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3. UM MODELO PARA A COMPREENSÃO DOS FATORES E

3.2 Indicadores de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT)

3.2.1 O(s) sentido(s) e significado(s) do trabalho

Visto que a categoria trabalho está envolvida em todas as esferas da vida humana, cientistas de várias disciplinas têm estudado os sentidos e significados do trabalho extensivamente, cabendo destaque para a equipe de investigação Meaning of Work International Research Team (MOW, 1987) que desenvolveu, nos anos de 1980, estudos com amostras significativas em diversos países para identificar as variáveis que expliquem os significados que as pessoas atribuem ao próprio trabalho.

A motivação para estudar os sentidos e significados do trabalho tem se diferenciado de acordo com o foco de cada teórico e sua respectiva disciplina (por exemplo, existem estudos produzidos por cientistas políticos, filósofos, teólogos, sociólogos, antropólogos, economistas, psicólogos, juristas). Mesmo que essas áreas temáticas e disciplinas possam discordar sobre o que o trabalho representa, elas expressam uma preocupação em desenvolver sua contribuição com seu conhecimento específico sobre o trabalho e indicam que os sentidos e significados do trabalho são construtos complexos e sistêmicos (ANTUNES, 1999; ANTUNES; ALVES, 2004; BREEN, 2007; CARTWRIGHT; HOLMES, 2006; MICHAELSON et al., 2014; MORIN, 2001; ROSSO; DEKAS; WRZESNIEWSKI, 2010; STEGER; DIK, 2009; TOLFO et al., 2011; TOLFO; PICCININI, 2007).

Segundo Tolfo e Piccinini (2007), o significado do trabalho está relacionado com as representações que as pessoas formam sobre seu trabalho, bem como com o valor que atribuem a sua profissão/atividade. Tolfo e Piccinini (2007) também alertam que, se os seres humanos percebem ou reconhecem sua atividade laboral unicamente como uma obrigação necessária para satisfazer a sua sobrevivência econômica e material, tais pessoas podem perder a dimensão do trabalho como categoria integradora e que permite a formação de sua identidade pessoal e social. Nessa forma de trabalho alienada e sem sentido, muito comum em nossa sociedade capitalista atual, o trabalho deixa de ser uma fonte de realização e pode tornar-se fonte de sofrimento e adoecimentos diversos (ANTUNES, 1999; ANTUNES; ALVES, 2004; CLOT, 2006; ENRIQUEZ, 1999; ORGANISTA, 2006; ROSSO; DEKAS; WRZESNIEWSKI, 2010; TOLFO et al., 2011; TOLFO; PICCININI, 2007). Trataremos dos processos de saúde/doença relacionados com o trabalho nos próximos tópicos, onde debateremos mais sobre a questão.

Em uma abordagem mais gerencial, Wrzesniewski, Dutton e Debebe (2003, p. 99) indicam que o sentido do trabalho também pode ser compreendido como o “entendimento dos empregados daquilo que eles fazem no trabalho assim como a importância do que eles realmente fazem". Ambos os aspectos do sentido do trabalho estão relacionados às crenças de uma pessoa sobre a função que o trabalho desempenha na sua vida, que é afetada pelo contexto social no qual vivem os trabalhadores. Estudos evidenciaram que a estruturação do sentido do trabalho apresenta uma estabilidade ao longo do tempo (HARPAZ; FU, 2002) e está relacionada com a forma como as pessoas compreendem sua experiência nas instituições em que trabalham (CARTWRIGHT; HOLMES, 2006).

Segundo Geldenhuys, Łaba e Venter (2014), um trabalho significativo pode trazer benefícios para as organizações (produtividade, retenção e fidelização dos funcionários) e levar a resultados positivos também para os trabalhadores (maiores índices satisfação, engajamento e comprometimento individual com a organização de trabalho). Condições organizacionais que permitem aos trabalhadores terem um trabalho significativo podem ser um bom preditivo do engajamento com o trabalho e compromisso dos funcionários com a organização. Um trabalho significativo permite que os trabalhadores não só desenvolvam e exercitem suas capacidades individuais - pela satisfação/realização intrínseca de uma prática criativa - mas também permite obter satisfação/realização externos vindos do reconhecimento social e do sentimento de contribuição/participação na sociedade (CLOT, 2006; GELDENHUYS; ŁABA; VENTER, 2014; LEE; BURCH; MITCHELL, 2014; ROSSO; DEKAS; WRZESNIEWSKI, 2010).

Vale ressaltar que, para a análise dos sentidos e/ou significados do trabalho existem diversas abordagens teórico-metodológicas. Tolfo et al. (2011), ao analisarem a literatura referente aos sentidos e significados do trabalho,

classificaram cinco grandes abordagens que tentam compreender os sentidos e significados do trabalho, a saber: cognitivista, construcionista, sócio-histórica, existencialista e estudos culturais. Alguns estudiosos também estabelecem uma distinção entre sentidos e significados do trabalho (MORIN; TONELLI; PLIOPAS, 2007; TOLFO et al., 2011; TOLFO; PICCININI, 2007).

No contexto brasileiro, por exemplo, existem estudos sobre sentido/significado do trabalho com trabalhadores da construção civil (BORSOI, 2002); professores universitários de instituições públicas (VILAS BOAS; MORIN, 2013a, 2013b, 2014a, 2014b, 2014c); pessoas com deficiência (LIMA et al., 2013); trabalhadores afastados do trabalho (PAULA et al., 2014a).

Para Morin (2001, p. 09), um dos princípios que guiaria as organizações de trabalho seria “modificar o comportamento de tal forma que, gradualmente, os trabalhadores sejam conduzidos a desenvolver atitudes positivas com relação às funções executadas, à empresa que os emprega e a eles próprios”. No entanto, para modificar o comportamento dos funcionários, os gestores precisam se preocupar com as atividades de tais funcionários, com o significado do trabalho e com a qualidade de vida destas pessoas. Pensando em significado do trabalho, pode-se afirmar então que “o comprometimento com o trabalho constitui o principal indicador de uma organização eficaz” (MORIN, 2001, p. 09), de um trabalho de qualidade e de um ambiente saudável.

Assim sendo, Morin (2001, p. 16-18) afirma que o “processo de trabalho” ajuda o indivíduo a desenvolver sua identidade e a identidade com o próprio grupo de trabalho. Para essa mesma autora, algumas características/fatores do trabalho podem contribuir para que o trabalho tenha um sentido em si. Os principais aspectos são: a) ser realizado de maneira eficiente, sendo uma atividade produtiva que agrega valor a alguma coisa; b) ser intrinsecamente satisfatório - o prazer e o sentimento de realização que podem ser obtidos na execução de tarefas dão sentido ao trabalho; c) ser moralmente aceitável - por

ser uma atividade que se inscreve no desenvolvimento de uma sociedade, ela deve respeitar as prescrições relativas da sociedade, tanto na sua execução como nos objetivos que ele almeja e nas relações que estabelece; d) ser fonte de experiências de relações humanas satisfatórias, visto que o trabalho é também uma atividade que coloca as pessoas em relação umas com as outras, o que contribui para o desenvolvimento da identidade delas; e) garantir a segurança e a autonomia - em nossa sociedade o trabalho está associado à noção de emprego e regulado por uma remuneração que propicia prover as necessidades básicas, permitindo o sentimento de segurança, autonomia e independência e f) ser uma atividade programada que estrutura e permite organizar a vida diária com horários e rotinas, estruturando o tempo e a vida profissional.

Pratt e Ashforth (2003) propõem um modelo de distinção entre sentido do trabalho e sentido no trabalho. Neste modelo, o primeiro está relacionado com as características do trabalho e o segundo com as relações estabelecidas no trabalho, o que permite ao trabalhador responder às seguintes perguntas: o que eu faço? Quem sou eu? Por que estou aqui? Michaelson et al. (2014) e Pratt e Ashforth (2003) apresentam a hipótese de que o sentido que o indivíduo dá ao seu trabalho e seu ambiente de trabalho está relacionado com a sua própria identidade, bem como com o quanto o trabalho pode ser significativo para ele. Wrzesniewski, Dutton e Debebe (2003, p. 99) também afirmam que “os funcionários são motivados a obter um sentido para seus esforços”. Portanto, os sentidos do/no trabalho devem ser estudados nos diversos ambientes para, a partir destes resultados, contribuírem com o nível de satisfação dos trabalhadores.