2 O PROJETO DE MONTEIRO LOBATO: IDENTIDADE NACIONAL E

2.4 Regionalidade(s), nacionalidade(s), modernidade(s) na produção infantil de

2.4.2 O Sítio é um Brasil

O Sítio do Picapau Amarelo é um ambiente insólito, constituído por elementos míticos, lendários e ficcionais; contudo, é possível perceber que ele tem raízes no mundo real. Considerando isso, parece pertinente pensar até que ponto o ambiente ficcional é constituído como reverberação de localidade(s) real(is). Zilberman (2005) discute a localização do Sítio do Picapau Amarelo:

Para entender o que significa dizer que o sítio é um mundo próprio, basta tentar responder à seguinte pergunta: onde ele se localiza? Se ele estivesse assentado, por exemplo, em São Paulo, estado e cidade onde Monteiro Lobato viveu boa parte da existência, ele não seria independente, e sim uma parte daquela região. Se se pensar, por exemplo, no bairro de Botafogo, onde moraram algumas das personagens de Machado de Assis, entende-se imediatamente que aquele local pertence a uma cidade real, o Rio de Janeiro, escolhida pelo romancista para paisagem de sua obra. [...] Com o sítio, isso não acontece, pois não se pode situá-lo em alguma geografia regional ou local; o máximo que se pode dizer é que ele fica no Brasil. Embora também se possa dizer que ele é o Brasil (p. 27, grifo da autora).

De fato, é difícil afirmar que o Sítio localiza-se em Taubaté (SP) apenas por considerar-se a origem de Lobato. Zilberman (2005, p. 28) prossegue afirmando que a configuração espacial do Sítio “revela que nenhuma fazenda de café, do interior de São Paulo ou do vale do Parnaíba [sic]12, poderia corresponder ao modelo proposto por Monteiro Lobato em seus livros”. Todavia, se o Sítio representa o Brasil, mesmo que em uma estrutura utópica, moderna, rica e contemporânea, ele mimetiza regiões do Brasil, com a predominância arbitrária da região sudeste rural.

O conceito de região, tão amplo e discutido por diferentes áreas do conhecimento, foi e é encarado por alguns segmentos científicos com certo desconforto. De fato, na disciplina

em que se difundiu primeiramente, a Geografia, a região parece ter sido centralizada e rechaçada repetidas vezes.

Segundo Pozenato (2003, p. 4-7), há um preconceito contra a região na produção científica, sobretudo devido ao histórico do termo, de duas maneiras: primeiramente, pelo fato de a região tradicional implicar a existência de fronteiras, divisões, classificações de ordem positivista; em segundo lugar, porque o conceito foi, por muito tempo, encarado singularmente como um atributo natural, inerente à realidade social. O autor vai além, e afirma:

Não vejo no entanto problema em continuar falando em região, contanto que por tal não fique entendida uma realidade natural, mas uma rede de relações, em última instância, estabelecida por um auctor, seja ele um cientista, um governo, uma coletividade, uma instituição ou um líder separatista (p. 4).

A identidade regional, então, constitui-se da mesma maneira que a identidade nacional, porém em escala diferente. Ambas buscam (ou impõem) essências que precisam ser, como mitos, mantidas e ritualizadas. Todavia, a região não se desprende totalmente do aspecto natural e do aspecto físico. O espaço permanece existindo, incólume. Uma cidade que se edifica sobre montanhas constituirá hábitos culturais diferentes de uma que se espalha ao longo de rios. E essas culturas serão, naturalmente, mantenedoras de identidades culturais diversas, mesmo que não busquem negar-se ou opor-se mutuamente de propósito.

Respondendo a esse embate, Haesbaert (2010) sugere bandeira branca:

Propomos aqui um caminho mais complexo, para o entendimento da região não simplesmente como um “fato” (em sua existência efetiva) nem como um mero “artifício” (enquanto recurso teórico, analítico) ou como instrumento normativo, de ação (visando à intervenção política, via planejamento). Propomos então tratar a região como um “arte-fato” (sempre com hífen), tomada na imbricação entre fato e artifício e, de certo modo, também, enquanto ferramenta política (p. 7).

Se a região é uma rede ou um feixe de relações (POZENATO, 2003, p. 9), essas relações podem ser denominadas regionalidades. Haesbaert (2010, p. 8) concorda com isso ao definir o termo “regionalidade” como “propriedade do ‘ser’ regional”. Arendt (2012, p. 89) vai além, e afirma que uma única região pode abrigar regionalidades “díspares e conflitantes”, “especificidades” culturais em sobreposição e coexistência, em espaços sociais dados, e propõe que se defina o conceito como um termo no plural e como uma ideia não coesa, sempre em formação, similarmente à “identidade” de Hall (2005). A maneira como as

regionalidades são enfatizadas ou omitidas em grupos ou sistemas é um recorte que forma as regiões e as identidades regionais.

As regionalidades são inerentes ao fazer literário. O autor não se isenta de regionalidades ao escrever, e sua representação literária, necessariamente, elege e exclui características regionais, seja no espaço literário, seja no universo imaginário. Por muito tempo, subestimou-se a literatura que versasse sobre regiões específicas, sobretudo os espaços rurais, distantes dos centros urbanos. Tal literatura seria menor, se oposta àquela canonizada como “universal”. Trata-se de um paradigma a ser quebrado. Toda literatura é formada por regionalidades, assim como o é todo espaço social (ARENDT, 2012), e como toda nação é formada por regiões (OLIVEN, 1992).

Oliven (1992, p. 18-19), ao discutir nação-nacionalismo e região-regionalismo, explica que o discurso nacionalista e o regionalista são igualmente simbólicos e ideológicos. As identidades nacionais e as identidades regionais dependem de contextos econômicos, políticos e são arbitrárias e temporalmente localizadas. A lógica nacionalista, entretanto, busca incluir (e excluir), implícita ou explicitamente, diferentes regiões à procura (ou imposição) de uma

essência nacional.

Assim, se Lobato escolhe evidenciar ou omitir aspectos do Brasil para compor seu Sítio, ele o faz com base nas regiões que compõem a realidade de seu tempo, selecionando-as propositalmente para representar um todo narrativo. Portanto, não há isenção de regionalidades na brasilidade do Sítio do Picapau Amarelo.

Um dos melhores exemplos do(s) recorte(s) lobatiano(s) que compõe(m) o Brasil em sua produção é sua segunda obra de literatura infantil, o romance O Saci, publicado originalmente em 1921 (sequência ao sucesso de público A menina do narizinho arrebitado, de 1920, posteriormente reeditado como Reinações de Narizinho). O segundo romance lobatiano foi composto com base em uma pesquisa realizada em 1917 sobre a lenda do Saci13. Camargo (2008, p. 88) enfatiza que a obra seria reeditada e republicada inúmeras vezes, com alterações drásticas na seleção de lendas brasileiras apresentadas ao longo da narrativa de aventuras de Pedrinho. Ao todo, em dez edições realizadas ao longo de três décadas, aparecem personagens folclóricas como o Saci, o Lobisomem, a Mula Sem Cabeça, a Cuca, a Boitatá, o Negrinho do Pastoreio e a Iara, entre muitos outros, originários de múltiplas regiões do país, além de elementos da fauna e da flora nacional, como a onça e a sucuri, todos

13 Essa pesquisa daria origem à obra documental O Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito, de 1918, e ao

encadeados em peripécias do protagonista em busca de capturar um saci. Camargo (2008, p. 93-94) deixa claro que

a multiplicação das figuras folclóricas [ao longo de suas reedições] acabou por tornar O Saci uma importante fonte de dados acerca do folclore brasileiro, transformando-se em fonte utilizada por diversos autores [...]. De certa maneira, com O Saci, Monteiro Lobato acabou criando uma espécie de cânone do folclore brasileiro, elegendo suas figuras mais apreciáveis e colocando ao alcance das crianças um saber folclórico que – com o refluxo da cultura popular, sobretudo a caipira, calcada na oralidade – tendia ao desaparecimento (grifo da autora).

A seleção de Lobato dos elementos culturais brasileiros dignos de representar a nação foi arbitrária. Seus reflexos estão na cultura popular das décadas seguintes, dependente dos registros escritos pioneiros, como os seus. De fato, as lendas brasileiras de Lobato tornar-se- iam todas conhecidas das crianças pelo território nacional, nas décadas subsequentes, e poderiam ter-se perdido caso não tivessem sido selecionadas – o que certamente ocorreu com tantos outros elementos ficcionais de cultura oral. A nacionalidade de Lobato era particular, um composto de recortes regionais que ajudaria a manter perfis de nacionalidades brasileiras no futuro14.

Essa arbitrariedade de recorte fica evidente ao se considerar a intenção nacionalista da obra lobatiana, sobretudo se contraposta à ideologia também declaradamente nacionalista posta em prática pelo governo Getúlio Vargas, com ápice no Estado Novo. Alguns dos livros de Monteiro Lobato foram proibidos e censurados nessa época por representarem aspectos culturais do exterior de maneira apologética15, ou por defenderem um Brasil diferente daquele no qual Vargas tinha interesse (como o caso das jazidas de petróleo no Sítio e no território nacional, em O poço do Visconde). Se Lobato tinha um discurso nacionalista, de exaltação da nação, seu recorte de o que seria uma “essência brasileira” não era unanimidade, muito pelo contrário: opunha-se ao ideário defendido pelo governo vigente e, de certo, também se diferenciava de muitas outras visões. Eram nacionalismos diferentes.

14 Faltam estudos que analisem como Lobato lida com as diferentes regionalidades que seleciona para compor

sua obra infantil. Certamente, características de determinadas regiões (possivelmente, a região do Vale do Paraíba seja um exemplo disso) apresentam-se de maneira mais forte e centralizadora do que outras (como lendas amazônicas ou sul-rio-grandenses, que podem ser representadas de maneira reduzida e pitoresca). Por isso, não parece pertinente afirmar que o Sítio é completamente nacional, ou “não regional”; isso seria similar a pensar em sua configuração de maneira universalizante. O aspecto regional do Sítio volta a ser analisado na seção 4 desta dissertação.

No documento Antropofagia no sítio : insólito ficcional e identidade cultural em Peter Pan, de Monteiro Lobato (páginas 36-40)