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Capítulo 3 – O conceito de civilização no contexto do imperialismo

3.3. O progresso, os olhos do império e o silenciamento

A noção de temporalidade de Koselleck é uma das mais fortes contribuições para a teoria da história. Ele foi um grande estudioso dos conceitos de revolução e crise, trabalhados em outro livro.

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Na obra A era das revoluções: 1789-1848, o historiador Eric Hobsbawm afirma que a Revolução Industrial, na Inglaterra, e a Revolução Francesa podem ser vistas como uma “dupla revolução” que alterou profundamente o curso da história. Entretanto, apesar de reservar mais de 300 páginas para falar da era das revoluções, há apenas duas breves menções sobre a Revolução do Haiti, uma das quais observando a influência da Revolução Francesa no mundo. Como um dos historiadores mais conceituados do século XX, isso parece indicar e corroborar a tese de Trouillot de ser essa revolução um não-evento, algo impensável.

Para Koselleck, os conceitos de revolução e progresso sofreram uma fundamental modificação em suas cargas semânticas a partir de processos históricos concretos, eminentemente no século XVIII europeu.

Revolução era um termo advindo das ciências astronômicas, e era usado para indicar o movimento de um astro celeste quando dava a volta sobre si mesmo, ou seja, sai de um ponto inicial para retornar ao mesmo ponto. Exprimia, portanto, uma significação oposta ao que entendemos hoje por revolução. Foi com a Revolução Francesa que esse conceito passou a indicar uma ruptura com o passado, um salto para o futuro, passando a se referir a processos políticos e sociais também.

Já a noção de progresso pode ser vista no bojo do desenvolvimento da Revolução Industrial – mas também da Revolução Científica.

Os dois conceitos contribuíram para uma aceleração do tempo à medida que comprimiram os campos de experiências e alargaram os horizontes de expectativas. A revolução quebrava os vínculos com a tradição, e o progresso estava voltado para o futuro.

Paolo Rossi (2000), ao investigar as origens da ideia de progresso, recupera alguns testemunhos da Idade Moderna. Ele diz que Descartes, ao terminar seus estudos, desabafou:

“Encontrei-me enredado em tantas dúvidas e erros que me parecia não ter tirado outro proveito a não ser este: ter descoberto cada vez mais a minha ignorância. No entanto eu me encontrava numa das mais célebres escolas da Europa, devendo considerar que se em algum lugar do mundo existiam homens doutos, era ali que eles estavam.” (Apud ROSSI, 2000: 53)

Trazemos esse excerto por um motivo bem diferente de Rossi, que o interpreta e o relaciona com a noção de tempo, observando como alguns pensadores viam a própria época como insuficiente, limitada e atrasada, e assim voltando os olhos e pensamentos para o futuro. Para nós, nos interessa extrair as ideias de Descartes sobre uma ideia de Europa, e uma ideia já marcada pela estima (ou estigma?) da superioridade. Apesar de seu profundo desapontamento com a filosofia de sua época, era ali, na Europa, que deveria se encontrar o que havia de melhor no mundo.

Em seu livro, Rossi vai dizer que a imagem de uma ciência moderna implica na convicção de que o saber científico evolui e, portanto, está sempre incompleto.

Corroborando com as ideias de Koselleck, Rossi afirma que “as crises e as revoluções são interpretadas como sinais de possibilidades novas. A história parecia submetida a imprevistos movimentos de aceleração.” (ROSSI, 2000: 60) E mais:

O apelo ao futuro, ao que os homens poderão realizar se tiverem a coragem de tentar caminhos antes não tentados, é um motivo central da filosofia do século XVII. A ele corresponde a afirmação da limitação da civilização dos antigos, o sentimento de que se pode e se deve livrar-se do peso da tradição, a convicção de que não existem modelos estáveis aos quais referir-se para resolver os problemas do presente. [...]

O lento acumular-se da experiência é a fonte e a garantia do progresso do gênero humano. Com base numa nova imagem da ciência como construção progressiva – uma realidade nunca finita mas cada vez mais perfectível – foi formando-se também um modo novo de considerar a história humana. Esta podia agora aparecer como o resultado do esforço de muitas gerações, cada uma delas utilizando os trabalhos das gerações anteriores, como o lento acumular-se de experiências sucessivamente perfectíveis. (ROSSI, 2000: 63 e 73)

Essa noção de progresso aos poucos invadiria também a noção de história. A humanidade também evoluía, pois. E era possível prever e controlar seus caminhos. O mundo natural não se desvinculava do mundo humano.

Para perceber os elementos de novidade que estão presentes nas ideias sobre o progresso que operam na cultura do século XVII, creio que seja oportuno sublinhar [...]. Trata-se do abandono do mito de uma áurea e originária sapiência perdida nas trevas do passado. [...] [Essa recusa] é realizada em nome de uma ideia da história como evolução, como lenta e gradual passagem da rusticidade de uma primitiva barbárie para as “ordens civis” e a vida social. Historicidade e temporalidade parecem categorias essenciais tanto para a interpretação do mundo humano como para a compreensão do mundo natural. (ROSSI, 2000: 79)

Rossi mostra como a ideia do desenvolvimento do gênero humano se conformou às noções que já discutimos de civilização.

Nesse sentido, resgatamos que a noção de revolução também é uma noção civilizacional, que acelera o tempo e encurta o caminhar da civilização para a sua perfectibilidade.

Fazemos, aqui, uma transição um tanto ousada e afirmamos que a própria ideia de revolução está vinculada à ideia de civilização. Revolução é algo que homens civilizados fazem, não importa a barbárie impetrada no processo. Faz parte de um movimento histórico de planejamento, de alteração dos rumos do tempo, de uma nova ideia para o futuro nunca antes pensada e realizada.

Michel-Rolph Trouillot (1995) revisita a fortuna da Revolução do Haiti e do seu silenciamento, tanto coetâneo quanto historiográfico. Para tal, ele desvela os paradoxos do século XVIII, os paradoxos do Iluminismo, que celebrou os direitos do homem, com a Revolução Francesa, e a igualdade dos homens, com o liberalismo, mas, por outro lado, aprofundou as instituições de dominação colonial e viu emergir o racismo moderno.

É importante, para adentrar na linha de raciocínio de Trouillot, não deixar passar em branco o título de seu livro e o capítulo específico que analisamos. O título, Silencing the past: Power and the production of History (Silenciando o passado: poder e a produção da História) já revela a preocupação de Trouillot, eminentemente epistemológica e historiográfica, e sua intenção, de tirar do silenciamento e, principalmente, explicar por qual motivo um determinado passado foi silenciado. O capítulo a que nos referimos chama-se An Unthinkable History: The Haitian Revolution as a Non-event (Uma história impensável: a Revolução Haitiana como um não-evento). Ele toma o termo impensável da obra de Pierre Bourdieu, que cunhou a expressão para se referir àquilo que está fora do horizonte de expectativas de alguém por causa de suas limitações em capital, seja cultural, social ou econômico45.

O silenciamento de uma revolução de negros escravizados foi duplo, e justificou-se por causa de duas visões de mundo forjadas a partir do século XVIII – Trouillot, entretanto, volta à Renascença para resgatar a visão de homem.

O impensável para os homens que viveram o final do século XVIII pode ser expresso nas falas do colonizador francês La Barre, que dizia que “não havia movimento entre os negros”, que eles “não tinham nada a temer por parte dos negros. Eles são tranquilos e obedientes”, e que a “liberdade para os negros é uma utopia”. (Apud TROUILLOT, 1995: 72) Sobre essas palavras, Trouillot notou o seguinte:

O historiador Roger Dorsinville, que citou essas palavras, observou que alguns meses antes que a insurreição de escravos mais importante registrada na história reduziu à insignificância tais argumentos abstratos sobre a obediência dos negros. Mas eu não tenho tanta certeza. Quando a realidade não coincide com crenças extremamente arraigadas, os seres humanos tem a

45 Bourdieu também usa a expressão “auto-eliminação” quando se refere ao impensável. Um exemplo é

aquele aluno, desprovido de capital social e cultural, que na escola não pensa – até mesmo porque está fora da ordem de conhecimento de seu mundo – em entrar em uma universidade; tal horizonte está tão distante que faz parte de um mundo desconhecido, e daí o termo eliminação, pois ele não chega nem a concorrer a uma vaga.

tendência de formular interpretações que forçam a realidade a se adequar ao escopo dessas crenças. Eles inventam fórmulas para reprimir o impensável e trazê-lo para o reino de um discurso aceitável.46 (TROUILLOT, 1995: 72) Trouillot afirma que a Revolução do Haiti passou por duas “fórmulas de silenciamento”: a primeira envolvia um processo de supressão da revolução por meio da omissão dos arquivos, e a segunda uma tentativa de trivializar o evento ignorando seus radicalidade e singularidade. No primeiro, ele dá como exemplo o historiador Eric Hobsbawm e outros historiadores franceses que minimizaram a perda do Haiti, que na época era a colônia mais rentável. No segundo, ele critica os estudiosos da revolução ao procurarem sempre fatores externos que pudessem explicá-la, não reconhecendo o processo histórico interno liderado pelos escravos.