Parte I – Enquadramento teórico e conceptual
3. As pessoas que entram no ensino superior: breve enquadramento
3.3. A relação da FEG com os seus alunos
3.3.2. Práticas de apoio aos alunos
3.3.2.1. O Programa Professor-Tutor
O Programa Professor-Tutor (PPT) surge no ano letivo de 2002/03, com dois objetivos principais:
1. Prevenir o insucesso escolar;
2. Facilitar o acesso dos estudantes aos serviços prestados pela FEG;
3. Enfatizar perante o exterior a existência do programa como uma mais-valia da FEG em relação a outras faculdades da concorrência.
Teve como alunos-alvo os novos alunos admitidos nas licenciaturas de Economia e Gestão e alunos do 1º ano com falta de aproveitamento. Os professores tutores foram os docentes da FEG em dedicação plena e estavam ligados entre si e à direção e à secretaria da FEG através de um coordenador, também ele professor da instituição.
Sendo um programa facultativo para os alunos (apesar de estarem todos distribuídos por algum tutor), em que estes podiam facilmente desvincular-se não comparecendo
às reuniões com o tutor, foi visível o decréscimo de comparência dos alunos da primeira reunião para as últimas. Considera-se que, apesar das explicações fornecidas aquando da apresentação do programa, parte dos alunos não entendeu muito bem a utilidade do programa ou tinham dele uma imagem maternalista ou paternalista à qual não queriam aderir. Geralmente, foram os alunos com maior sucesso escolar os que mais compareceram às reuniões. Houve alunos que apresentaram solicitações pedagógicas sobre matérias de disciplinas, outros alunos solicitaram apoio psicológico aos respetivos tutores. Foram encaminhados, quando possível, para os serviços adequados.
Nos anos seguintes, o programa foi objeto de regulamentação capaz de normalizar procedimentos e tornar o programa mais atrativo para os potenciais tutorados. Assim, nas apresentações seguintes, a mensagem transmitida foi que o seu tutor seria um professor que acompanharia e aconselharia o aluno ao longo de todo o ano letivo, com o objetivo de facilitar a sua integração na vida escolar e académica, perseguindo como objetivo prioritário o sucesso escolar do aluno, através do desenvolvimento das suas competências académicas formais e transversais. O ano letivo 2006/07 correspondeu a um período de transição, em que se delineou um reajustamento nos princípios orientadores do programa, nomeadamente na ênfase dada ao caráter voluntário do programa para os alunos, em que deixam de estar inscritos por defeito e passam a inscrever-se caso manifestem interesse no programa. Os princípios orientadores do programa que regem a atuação dos tutores são claramente explicitados:30
(1) Ao nível dos objetivos e resultados:
(i) Desenvolvimento das competências académicas dos estudantes orientadas para o seu sucesso académico e profissional;
(ii) Acompanhamento do percurso académico do aluno que facilite o levantamento de obstáculos ao seu bom desempenho académico, a deteção de situações críticas ou de risco de insucesso, o aconselhamento do plano de estudos para o semestre subsequente, o esclarecimento de questões gerais associadas às licenciaturas e o reencaminhamento dos estudantes para os respetivos Serviços da Escola de acordo com as solicitações;
(iii) Acompanhamento do percurso académico do aluno que possibilite a identificação de oportunidades favoráveis ao desenvolvimento de competências transversais definidas no âmbito do Projeto PIC, e incentive o seu desenvolvimento.
(2) Ao nível do processo:
(i) Os estudantes são assumidos como indivíduos adultos e responsáveis, logo com direito à confidencialidade das informações prestadas ao programa perante terceiros exteriores à Universidade;
(ii) Os interlocutores dos tutores são unicamente o coordenador do programa e os estudantes, processando-se os contactos, preferencialmente, de forma individual;
(iii) O número mínimo de reuniões será de quatro;
(iv) Os resultados das reuniões de tutoria terão que ser comunicados pelos tutores à coordenação do programa até uma semana após a sua realização através da respetiva Ficha de Reunião;
(v) Em caso de não comparência às reuniões, deverão existir, por parte do tutor, novas tentativas de contacto com o estudante. Caso persista a falta de comparência do estudante (2 vezes consecutivas), esta deverá ser comunicada à coordenação do programa em tempo útil.
O tutor, no acompanhamento do aluno, tem como objetivo determinar e possibilitar a eliminação de obstáculos ao seu bom desempenho académico (tabela 2); deve tentar perceber as razões que estão por trás da abstenção, do insucesso escolar ou de outros indicadores de fracasso, para detetar com a maior antecedência possível situações críticas ou de risco de insucesso.
Por outro lado, é também objetivo do tutor incentivar o aluno a desenvolver as competências transversais que visem o seu sucesso profissional (tabela 2). Essas competências, a par do seu desempenho individual às diversas disciplinas do plano curricular, abrangem também as competências definidas no âmbito do Projeto PIC (Portfolio Individual de Competências).
Obstáculos ao desenvolvimento académico do aluno
Oportunidades de desenvolvimento de competências transversais no aluno
Abstenção Desmotivação
Hábitos e métodos de trabalho Empenho Responsabilidade Autonomia Trabalho em equipa Persistência Integração social Relacionamento interpessoal Assertividade Tomada de iniciativa Criatividade Abertura à mudança Pensamento sistémico Capacidade de organização Atividades extracurriculares
Tabela 2 – Identificação de obstáculos ao desenvolvimento académico do aluno e de oportunidades de desenvolvimento de competências transversais no aluno. Adaptado da Ficha de Reunião professor-tutor/aluno de 2007/08.
Os professores-tutores são agora recrutados entre uma bolsa de voluntários. No ano letivo 2007/08, o Programa Professor-Tutor abrangeu os estudantes que frequentavam o curso pela primeira vez e que aderiram ao programa voluntariamente. Em cada reunião, deveria ser possível identificar um ou vários parâmetros considerados condicionadores do desenvolvimento académico e do desenvolvimento de competências transversais no aluno.
No final do ano letivo, foi feita a avaliação do programa através de respostas a inquéritos distribuídos aos professores-tutores e aos estudantes. Tanto uns como outros identificaram um conjunto de aspetos positivos e um conjunto de fragilidades, e apresentaram sugestões para o aperfeiçoamento do programa. A perceção dos tutores foi que os estudantes que realmente necessitam de apoio para combate ao insucesso escolar acabam por se desligar do programa e não aproveitam os restantes serviços proporcionados pela Universidade. Os tutores constataram que estes estudantes se desmotivam facilmente por não conseguirem perceber as matérias lecionadas e, portanto, não conseguem ter sucesso nas atividades curriculares. A par do maior ou menor grau de dificuldade de determinados conteúdos, onde o professor deve centrar a sua atividade, estes estudantes não estudam e nas aulas manifestam algum comodismo e até incómodo em pensar, quando são solicitados a acompanhar o desenvolvimento de qualquer problema ou questão. Permaneceram no programa os estudantes motivados e empenhados, que procuraram apoio e informação nos tutores quanto a outros aspetos relacionados com o seu percurso académico, como Programa Erasmus, estágios de verão, cursos de línguas, e outros.31
Quanto aos alunos que participaram no programa, consideraram que o tutor se mostrou sempre disponível, um meio de auxílio em várias situações e que os princípios orientadores foram cumpridos; por outro lado, consideraram as reuniões pouco motivadoras e uma pequena percentagem esperava mais do programa. A
totalidade dos alunos considerou que o desenvolvimento das suas competências transversais foi pouco relevante32.
A partir de 2008/09, a FEG passou a oferecer aos seus alunos a possibilidade de
coaching individual e de grupo, o que ditou a extinção do PPT e, mais tarde, a sua
substituição pelo programa Startegic Leadership Hub (SLH).