicitados alguns que estavam subentendidos, tais como: buscar a diversidade social nos bairros centrais, conter o o processo de gentrificação. Ou seja, ficou mais clara a preocupação de que se deveria buscar evitar a “expulsão da população mais pobre, que muitas vezes resulta das políticas de reabilitação de áreas centrais”, mas também “atrair segmento do mercado de média renda para residir no centro” (COHAB, Slides da “Apresentação aos Funcionários”, 2004). Aparentemente contraditória, a idéia era de que, no centro, era desejável e havia potencial para se abrigar segmentos de baixa e média renda.
Ao longo da gestão, o Morar no Centro foi tomando um caráter de grande articulador das várias iniciativas, tanto do setor privado, quanto dos governos municipal e federal, e de coordenador das ações de vários setores da SEHAB, da COHAB e de outras secretarias municipais. Iniciativas e ações essas, evidentemente, relacionadas à habitação e à requalificação urbanística da área central e que envolveram: