O SISTEMA NACIONAL DE PROTEÇÃO AO CONSUMIDOR

No documento Vigilância Sanitária [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 46-48)

Como já se verificou, a Constituição é um documento político e jurídico, que assinala as conquistas sociais de um povo, refletindo sua organização. Assim, é fácil entender porque a defesa do consumidor foi incorporada ao texto constitucional brasileiro de 1988. Com efeito, o mesmo movimento que lutou contra os governos militares durante as décadas de 60 a 80, deste século, promoveu o retorno à norma- lidade constitucional e, conseqüentemente, a afirmação e o respeito aos direitos, que caracterizam a de-

20 Sempre citada, porque pioneira, a contribuição de ATALIBA,G. Normas gerais de Direito financeiro. São Paulo,Revista de Direito Público, vol.10,out/dez,1969. e a primeira síntese proposta por SILVA,J.A. Direito urbanístico brasileiro. São Paulo,Saraiva,1981.

21 Cf. .MOREIRA NETO,D.F. Competência concorrente limitada: o problema da conceituação das normas gerais. Brasília, Revista de informação Legislativa, a.25(100),out/dez 1988.

mocracia. Assim, tanto se buscava garantir o direito à saúde quanto proteger os direitos dos consumido- res, entre outros. A Constituição federal vigente assinala, portanto, que para garantir o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, o Estado promoverá a defesa do consumidor (C.F.art.5º, XXXII), erigindo como princípio da ordem econômica a defesa do consumidor (C.F.art.170, V). E, para que o Estado cumprisse sua função no que respeita a legislar sobre a responsabilidade por dano ao consumidor, estabelece a competência concorrente da União, dos Estados e do Distrito Federal nessa matéria (C.F.art.24, VIII). Verifica-se, desse modo, que, tanto para a proteção e defesa da saúde, quanto para a responsabilidade por dano ao consumidor, o critério adotado para fixar a competência le- gislativa foi o mesmo. Isso significa que, conforme já se examinou, a competência da União deve-se li- mitar ao estabelecimento das normas gerais, cabendo aos Estados e aos Municípios suplementá-las (art.24,§s1ºe 2ºc/c art.30,II)22.

Editado com o caráter de norma geral nacional, obedecendo ao que ficou determinado no artigo 48, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (não respeitando, porém, o prazo previsto: 120 dias após a promulgação da Constituição), o Código de Proteção e Defesa do Consumidor foi implemen- tado por meio da Lei federal nº 8 078, de 11 de setembro de 1990. Trata-se de uma regra geral, aplicá- vel a todo o território nacional, que disciplina as relações de consumo. É importante notar que em seu caráter de lei-quadro, o Código do Consumidor se preocupa em construir uma nova cultura de respeito ao consumidor, o elo mais fraco naquela relação. Assim, verifica-se que, já em seu primeiro artigo, essa lei reafirma sua aplicabilidade a toda a ordem pública e declara que seu intuito é proteger e defender o consumidor. E visando promover o respeito à dignidade, saúde e segurança e proteger os interesses econômicos do consumidor, bem como, promover a melhoria da qualidade de vida, a transparência e a harmonia das relações de consumo, institui a Política Nacional de Relações de Consumo (art. 4º). Por qualquer ângulo que seja examinada, o que fica evidente sempre, é que o grande objetivo da Lei fe- deral nº 8 078/90 é instaurar essa nova cultura no Brasil. Para tanto, são reforçados os comportamen- tos educativos e, mesmo, muitas das definições dela constantes têm sobretudo tal caráter. É o caso, por exemplo, da obrigação de o governo incentivar a criação e o desenvolvimento de associações repre- sentativas do consumidor; da necessidade de educação e informação de fornecedores e consumidores (art.4º,II,b e IV); da caracterização do produto defeituoso (art.12, §s 1º e 2º): da disciplina da responsa- bilidade (arts. 12 a 25 e 101 e 102).

O Código do Consumidor, enfatizando ainda sua característica de norma geral e frisando, igualmente, a necessidade de implantação dessa cultura de proteção e defesa do consumidor, criou o Sistema Nacio- nal de Defesa do Consumidor, integrado por órgãos federais, estaduais e municipais e por entidades pri- vadas de defesa do consumidor (art.105). Isso significa, por exemplo, que os órgãos de vigilância sanitá- ria, em qualquer das esferas de governo, devem integrar o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor. Tal é a opinião de Fink, que analisando o Decreto federal nº 2.101, de 20 de março de1997, que organiza esse sistema, afirma ser recomendável a integração dos órgãos de vigilância à saúde, inclusive, com os órgãos diretos de defesa do consumidor para que os primeiros considerem a visão dos consumidores em sua atuação23. Essa integração tem, portanto, caráter educativo. Entretanto, ela é indispensável ao órgão de defesa do consumidor quando se trata de atuar o poder de polícia. Isso porque, ficando com o exem- plo da vigilância à saúde, “o órgão de defesa do consumidor não é dotado do poder de polícia”24, neces- sitando, assim, notificar os órgãos competentes, sejam federais, estaduais ou municipais, para que sejam adotadas as medidas cabíveis. É claro que, como em todos os demais casos, havendo alguma forma de convênio destinada a ampliar as atribuições de polícia desses órgãos, tal ampliação é sempre possível. Com efeito, caso a vigilância sanitária de determinado Município deseje incluir entre seus fiscais aqueles do órgão de proteção e defesa do consumidor criado naquele Município, isso será possível sempre que houver acordo formal entre ambas as partes. Contudo, é indispensável reconhecer que houve a imposi-

22 Com a mesma conclusão, mas com diferente argumentação ALMEIDA,F.D.M. A repartição de competências na Constituição brasileira de 1988. São Paulo, Atlas, 1991. pag 101.

23 FINK, D. R. In VVAA Código brasileiro de defesa do consumidor. 5ª ed. Rio de Janeiro, Forense, 1998. pág. 751 24 Cf. FINK, D. R. ob. cit. pág. 753

ção legal (esclarecida no artigo 7º do Decreto federal nº 2.101/97) de um poder-dever de fiscalização das relações de consumo para os órgãos públicos, no âmbito de sua competência, fiscalizar as relações de consumo e autuar os responsáveis por práticas que violem os direitos do consumidor.

Finalmente, prevendo-se a eventualidade de conflito de atribuições, sempre possível de ocorrer quando se alarga a esfera de atuação de órgãos públicos, é necessário lembrar que tal conflito não se configura - no sistema jurídico brasileiro - em face de atribuições estabelecidas por decreto. De fato, como já foi observado, apenas a lei pode criar, modificar ou extinguir direito. Portanto, uma atribuição de função feita por lei a determinado órgão sempre deverá prevalecer sobre outra decorrente de decreto (ato administrativo, portanto) para outro. Quando, por outro lado, o conflito derivar de atribuições con- feridas por decreto entre diferentes órgãos do governo federal, existe previsão normativa designando o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor para dirimi-lo (Decreto federal nº 2.101/97, art. 5º, § ún.). O interesse do legislador ao estabelecer o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, contudo, longe de provocar disputas por atribuições, foi, conforme o que se verificou, instituir uma nova cultura de proteção e defesa do elo mais fraco da relação de consumo: o consumidor. Entretanto, quando não for possível evitar o conflito de atribuições nesse tema, será necessário recorrer ao Poder Judiciário.

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