III. CONFLITOS NA COMUNICAÇÃO
1. O OLHAR DE FORA AO OLHAR DE DENTRO
1.2. O ranking da Time e o “presidente” tapuia
Na data da divulgação da lista da revista norte-americana Time das cem pessoas mais influentes do mundo, em 29/04/2010, como o nome de Lula apareceu na primeira posição,
29 O presidente passou mal na véspera e, seguindo recomendações médicas, não viajou a Davos para receber o
houve grande repercussão em sites de notícias e algum desencontro de informações sobre o lugar ocupado pelo brasileiro.
Na edição do dia seguinte, o jornal Folha de S. Paulo ocupou-se em aliviar seu leitor da eventual dúvida: tratava-se realmente da primeira colocação, ou Lula era apenas mais um da lista? “Por ser o primeiro citado na categoria, brasileiro foi visto por algumas horas como o líder mais influente, o que gerou controvérsia; publicação diz não haver ranking”, já alertava a chamada da matéria “Revista ‘Time’ inclui Lula entre os cem mais influentes do mundo” (página A6).
Em sua coluna, “Toda Mídia”, Nélson de Sá dá um panorama do equívoco:
Capa “foldout” da revista Time
LULA LÁ
A revista saiu ontem, pela primeira vez, com uma capa "foldout" em quatro partes, com fotos de, entre celebridades e empresários, Sarah Palin, Bill Clinton (na principal) e Lula. Com mais de 170 páginas, escolhe as "100 pessoas mais influentes do mundo"
Relações públicas
A revista postou a "lista completa" com Lula no alto e precedida pelo número "1". Na manchete do UOL e de outros no meio do dia, ""Time" elege Lula o líder mais influente do mundo". No fim da tarde, "Lula está entre os líderes mais influentes". E a informação de que "o departamento de relações públicas da revista esclareceu que a lista não é ranking".
Também no portal G1, "o setor de relações públicas explicou que a decisão de colocar Lula como número 1 se deu meramente por razões editoriais". [...]. (TODA MÍDIA, 2010, p.A10).
Encimado por uma charge que, na intertextualidade, conota a mania de grandeza do presidente brasileiro e, assim como ocorre no caso do refrão constante em Clóvis Rossi, o texto de Fernando de Barros e Silva joga com o mal-entendido, desqualifica a lista por seu “aspecto frívolo e bizantino”:
SÃO PAULO - Lula, escolhido o líder mais influente do planeta pela "Time"? Havia ontem uma intensa discussão a respeito do lugar que foi destinado ao presidente brasileiro. Seria mesmo "o primeirão"? Ou era apenas um dos "25 eleitos" pela publicação americana na categoria "líderes"? Conforme a própria revista depois esclareceu, essa última interpretação é a mais correta.
Mas, afinal, que diferença faz? A discussão serviu apenas para pôr em relevo o aspecto frívolo e bizantino da própria lista. Ela diz menos sobre as personalidades
que supostamente ilumina do que sobre as taras e misérias de um mundo que precisa a todo instante se reconhecer no espelho das celebridades que fabrica. Todo ranking, no fundo, é só uma forma de alimentar o bovarismo da sociedade do espetáculo. A lista é tola, mas não significa que seja "arbitrária". Já houve coisas muito piores. [...]
No perfil que escreveu do petista, o documentarista Michael Moore diz platitudes, mas é certeiro ao afirmar: "O que Lula quer para o Brasil é o que nós costumávamos chamar de sonho americano".
Um mundo de consumidores banais e felizes. Uma sociedade remediada na sua selvageria pela força integradora do dinheiro. Do socialismo, nem o cadáver. Esse é o horizonte em que se movem Lula e sua utopia mundana. Moore viu o que muito petista ainda não entendeu.
Pelos prêmios já acumulados e pelo conjunto da obra, a "Time" deveria ter incluído Lula na lista dos "artistas". E Dunga talvez esteja pensando se não há um lugarzinho para "o cara" na sua seleção. (LULA, THE GUY, 2010, p. A2).
Ao final, o texto do colunista da Folha de S. Paulo, resgatando o contexto da charge, que remete a um álbum de figurinhas de jogadores da Copa do Mundo (muito popular na época), convoca o qualificativo cunhado por Barack Obama tornando “o cara” um possível selecionável de Dunga (o então técnico da seleção brasileira de futebol). Como se pode notar, não ficam incólumes à ironia os “prêmios já acumulados” por Lula, que, conforme se sugere, deveria ser incluído na lista dos “‘artistas’”.
Folha de S. Paulo, 30/04/2010, p. A2
Nessa mesma edição, Barbara Gancia, utilizando um outro qualificativo para o líder brasileiro, “tapuia” – extensivo aos demais compatriotas30, como que em um exercício de síntese antropológica a respeito desses, próprio do meio –, escreve em sua coluna:
30 O termo já havia sido utilizado pela colunista em um outro texto, presente nesta pesquisa, “Esse é o cara,
vírgula” (Folha de S. Paulo, 03/04/2009, Cotidiano, p. 2), onde se pode ler: “Mas nós tapuias ainda não perdemos a mania de ser capacho, a servilidade que vem dos tempos da escravatura”; ou ainda, “O vídeo mostra ainda Obama dizendo que Lula é ‘o político mais popular do mundo’, o que fez os barbudos dos sindicatos e das
SEMPRE que é publicada a edição da revista "Time" com a "Pessoa do Ano", título antes conhecido como "Homem do Ano", algum chato de galocha faz questão de lembrar de que Adolf Hitler, o aiatolá Khomeini e/ou George W. Bush já foram contemplados com a homenagem. [...]
Será que tem algo a ver com a notícia de que Lula foi considerado pela "Time" como um dos 25 líderes mais influentes do mundo? Só pode ser isso. Afinal, quem de nós está acostumado a ver um presidente tapuia ter seu nome lembrado pela imprensa internacional? O sucesso de Lula mexeu comigo. [...]
chega a comover gente grande como nos envaidece esse tipo de reconhecimento, não é mesmo? Bastou um estrangeiro dizer "Pelé", "Romário" ou "Ronaldo" na hora de dar uma pista de que sabe um mínimo sobre o Brasil, que a gente já sai comemorando, abraçando e fazendo sinal de positivo. Como se o fato de que o cara gosta de futebol significasse necessariamente que ele admira nosso país.
Ah, e como a gente precisa que gostem de nós! Norte-americano não está nem aí se o resto do mundo quer ver os EUA riscados do mapa; suíço, holandês, canadense, belga, sueco e finlandês tampouco estão se lixando se você aprovou ou não o país dele. Já o italiano faz questão de criticar a Itália junto com você. E só os mais humildezinhos, digamos, uma Honduras, uma Gana, uma Nigéria, um México, uma Venezuela ou... um Brasil têm aquele patriotismo rasgado, de chorar pela pátria quando toca o hino.
É claro que mal não faz para o país Lula ser reconhecido pela "Time" como líder de personalidade. De fato é positivo para ele e para nossa imagem institucional. Mas essa necessidade de aceitação que faz o fato se tornar destaque em todos os portais e todas as rádios e todas as TVs do país como manchete principal, dá a medida do tamanho da insignificância que precisamos deixar para trás.
Mostra que ainda vai demorar para saírmos da fase: "O que achou da mulher brasileira?" e "Do you like caipirinha?". (DO YOU LIKE..., 2010, p. C2).