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O “propósito supremo de Deus” no sofrimento

No documento Ron Dunn - Por que Deus não me cura (páginas 167-174)

Quero apresentá-lo ao homem que me ensinou mais sobre o sofrimento do que qualquer outra pessoa.

Para aqueles que o conheceram, a única coisa surpreen- dente sobre a morte de Manley Beasley foi que de fato ele morreu. Uma vez eu lhe disse que era difícil dizer adeus a ele. Pelo menos quatro vezes Kaye e eu fomos avisados de que Manley não passaria daquele dia e fomos ao hospital nos despedir. Todas as vezes, não precisamos nos despedir. Uma vez após a outra Deus o levantava do leito de morte e lhe dava um ministério ainda maior.

Manley era alto, de boa aparência e um reavivalista de grande tradição. Em 1970 ele teve uma doença colagenosa, uma que evoIui em esclerodermia, lúpus e dermatite. Todas essas em geral são consideradas doenças graves. Ao mesmo tempo, foi afligido por outras quatro enfermidades menos graves. A princípio, não lhe deram mais do que um ano de vida — para todos os efeitos, ele era um inválido.

-Manley vivia com dores atrozes, maiores do que qualquer pessoa pode imaginar. Mesmo assim, nunca reclamava das dores ou do seu estado de saúde. Nessa época, Deus lhe deu a promessa de que ele “viveria para ver os filhos dos seus filhos”. Eu brincava com ele, dizendo que se Deus me desse tal promessa, nunca permitiria que meus filhos casassem.

Manley era meu melhor amigo. Ensinou-me muito sobre a fé e o caminhar com Deus. Mais ou menos um ano antes da sua morte, nós nos reunimos e ele me permitiu conversar com ele. sobre suas enfermidades, sofrimentos e o lugar de Deus em tudo aquilo.

DUNN: — Uma das primeiras vezes que o ouvi falar, você ti- nha acabado de sair de uma longa internação no hospital, e suas primeiras palavras foram: “Pessoal, Deus não vai ferir vocês”.

Para mim, certamente parecia que Deus o estava ferindo. Na épo- ca, pensei até que o estava matando. O que você quis dizer com aquela afirmação?

BEASLEY: — Acho que é como uma mulher em trabalho de parto: há muita dor. Mas, quando ela segura o bebê nos braços, esquece a dor. No momento em que você passa por qualquer tipo de sofrimento, parece que Deus o está ferindo, até mesmo matan- do. Mas quando você atravessa aquela fase e olha para trás, para os beneficios, esquece a dor. Quando olho para trás, para o meu sofrimento, vejo que foi tudo muito bom. Essa atitude de “muito bom” procede de submeter aquela adversidade a Deus e permitir que ele me ensine seu propósito nela.

D: — A razão da minha pergunta é que a maioria das pessoas, quando está no meio do sofrimento, sente uma desolação e desespero tão grandes que se pergunta se Deus realmente está por perto.

B: — isso é absolutamente verdadeiro. Entretanto, existem certos fatos que você pode saber sobre Deus mesmo no meio da luta. Sei que Deus está no comando, que ele conhece a situação, que está permitindo tudo aquilo para sua glória e impõe limites segundo a sua vontade. Essas coisas você pode saber mesmo quando sente — o que não impede, porém, que você entre em desespero. Durante minha última hospitalização, houve momentos em que as dores eram tão fortes que eu chorava. Às vezes eu ficava num dilema sobre o que estava acontecendo, mas sabia que Deus estava lá. Isso me dava conforto no meio da batalha.

D: — Em outras palavras, há uma questão mais profunda envolvida, que está além do fato de se você será curado ou se morrerá.

B: — Sim. Esta é a questão fundamental em todo sofrimento: há um propósito supremo de Deus. Este propósito é nos corrigir, ampliar nossa visão e nos fazer vencer para sua glória. Paulo disse que, quer vivesse ou morresse, queria que Deus fosse glorificado. Ele descobriu o propósito supremo de Deus. O sofrimento em si é apenas um veículo por meio do qual Deus nos leva adiante, como fez com Jó, o qual disse: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora que passei por tudo isso, vejo o Senhor com meus olhos espirituais”. Deus, por meio do sofrimento, ampliou a capacidade de Jó de conhecê-lo. Ele passou do estágio de ouvir a respeito para ver com seus próprios olhos.

D: — Você começou tendo sérios problemas de saúde em 1970. Desde então, sua condição tem sido agravada por outras dificuldades, mas você disse que o ano passado foi o pior. É fácil ter certas opiniões sobre dor e sofrimentos quando nunca experimentamos. Entretanto, depois de sermos colocados em situações terríveis, às vezes nossas crenças mudam e oramos de forma diferente. Sua oração mudou de 1970 para cá?

B: — Hoje oro diferente porque sei que Deus está no controle. No começo eu perguntava a Deus: “O que está acontecendo?”. Hoje não pergunto mais. Simplesmente digo: “Senhor, sei que estás fazendo uma obra e quero cooperar contigo”. Assim, de certa forma eu mudei, mas minha visão sobre Deus e sobre a enfermidade continua a mesma. Só reajo de maneira diferente. No começo lutava com a idéia da morte; agora luto fisicamente contra a morte, mas não luto mais contra ela em meu espírito. Temos de reconhecer que muitas pessoas só encaram a morte quando morrem. Eu a tenho encarado todos os dias por quase vinte anos. Eu já devia estar morto, poderia estar morto — e se não fosse pelo sustento de Deus — realmente estaria morto hoje.

D: — Obviamente o que nós dois estamos dizendo é que a questão principal é a glória de Deus. Você acha que Deus é mais glorificado por não curá-lo do que seria se o tivesse curado total- mente?

B: — É uma boa pergunta. Um dia senti que o Senhor estava me dizendo: “Posso curá-lo, se você quiser, ou posso deixá- lo como está. Se ficar como está, você precisará de mim todos dias, para poder ir em frente”. Fiz uma escolha deliberada de confiar no Senhor a cada dia, pois senti que se Deus me curasse ime- diatamente, o fato se tornaria algo em meu passado, que se desvaneceria em minha memória. Por outro lado, se tivesse de depender do Senhor cada dia da minha vida, ele estaria sempre presente e real para mim. Já vi muitas pessoas experimentando uma cura miraculosa e dez anos mais tarde estão cheias de pecados como nunca antes. Comigo, porém, depois de vinte anos de caminhada, ainda tenho de confiar em Deus cada dia para permanecer vivo.

D: — Em outras palavras, você não prega simplesmente sermões, você é o sermão. Como Jeremias, você não se limita a proclamar, você é a proclamação.

B: — Tive de encarar o fato de que minha vida é a mensagem, tanto quanto a verbalização. Muitas vezes, quando

subo no púlpito, as pessoas me dão uma salva de palmas. No começo queria repreendê-las por fazerem tal coisa, mas o Senhor me impediu e disse: “Filho, elas não estão aplaudindo você. Estão aplaudindo a obra que eu estou fazendo em sua vida. Deixe-as”.

D: — Isso levanta uma questão importante: Deus terá de nos levar através do sofrimento e do quebrantamento se quisermos ser o que ele deseja que sejamos?

B: — Creio que é possível que uma pessoa seja bem- sucedida sem ter de passar por esse tipo de quebrantamento, mas não creio que seja provável. A maioria das pessoas na Bíblia que-foram usadas por Deus poderosamente passaram por algum tipo de quebrantamento; todos os grandes cristãos que tenho estudado tiveram experiências sesnelhantes. Seria tolice dizer que todo sofrimento deve ser físico, pois muitas vezes o trauma emocional é pior do que o fisico. O que ocorre é que você deseja tanto que Deun seja mais real para você e para os outros que acaba disposto a pagar qualquer preço.

D: — Quando você recebeu alta do hospital em novembro, falamos pelo telefone e você disse algo que me intrigou: “Deus dis- se muitas coisas para mim, mas não creio que as pessoas queiram ouví-las”. O que você quis dizer? O que as pessoas esperam de você? Estão querendo apenas uma resposta simples?

B: — Ron, provavelmente esta é para mim a coisa mais difícil de compartilhar. Eu ainda estou reunindo todas as coisas que o Senhor me mostrou. Você pode conhecer coisas em seu espírito sem entendê-las em sua mente. Somente quando você entende em sua mente aquilo que sabe no espírito, pode comunicar às outras pessoas.

— Dizem que eu morri literalmente seis vezes — meu coração parou de bater e eu parei de respirar. Seis vezes. Fico me perguntando por que Deus não me mostrou o céu, como ouvimos que fez com outros que “morreram”. Perguntei a ele, e ele respondeu que se eu tivesse visto o céu não iria mais querer voltar à vida. Paulo viu o suficiente para dizer que não tinha certeza se preferia ficar aqui ou ir encontrar-se com o Senhor.

— As pessoas querem a cura ou uma explicação: estão procurando nma fórmula rápida que possam ingerir como um comprimido e dentro de poucos minutos tudo está acabado. Esse método, porém, destruiria totalmente o propósito de Deus ao permitir o sofrimento. O sofrimento nos prepara para a revelação de Deus em nossa vida.

cer do cérebro me telefonou e pediu que orasse por ele. A cirurgia não fora totalmente bem-sucedida. Deram-lhe de seis semanas a seis meses de vida. O jovem, um excelente pregador, pediu para conversar comigo. “O que você faria”, perguntou, “se lhe dissessem que teria no máximo seis meses de vida?”

Respondi; “Você faz o que deve fazer, ou seja, simplesmente confie em Jesus de todo o coração”.

“Não entendo”, ele disse.

“Minha família foi chamada seis vezes para ser informada de que eu não passaria daquela noite, e foi isso que eu fiz: confiei em Jesus de todo o coração.”

— As pessoas não desejam ouvir isso.

D: — Acho que você está dizendo que se cremos que todo sofrimento é obra do diabo, então nosso propósito principal, ou talvez até o único propósito, seria fugir de qualquer sofrimento. Entretanto, se vemos Deus naquela situação, isso fará uma grande diferença. Nosso propósito principal não será fugir do sofrimento, mas sim descobrir o que Deus está querendo nos dizer.

B: — Exatamente. Uma mulher que tinha uma enfermidade terminal me procurou. Ela e o marido eram missionários. Quando a conheci, a primeira coisa que o Senhor falou ao meu coração foi para perguntar-lhe por que ela estava doente. Eu sabia que ela iria pensar que era uma pergunta idiota, mas obedeci ao Senhor.

“Por que você acha que está doente?”, perguntei. “Não sei”, ela respondeu.

Eu disse: “Se você soubesse por que está doente, não iria querer fugir”.

D: — Quando conversamos em novembro, você disse que o “divisor de águas” foi quando conseguiu apegar-se a Deus. Fale mais sobre isso.

B: — Houve duas crises bem singulares — refiro-me à primeira vez que fiquei internado por quatro meses em Houston, e depois novamente em 1988, quando fiquei cinco meses e meio internado — nos dois casos sentia-me como se Deus tivesse literalmente me abandonado. Creio que havia duas razões para isso. Primeiro, há momentos em que Deus retira sua presença consciente de nós para nos ensinar a andar sozinhos, em obediência, sem o constrangimento da consciência da sua presença. A outra razão da nossa inconsciência da presença de Deus em tempos de tribulação é que nosso espírito é como o mar. Se o mar está calmo, você pode atirar um fio de cabelo e perceber

a agitação na água. Mas se o espírito está agitado, como quando o mar está bravio, podemos jogar uma montanha na água que ninguém nota a diferença.

— Por isso, Deus precisa nos levar a um lugar onde haja silêncio e calma, para realmente poder falar conosco. Então, quando Deus fala e você se volta para ele, a vitória é assegurada. Mesmo que o sofrimento se intensifique, a vitória está garantida. Muitas vezes, quando as pessoas pensam que Deus as abandonou, ele apenas recuou um pouco para dar-lhes a oportunidade de perceber onde estão e o que farão numa circunstância como aquela.

D: — Você está dizendo que a parte mais profunda da dor não é o sofrimento físico, mas o sentimento de estar separado de Deus?

B: — Sim. Creio que o pior sofrimento de Cristo na cruz foi quando clamou: “Meu Deus, por que me desamparaste?”.

D: — Creio que é muito importante que as pessoas ouçam isso, pois muitos olham para sua vida e presumem que você nunca chegou nesse ponto de desespero por sentir-se abandonado por Deus. Olhamos para você e dizemos: “Gostaria de ter a fé de Manley Beasley”. Lembro que depois que conversamos — nunca senti o Espírito de Deus tão forte através de uma linha telefônica — Kaye e eu comentamos sobre o telefonema. Eu disse a ela: “Fico feliz por não ter de passar pelo que Manley está passando”. Imediatamente, o Senhor me repreendeu: “Por que você não continua e diz: ‘Fico feliz por não estar tão perto de Deus quanto Manley’?”. Todos nós queremos ter sua fé, mas não queremos ir à escola onde você aprendeu.

B: — Uma das questões reais é o ministério, que torna possível que a glória de Deus seja revelada por nosso intermédio. A princípio eu ficava aborrecido com Deus por causa da minha condição. Mas parei com essa atitude e me submeti ao seu propósito. Como resultado, falo com mais pessoas, vejo mais pessoas salvas e vejo mais da glória de Deus do que jamais vi quando tinha saúde perfeita. Isso é fascinante.

D: — Se de repente fico gravemente enfermo e os médicos me dizem que tenho no máximo seis meses de vida; como devo orar? O que devo dizer?

B: — Naturalmente eu clamaria a Deus. Para um cristão, essa sempre deve ser a primeira resposta: clamar a Deus. Peça a Deus a cura, mas acima de tudo, peça que o leve ao lugar onde você possa dizer: “Senhor, seja glorificado em minha vida”. Pode

levar algum tempo. Para mim, na primeira vez em que fiquei doente precisei de sete meses para chegar a esse ponto. Nunca tinha ficado seriamente doente — tinha 39 anos e muita força no Senhor. Não fazia sentido — a princípio.

— Voltando, porém, à sua pergunta, eu oraria assim: “Se ajuda-me a fazer as correções e ver o propósito disso tudo, que eu possa me alegrar com tua presença, mesmo na dor”. Eu faria isso.

D: — Manley, tenho só mais uma pergunta: tudo isso vai vale a pena?

B: — Ron, se eu tivesse mil vidas e soubesse que todas elas seriam como esta, dedicaria todas elas ao Senhor, pois vale a pena ter a alegria e a paz de saber que está preparado para qualquer coisa que a vida lança sobre você. É uma grande segurança e um conforto estar em tal posição. Fico feliz e agradeço a Deus por isso, pois é uma grande alegria.

Manley Beasley morreu em julho de 1990.

Estou convencido (como ele próprio também estava) de que poderia ter sido curado, se escolhesse. Deus prometeu isso a ele. Dificil escolha. Entretanto, considerando sua vida, seu ministério e sua influência, creio que fez a escolha certa.

Capitulo 20

Não tema

Podemoss nos alegrar na presença

No documento Ron Dunn - Por que Deus não me cura (páginas 167-174)