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O Projeto Constitucional de Felicidade 174.

No documento Saul Tourinho Leal.pdf (páginas 175-181)

8. A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL E A FELICIDADE

8.3 O Projeto Constitucional de Felicidade 174.

Falar de felicidade como bem jurídico constitucionalmente protegido não é novidade. Noções da felicidade dos povos “são noções que fazem parte do vocabulário jurídico corrente dos juristas e dos diplomatas do século XVIII quando falam das regras de conduta que devem guiar os Estados”372. A consulta aos registros históricos inerentes ao processo de independência do Brasil mostra que a felicidade foi elemento central de todos os debates, mostrando a influência que as ideias iluministas tiveram por aqui.

Em 24 de dezembro de 1821, a junta provisória da província lançou um manifesto endereçado a D. Pedro, em razão da determinação de seu pai, Dom João VI, de que o príncipe regente retornasse a Portugal. Redigido por José Bonifácio, dizia: “(...) estão todos prontos a verter a último pingo de seu sangue, a sacrificar todos os seus haveres para não perderem um príncipe idolatrado, em quem têm posto todas as esperanças bem-fundadas da sua felicidade e da sua honra nacional”373.

371 RODRIGUES, José Honório. Independência: revolução e contra-revolução. Rio de Janeiro: F.Alves,

1975, p. 03.

372 JOUANNET, Emmanuelle. Le droit international libéral-providence: Une histoire du droit

international, Bruylant, 2011, (Collection de droit international, n°69). O trecho transcrito consta no capítulo V, intitulado “La finalité providentialiste du droit des gens moderne: Bonheur des peuples et perfectionnement des États”.

373 Junta Provisória do Governo de São Paulo, Carta a D. Pedro hipotecando fidelidade e protestanto

contra seu regresso a Portugal, 24 de dezembro de 1821, Acervo do Museu Imperial de Petrópolis.GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco

Em 9 de janeiro de 1822, quando o Príncipe, aceitando a solicitação do Senado da Câmara do Rio de Janeiro, decidiu desobedecer às ordens de Lisboa e permanecer no Brasil, foi saudado com gritos de “Viva a Religião”, “Viva a Constituição” e “Viva El Rei Constitucional”. A frase que se ouviu dele foi: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação..., diga ao povo que fico!” As expressões “Viva El Rei Constitucional” – que também foram ouvidas na Revolução Francesa – mostram a transição de um regime imperial absolutista para uma monarquia constitucional.

As exortações à felicidade persistiram ao longo de todo o ano de 1822. Em 21 de maio, noticiando ao pai a convocação das Cortes Brasileiras, o Príncipe afirmou: “Sem Cortes, o Brasil não pode ser feliz”. Escreveu ele que um Príncipe deve trabalhar mais do que ninguém pela felicidade da Pátria; “porque os príncipes são os que mais gozam da felicidade da Nação e é por isso que eles devem esforçar-se por bem merecer a riqueza que consomem, e as homenagens que recebem dos outros cidadãos”374.

Em 3 de junho, o Príncipe expediu um Decreto convocando uma Assembléia Geral Constituinte e Legislativa, composta de deputados das províncias. Ele registrou que tomara tal decisão por não “ver outro modo de assegurar a felicidade deste Reino”.

A Assembleia Constituinte foi aberta por José Bonifácio que, defendendo o Imperador, pediu uma Constituição que nos desse “aquela liberdade que fez a felicidade do Estado e não a liberdade que dura momentos e que é sempre causa e fim de terríveis desordens”. Bonifácio arrematou: “Deixai-o sair do caos de instituições contraditórias que fazem de sua prudência hipocrisia, de sua felicidade, obra do acaso e do crime, e vereis que o homem é mas bom que mau”375. Na mesma Assembleia Constituinte, o Visconde de Porto Seguro discursou e registrou o seguinte:

O Brasil no meio de nações independentes e que lhe falam com o exemplo da felicidade, exemplo irresistível porque tem por si o brado da natureza, não pode conservar-se colonialmente sujeito a uma nação remota e pequena, sem forças para defendê-lo e ainda menos para conquistá-lo376.

Não podemos subestimar a influência que o pensamento de José Bonifácio tinha sobre o Imperador. Da mesma forma, o relevo que as confrarias secretas, como a por donheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 154.

374 LIMA, Oliveira. O movimento da Independência. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, pp. 311 e

386.

375 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República:momentos decisivos – 9ª Ed – São Paulo:

Editora UNESP, 2010, p. 86.

maçonaria, tinham. Bonifácio prestou juramento e tomou posse como grão-mestre do

Grande Oriente do Brasil, em 19 de julho de 1822. Ao fazê-lo, registrou: “(...) Hoje eu falo ao meu Brasil, que o meu Príncipe, a que a minha Nação necessitam, para futura felicidade, da reunião e centralização de todos os esforços dos honrados Portugueses que habitam esse fértil e grandioso País”. No mesmo dia, D. Pedro, sob o pseudônimo O

inimigo dos marotos, publicou artigo no jornal O Espelho, defendendo o Apostolado das críticas que o redator do Correio do Rio de Janeiro, João Soares Lisboa, havia dirigido àquela sociedade no número 75 de seu jornal. O Imperador escreveu:

A sociedade é muito liberal e é firmada sobre a vontade geral do Brasil, e dos honrados Europeus que segue a nossa causa (não se entendem o – nossa – com o Sr.) e que desejam este Reino feliz e independente, e de não serem escravos de Lusos- espanhóis, quais os seus parentes Deputados, pés de chumbo377.

Quando D. Pedro esteve na fundação do Apostolado da Nobre Ordem dos

Cavaleiros de Santa Cruz, tendo sido eleito “arconte-rei”, jurou promover com todas as forças e a custa da própria vida “a integridade, independência e felicidade do Brasil como reino constitucional”378. A felicidade aparece ao lado da integridade e da independência, além de estar ínsita ao projeto constitucional que se desenhava.

Felicidade do Brasil como Império Constitucional mostrava uma tentativa, mesmo errante, de atravessar a era da monarquia absoluta para uma monarquia limitada por alguns princípios constitucionais fundantes, intenção esta, como veremos, frustrada pela Carta Imperial de 1824, que manteve o Imperador como alheio a qualquer forma de responsabilização, sendo reputado “inviolável”.

Na primeira semana de agosto de 1822, D. Pedro lançou um manifesto aos brasileiros. Redigido pelo maçom Gonçalves Ledo, o texto afirmava: “Habitantes deste vasto e poderoso Império – está dado o grande passo para vossa independência e felicidade (...) já sois um povo soberano”379.

377 COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República:momentos decisivos – 9ª Ed – São Paulo:

Editora UNESP, 2010, pp. 360-361.

378 GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por

donheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 238. Também em Octavio Trquínio de Sousa, Fatos e personagens em torno de um regime, p. 256.

379 GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por

donheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 95. Também em Tobias Monteiro, História do Império: a elaboração da Independência, vol 2, p. 496.

Em setembro, as ações do Estado visavam assegurar a felicidade “do Reino”. A expressão remete aos integrantes do novo país e não exatamente ao Rei. Importante perceber que o Brasil fez sua aliança com a felicidade enquanto objetivo primeiro do Estado praticamente no mesmo período em que fizera os Estados Unidos, com a sua Declaração de Independência e a França, com a sua Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão. Todas esses movimentos emancipacionistas marchavam unidos na busca pela concretização desse ideal maior.

O Correio do Rio de Janeiro publicou, em 19 de outubro de 1822, o pensamento de Dom Pedro: “O Brasil pretende e deve ser livre para ser feliz e se os povos manifestarem geral desejo de serem republicanos não acharão em mim oposição”380.

A felicidade também serviu, no Brasil pré-independência, para justificar as práticas morais da época. Para Pedro Américo, pintor dos quadros A Batalha do Avaí e

Independência ou Morte, além de deputado pela Paraíba:

A missão da mulher é mais doméstica do que pública, mais moral do que política. Demais, a mulher, não direi ideal e perfeita, mas simplesmente normal e típica, não é a que vai ao foro nem à praça pública, nem às assembléias políticas defender os interesses da coletividade; mas que a que fica no lar doméstico, exercendo as virtudes feminis, base da tranquilidade da família e, por consequência, da felicidade social381.

Como se vê, a felicidade, tanto quanto a liberdade e igualdade atualmente, servia de justificativa argumentativa para práticas morais ou costumes enraizados na sociedade. Pedro Américo afirmou que a manutenção da mulher em esferas da vida distantes da política seria responsável por manter a “felicidade social”, visão condizente com a moral praticada à época, mas, atualmente, destituída de qualquer sentido. Essa mutação conceitual da expressão felicidade faz lembrar dos ensinamentos de John Dewey, para quem:

Mesmo quando as palavras continuam as mesmas, elas significam algo bem diferente de quando são pronunciadas por uma minoria a lutar contra medidas repressoras e quando expressas por um grupo que atingiu o poder e, assim, faz uso de idéias, que antes eram armas de emancipação, como instrumentos para manter o poder e a riqueza que obtiveram. As idéias que em determinado momento são um meio de produzir mudança social assumem outro aspecto quando usadas como forma de evitá-la382.

380 RODRIGUES, José Honório. Independência: revolução e contra-revolução. Rio de Janeiro: F.Alves,

1975, p. 275.

381 VILLA, Marco Antônio. A históia das Constituiççoes brasileiras. São Paulo: Leya, 2011, p. 34. 382 The Future of Liberalism, 11 Later Works 191 (1935).

Se, por um lado, D. Pedro se valia da expressão para envolver os brasileiros e cativar seu apoio, Portugal agia da mesma forma, conferindo à felicidade uma importância digna de outras bandeiras universais aspiradas à época. Coutinho, ao tempo, falando em defesa de Portugal, disse:

Há trinta anos uma seita começou a espalhar a semente das revoluções para separar as colônias de suas metrópoles. [...] Mas, quando já tudo parecia desesperado, e sem socorro humano, o Céu em um instante apareceu alegre e risonho; o vento do mar saltou para a terra, o mar sossegou sua fúria; as naus, soltando as velas, salvaram do perigo a Vossa Alteza, ao seu augusto país, a toda a família real, para a felicidade dos fiéis portugueses; a alma de Portugal voou para animar o corpo, que pérfidas mãos trabalhavam já por separar da cabeça383.

Ao outorgar a nossa primeira Constituição, o Imperador disse estar agindo para a “felicidade política” do povo brasileiro384. O Príncipe, em carta enviada ao seu pai antes da outorga da Constituição, escreveu:

Creio que uma constituição faz a felicidade do povo, mas creio ainda mais que ela faz a fortuna do rei e do governo. Se o povo é infeliz onde não há constituição, o rei e o governo ainda são mais infelizes. Só velhacos acham seu proveito em governos sem constituição385.

Curioso D. Pedro associar felicidade à fortuna. Felicidade em vários idiomas, como Happiness (inglês), eutuchia (grego), Glücklinchkeit (alemão) e bonheur (francês), baseia-se no conceito de “boa fortuna”386.

Além de D Pedro, são muitas as manifestações de José Bonifácio que exortam a felicidade como causa primeira de qualquer governo ou governante. José Bonifácio divergia de Thomas Jefferson quanto à escravidão. Para o Patriarca da Independência, não havia inferioridade decorrente da raça. A Constituinte deveria resolver a questão integrando os escravos como cidadãos plenos. Todos eram iguais e a escravidão gerava diferenças. Para Bonifácio, o único modelo capaz de assegurar essa transição seria a monarquia. Em Representação sobre a Escravidão, documento enviado ao Parlamento, em 1823, ele consignou: “É tempo que comecemos a acabar com todos os vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma nação verdadeiramente homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres,

383 História do Brasil Nação: 1808-2010. Direção Lilia Moritz Schwarcz. Volume 1. Crise Colonial e

Independência. 1808-1830. Coordenação: Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro: Fundação Mapre – Objetiva, 2011. Parte 4 – Jorge Caldeira – O Processo Econômico, p. 161-203. (Coutinho, 1966:62)

384 VILLA, Marco Antônio. A históia das Constituiççoes brasileiras. São Paulo: Leya, 2011, p. 17. 385 LIMA, Oliveira. O movimento da Independência. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, p. 209. 386 BOK, Sissela. Explorando a felicidade: de Aristóteles à neurociência. Tradução Patrícia Azevedo. Rio

respeitáveis e felizes”387. Novamente a felicidade surge associada à busca por liberdade. É como se dissesse: Sem ser livre, o ser humano não pode ser feliz.

Em 1855, o Tratado do Rio de Janeiro, ao mencionar o reconhecimento da independência do Brasil, afirma que a meta do país é “remover todos os obstáculos, que possam impedir a dita aliança, concórdia e felicidade de um e outro Estado”, referindo- se ao relacionamento entre Brasil e o então reino de Portugal e Algarves.

O que se percebe é que o constitucionalismo brasileiro, em sua gênese, nasceu atrelado ao projeto de felicidade. Logo, quando aliamos a felicidade ao constitucionalismo não estamos a inovar. O que se busca é promover um resgate às bandeiras primeiras do constitucionalismo moderno cujas bases também foram fincadas no Brasil por meio do seu processo de independência.

387 História do Brasil Nação: 1808-2010. Direção Lilia Moritz Schwarcz. Volume 1. Crise Colonial e

Independência. 1808-1830. Coordenação: Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro: Fundação Mapre – Objetiva, 2011. Parte 4 – Jorge Caldeira – O Processo Econômico, pp. 161-203, p. (apud Caldeira, 2002: 201-202).

9. JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL NORTE AMERICANA: ORIGEM E

No documento Saul Tourinho Leal.pdf (páginas 175-181)