O que atravessa a pesquisadora nessa(s) história(s)/contos

No documento A EDUCAÇÃO DO CAMPO EM CAÇAPAVA DO SUL: EXPERIÊNCIAS QUE SE PRODUZEM NA HISTORICIDADE (páginas 79-98)

4. EXPERIÊNCIA, ESPAÇO E HISTÓRIA

5.1 O que atravessa a pesquisadora nessa(s) história(s)/contos

As suspensões e entrevistas como pistas.

Conforme descrevi anteriormente, no projeto de qualificação criei suspensões (quadro I) sobre doze (12) documentos selecionados durante a pesquisa e o conteúdo de cada um deles. Na suspensão de tais achados também

fiz o exercício de suspender outros materiais, como fotos, imagens e escritos meus, para que pudesse pensar em unidades analíticas. Mas quando percebi a potência dos contos a partir das entrevistas, optei por deixar a parte analítica nesta sessão para dispor discussão e análise dos documentos e das entrevistas aproximando as falas, os contextos históricos, o que dizem e o que é dito sobre as escolas do campo, tentando aproximar essas experiências e produzir uma historicidade dessas escolas a partir das pessoas que a compuseram ou as compõem, no sentido das minhas afetações e atravessamentos.

5.1.1 - Pista 1 – Educação Laica – o catolicismo como conduta escolar

Figura XII Foto da organização de uma sala multisseriada, tendo a cruz como referência católica

E como é que funcionava, tinha primeira comunhão na escola ou era na capela?

Na capela. Tinha a preparação na escola. Os professores que me prepararam e aí a gente ia para a capela, faceiros, fazer a primeira comunhão (Professora Acácia).

Quando visitamos uma Escola do Campo geralmente junto a ela encontramos uma capela, porque se pensarmos na escola no espaço do campo não olhamos apenas para o lugar de estudos; é um lugar de acolhimento das famílias, um ponto de encontro que as reúne. Nesse sentido, é comum vermos diferentes tipos de organizações, de festas, de reuniões, incluindo missas e rituais

católicos. Nos documentos observei muitas citações que faziam referência a aulas de catequese ministradas no espaço da escola, o que foi reforçado, corroborado, nas entrevistas, em que as falas mostram a importância da igreja para a comunidade e o quanto o catolicismo é presente nas práticas e espaços da escola.

São esses espaços-tempo, heterotópicos que se cruzam o tempo todo.

De acordo com o censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, as quatro correntes religiosas predominantes em Caçapava do Sul são: o Catolicismo Romano, com 25.233 fiéis (74,9%); o Protestantismo, com 4.664 adeptos (13,8%); os Sem religião, com o contingente de 1.919 habitantes (5,7%); e o Espiritismo, com 1.274 adeptos (3,8%). As demais religiões, como Umbanda, Candomblé, Igreja messiânica mundial e outras denominações cristãs congregam 690 pessoas (1,8%)24. Sendo assim, o catolicismo prevalece neste contexto da Escola do Campo, permeando todas as relações, dentro e fora da escola. Sobre esse viés, resgato um trecho interessante na entrevista com o professor Cravo, quando ele relata sobre a chegada na escola Rincão da Tigra

Não tinha missa, a “L” (professora anterior) andou levando uma vez um pastor, daí a comunidade não foi nada receptiva com o pastor, ai eu cheguei lá e como já tinham me passado que não tinham gostado, ai como eu tava chegando, conhecendo a comunidade, ai convidei uma padre pra ir lá, o padre foi, a comunidade achou um máximo, eles nunca tiveram missa lá, daí todo mês tinha missa, almoço comunitário no dia da missa, dei catequese para os que não eram catequisados, e depois crisma.

Pensando a ligação da religião com educação, mesmo que se tenha como referência legal a educação pública como laica, Caçapava do Sul, por ser uma cidade em que a população é majoritariamente católica, traz para as suas práticas escolares a caracterização, certa familiaridade e aproximação da religião com os processos educativos, incluindo aqui a dimensão moral que envolve a escolarização. Portanto, fazer uso do espaço da escola para os rituais católicos se torna comum, tanto quanto formar as crianças dentro da religião.

Nas minhas inserções nas escolas urbanas e do campo já presenciei e observei turmas que oram antes de iniciar as aulas, professores que trazem imagem de santos que são revezados entre as crianças, aulas de ensino religioso

24 Fonte: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/rs/cacapava-do-sul/panorama

que basicamente trabalham a Campanha da Fraternidade25, dentre outras práticas que são realizadas dentro das salas de aulas. É visível em algumas escolas a devoção, visto que aparecem cruzes acima de portas, santos na entrada ou nos saguões, grutas com santinhos nos pátios... Nas aberturas dos anos letivos entre os professores é comum a participação de padres, párocos, pastores, que fazem o uso da Palavra e abençoam os participantes para um novo ano letivo.

Ainda em outra entrevista, com a mãe Jasmin, da escola Lino Azambuja, podemos perceber a importância da presença do padre na comunidade, e a escola como ponto de encontro e união das famílias:

Alice: A escola fica aberta para tudo. Quem fica responsável pela missa?

Jasmin: A professora “M” pega a chave para ajeitar as cadeiras, para o padre vir.

Alice: E o padre vem da cidade?

Jasmin: Sim

Alice: E vocês fazem na sala de aula ou ao ar livre?

Jasmin: No verão fazemos aqui na área.

Alice: E quantos vem mais ou menos?

Jasmin: Vem bastante, junta toda a comunidade aqui, bastante gente.

Alice: Mais de 40?

Jasmin: É por aí, 30, 25 pessoas de cada vez, uma vez por mês. Todo o primeiro domingo do mês.

Alice: E essa questão de crisma e primeira comunhão? Vocês fazem?

Jasmin: Aqui minha guria fez, na escola. E depois que ela fez teve umas duas turmas. Agora não sei com a função do “I”, tem um monte de aluninho, se a professora “M” que é diaconisa, que ela é da igreja e a minha guria fez com ela.

Alice: Aí ela faz na escola, ou nos dias de missa?

Jasmin: Tem aula uma vez por semana, de tarde.

Alice: No caso, de manhã aula e de tarde crisma?

Jasmin: Sim, uma vez por semana, e depois na missa ela faz a cerimônia, era uma baita turma que tinha.

Alice: A senhora tem (crisma)?

Jasmin: Sim.

25 A Campanha da Fraternidade é uma campanha realizada anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no período da Quaresma. A cada cinco anos é promovida de forma ecumênica em conjunto com outras denominações cristãs. Seu objetivo é despertar a solidariedade dos seus fiéis e da sociedade em relação a um problema concreto que envolve a sociedade brasileira, buscando caminhos de solução

Alice: E fez na escola?

Jasmin: Fiz, mas foi na cidade. Tem as fotos na sala de aula. Batizado também, faz aqui na missa, os meus dois filhos se batizaram aqui na missa.

Nesse sentido, o escolar está mesclado a outras contingências que o delineia e compõe como Escola do Campo. As práticas docentes se misturam com as ordenações católicas, os textos trabalhados podem estar relacionados aos valores que querem passar.

5.1.2 - Pista 2 - A ausência da família, o fracasso escolar e a justificativa para o transporte - Fez-se a nucleação

Alice: Por que tu acha que teve essa onda de desativação?

Girassol: Por causa do transporte escolar. Os pais preferiram as escolas maiores, numa visão de que era melhor, e aí o que que eu sinto, onde foi desativado, perdeu-se a comunidade, o ponto de encontro, aqui mesmo, né, Cravo? Aqui é o ponto de encontro da comunidade. Onde tinha a escola.

Nessa emergência de se ter escolas nas comunidades que proporcionem o encontro e a vida, há também a emergência de justificar a desativação das Escolas do Campo a partir da ausência da família, do fracasso escolar (não aproveitamento das aprendizagens), em uma lógica de economicidade do poder público, disposto a investir mais no transporte escolar do que nas escolas multisseriadas.

A aproximação que fiz vem da suspensão 4 do quadro I e a partir das entrevistas, concluí que baseados em uma ideia da não legitimidade da qualidade da escola foi-se criando a percepção de que escola pequena não era boa e não tinha qualidade.

O transporte escolar iniciou nos anos 80, pela iniciativa privada dos pais que tinham condições de pagar ou tinham Kombis ou vans e estavam dispostos a levar os filhos e os alunos daqueles que pudessem pagar para terminar o ensino fundamental, já que as escolas multisseriadas iam até a 5ª série (na época).

Girassol: eu estudei no Durasnal em 85, 86 tinha duas Kombis do transporte escolar, do Durasnal, uma da Vila Progresso, e uma do Seivalzinho, que eram pais de alunos que eles fretavam particular, os vizinhos pagavam para levar para a escola. Uma lá do Seivalzinho era o pai de uma aluna, ele tinha uma Kombi amarela, nunca vou me esquecer a cor, e ele ia do Seilvalzinho até o Vitor Costa, ele levava a filha dele, mais os vizinhos que pagavam ele pra levar de Kombi, ele ficava esperando. E a outra era na Vila Progresso.

Alice: Mas haviam ainda escolas na Vila Progresso e no Seivalzinho?

Girassol: Tinha, mas era para estudar o ensino fundamental, de 6 a 8 série, então esses alunos eram meus colegas, eu morava perto do Durasnal com a minha madrinha, mas tinha duas Kombis que faziam o trajeto para a escola Vitor Costa, que era da Vila Progresso e Seivalzinho, fretado pelos pais.

Alice: Então, de certa forma, tinham como levar?

Girassol: Sim, e depois conseguiram ajuda da prefeitura para pagar combustível, ajuda, e aí depois veio o transporte escolar e iniciou então com esses dois pais. Porque nas escolas multisseriadas só tinha até a 5 série. Aí então eu lembro que eram duas Kombis.

Aqueles que não tinham condições de pagar o transporte privado ou não tinham condições de ir para a cidade terminavam os estudos na 5ª série, ficando em casa, nas tarefas domésticas, as mulheres casando muito cedo e os homens, em sua maioria, trabalhando com os pais nas tarefas do campo ou servindo de peões aos fazendeiros.

Begônia: Eu, quando terminei a 5ª série, eu tinha 12 anos. Daí o pai e a mãe não tinham condições financeiras de nos trazer na cidade para estudar, não queria deixar nós morar com ninguém. Eu fiquei 5 anos sem estudar. Quando eu voltei no Dagoberto Barcellos, o primeiro ano, o pai era muito cricri. Não deixou eu estudar, só meu irmão. Daí, de tanto eu chorar pra estudar, daí deixou eu estudar, ele não queria que viajasse no transporte. Aí ele deixou, meu irmão rodou, depois fomos colegas e fizemos a 6ª, 7ª e 8ª serie.

Alice: E nesses 5 anos o que tu ficou fazendo em casa?

Begônia: Fiquei em casa limpando, ajudando nas tarefas domésticas.

Não queriam que eu morasse com uma tia na cidade, aí nós voltamos a estudar e terminamos no Dagoberto Barcellos. Aí o pai deixou nós terminar os estudos. Deixou nós vir pra cidade, morar na casa da tia.

Então podemos perceber que o transporte iniciou dessa forma e acabou ganhando força e sendo colocado, mais tarde nos anos 90, como Programa do Transporte Escolar, para além da complementação dos estudos, mas sim de todo o ciclo escolar.

Com o advento do transporte escolar foram terminando e sendo fechadas as escolas do interior da cidade. Além disso deu-se também a efetivação da política do nucleamento das escolas, pois com a obrigatoriedade de oito anos, e sendo a maioria delas mantida pelo município, o nucleamento foi sendo implementado com vistas a uma educação que se organizasse com base num modelo de escola que estava fixado na organização e classificação por idades,

séries, valorizando a não multisseriação, aproximando-se da educação oferecida no centro urbano, além de oferecer melhores condições aos professores e suas multitarefas.

A política de Nucleação, em efervescência nos anos 90 do século XX, previa um reordenamento da quantidade de escolas existentes em contextos e situadas no campo. Uma política baseada num panorama analítico de gastos confrontados com resultados de aprendizagem, de onde surgiu a ideia de que as Escolas do Campo multisseriadas eram de baixo rendimento. Assim criou-se a narrativa negativa sobre a organização das escolas com turmas multisseriadas26 que se configuram em escolas multisseriadas. Essa característica diferenciada passa a ser massacrada pelas narrativas que tomavam como elemento de comparação as chamadas escolas polo ou as escolas urbanas.

Então, a política de Nucleação, consistia, como diz Rodrigues et al. (2017),

Na prática, esse processo de nucleação corresponde à desativação da escola, por um período de 5 anos, e ao posterior fechamento. A nucleação, na primeira fase do ensino fundamental, se configura como o deslocamento de crianças e jovens das redes municipais e estaduais de ensino das escolas rurais, localizadas em comunidades que apresentam baixo número de matrículas ou caracterizadas como isoladas, devido à precária infraestrutura em relação às escolas de comunidades vizinhas melhores aparelhadas (RODRIGUES et al., 2017, p. 709).

No mesmo artigo citado anteriormente as autoras apontam as justificativas do Conselho Nacional de Educação, homologado pelo Ministério da Educação, o qual deixa clara a justificativa da política de Nucleação:

Baixa densidade populacional determinando a sala multisseriada e a unidocência; facilitação da coordenação pedagógica; racionalização da gestão e dos serviços escolares e melhoria da qualidade da aprendizagem. (RODRIGUES et al., 2017, p. 709)

Nesse sentido, no município de Caçapava do Sul, as escolas localizadas em lugares muito distantes da sede ou que necessitavam de adequação predial, além de investimento com materiais e recursos humanos, eram avaliadas e fechadas conforme o modelo de gestão da educação da administração municipal, sem nenhum protocolo. Apesar da economia depender do campo, do grande ou

26 Para Rodrigues et al (2017, p. 710), “a organização do ensino em salas multisseriadas como fator atribuído pelo poder público ao descrédito e fechamento das escolas do campo”.

pequeno produtor, ainda é preciso melhorias no espaço do campo, no investimento das estradas para o escoamento da produção, de melhorias nas escolas para a fixação no campo e não o abandono dele. É a lógica invertida da urbanização no espaço rural, pois Caçapava possui uma área total de 3 047,113 km², sendo mais de 50% de extensão rural, com 25% da população vivendo no campo.

Ficou muito claro também o pouco investimento da prefeitura nos prédios, bem como na manutenção e conservação dos espaços, sendo passada a responsabilidade ao professor, que além de ministrar aulas devia organizar a merenda, a limpeza e buscar o que fosse necessário, como água na cacimba, conforme excerto a seguir:

A cacimba não era muito longe, mesmo assim ia sozinha. Aí trazia o balde de água, largava lá na cozinha e ia conversar com os alunos, ver quais eram as dificuldades, dava uma explicadinha ali, se achava que estavam trabalhando direitinho, “então agora a professora vai fazer a merenda”. Ia lá, iniciava a merenda, vinha, olhava eles, ficava mais um pouquinho, voltava lá e terminava a merenda. Então (falava) “agora crianças é a hora da merenda”. Eu ia lá e servia eles, todos lanchavam, liberava eles para o pátio, era recreio, e voltava para a cozinha para lavar a louça (Professora Acácia).

A partir desse fragmento notamos a preocupação da professora com as responsabilidades na escola para além do planejamento e execução das aulas.

Era a merenda, a limpeza, a organização do prédio, além da disponibilidade de buscar recursos básicos, como água.

Acácia: Calorão e água da cacimba. E a água não era boa. Era uma água bem tundada sabe, que até a professora S. T. foi lá fazer uma visita, e quando ela disse “não tem mais condições”.

Alice: Aí resolveram fechar a escola?

Acácia: Aí resolveram fechar a escola.

Alice: Por causa da água?

Acácia: Por causa das condições.

Alice: E quantos alunos tinha?

Acácia: Eram 11 alunos. E aí alguns já estavam se mudando de lá.

Alice: Era alvenaria ou madeira?

Acácia: Madeira, escola de madeira, já com as paredes bem estragadas.

Alice: E banheiro, tinha?

Acácia: Não tinha banheiro, era patente.

Alice: Em 94?

Acácia: Eram péssimas as condições.

Alice: Nenhum investimento?

Acácia: Nenhum, nenhum investimento.

Figura XIII Foto da estrutura de uma antiga patente de uma escola multisseriada já fechada.

Assim, quando chegava a um ponto em que não havia mais nenhum professor disposto a esse trabalho, a secretaria mandava alguém para fechar a escola. Nesse sentido, em várias entrevistas aparece como acontecia esse processo, como conta uma técnica da SEDUC:

Alice: E tu ia pra visitar e fechar?

Violeta: Sim, visitava, via as necessidades de manutenção.

Alice: E como é que acontecia, qual era o protocolo de fechamento das escolas?

Violeta: Não tinha protocolo, né, Alice, era assim, faltou clientela, tinha as escolas polo Dagoberto Barcellos e Augusto Vitor Costa, vamos centralizar lá.

Alice: Era a ideia da administração?

Violeta: é, a tia “I” (secretária na época) era contra, mas quando iniciou o transporte escolar, era pago, os pais pagavam, não era uma coisa exorbitante, cada pai ajudava com um pouco, uma mensalidadezinha.

Alice: o transporte começou na década de 90, com o programa do transporte escolar, aqui em 1995 fala sobre a nucleação, e aí eles tratam a nucleação como uma qualidade, levando as crianças para uma escola maior, que estão levando para uma escola com mais condições, o que tu pensa sobre isso?

Violeta: Eu acho assim, tem casos e casos. Por exemplo, as escolas que eu presenciei, nós fomos no Bom Jardim, desde que eu entrei aqui, eu fui lá e tinha... são escolas ótimas, no Bom Jardim funcionava a escola e um posto de saúde, e tinha escolas bem precárias, como o Miguelina Machado, era um chalezão de eucalipto, bem ventilado tudo, mas era, não tinha banheiro...

Aqui fica claro que por vezes a intenção era fechar mesmo tendo condições de continuar, porque para administração, e muitas vezes para os pais, era melhor mudar de escola. Fazia-se reuniões e potencializava-se a ideia de que a escola menor não era boa, que era uma inovação o programa do transporte escolar, pois o veículo passaria na frente de suas casas, buscaria e traria seus filhos, e além de tudo dava uma “melhor oportunidade de estudos”.

Interessante trazer também um contraponto a essa lógica, na entrevista com Jasmin, mãe de um aluno da escola multisseriada:

É, eu acho que pra fora, aqui. pra nós, é uma maravilha né, a escola rural né, e o transporte é bom, passa aqui na frente, mas daí tu manda pra cidade, a função toda, e aqui é a comunidade né, eles se criam mais no núcleo da escola, eu gosto daqui, da escola aqui de fora, eu acho importante eles terem a noção daqui, né.

Na opinião e experiência de Jasmin, a escola multisseriada convida a permanecer na escola com a matrícula do segundo filho, ela não vê problemas em que a escolarização dele se dê ali, o que talvez na história das Escolas do Campo de Caçapava do Sul não apareça, mas ela, entre outras tantas que resistem para a existência e permanência da escola, sejas vezes por meio de abaixo-assinados, não querem levar seus filhos no transporte escolar.

Em relação à ausência da família ou a falta de condições dos alunos como justificativa também para o fechamento, a fala da estagiária Begônia vem ao ficava com pena, eram dois meninos, eu ficava de pé no chão na frente do colégio, o mano levava minha chinela ou meus tênis eles calçavam e iam pro colégio, ele chegava, sentava, e o mano levava pro outro.

Alice: Mas eram famílias muito pobres?

Begônia: Muito. Eram dali. Casa de pau a pique.

Alice: Do que sobreviviam?

Begônia: De plantação. E o campinho que eles tinham era menor que aqui. Uma casinha com santa fé, colchão de palha, iam a pé, sem calçado. Muitas vezes a mãe deles fazia pra eles as roupas com saco de farinha, pegava, lavava e comprava potinho de tinta, tingia e fazia as bermudinhas, e com cordão atava na frente.

Essa colocação me causa certa dor ao pensar na família dessas crianças, que de qualquer forma tinha a escola como obrigação em uma época em que não era obrigatório o ensino. Por que depositavam tanta fé na escola? De chegar a mandar sem calçado as crianças? Seria pelas condições melhores de vida que poderiam ter? Seria por ser uma ocupação? Ou um lugar para matar a fome?

Nesse sentido, podemos analisar quantas vezes a escola é violenta ao justificar o não aprendizado a uma falha da família, que por vezes fazia/faz o que está a seu alcance para mandar o filho à escola. Quantas pessoas desistiram nesse caminho? Quantos sonhos se perderam também ao tentar voar caminhos outros, mas permanecer naquele contexto? Quantos doutores, professores, engenheiros se perderam nesse chão e seguiram a sina de peão? A estagiária, pelo relato, viveu também em precárias condições, onde conheceu a luz elétrica com quinze anos, e hoje está realizando seu sonho, mesmo que tardiamente, de se tornar professora. Mas cultua seu passado e o reverencia, por mais dificuldades que tenha passado.

Eu falo pro meu filho, sinto falta da minha infância, apesar de todo o

Eu falo pro meu filho, sinto falta da minha infância, apesar de todo o

No documento A EDUCAÇÃO DO CAMPO EM CAÇAPAVA DO SUL: EXPERIÊNCIAS QUE SE PRODUZEM NA HISTORICIDADE (páginas 79-98)