O SISTEMA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA

No documento Vigilância Sanitária [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 48-50)

O Sistema Nacional de Vigilância Sanitária é uma decorrência lógica da obrigação de o Estado exe- cutar ações e prestar serviços destinados a eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde, alguns deles expressos no artigo 200 da Constituição federal. De fato, a organização sistêmica se adequa à forma fe- derativa do Estado brasileiro e, melhor ainda, ao federalismo de colaboração, onde elaborar a legislação de proteção e defesa da saúde é competências concorrente da União e dos Estados (C.F.art.24, XII e §s 1o e 2o) e suplementar dos Municípios (C.F.art.24, XII e §s 1o e 2oc/c art. 30,II) e cuidar da saúde é com- petência comum da União, dos Estados e dos Municípios (C.F.art.23,II). Além disso, respeitou-se a exi- gência constitucional de se construir um Sistema Único de Saúde que organizasse a ações e os serviços públicos para a promoção, proteção e recuperação da saúde – incluindo aqueles destinados especifica- mente a eliminar, diminuir ou proteger a saúde – em uma rede regionalizada e hierarquizada, adotando como diretrizes, a descentralização, o atendimento integral e a participação da comunidade(C.F.art.198). Já se verificou que a Lei Orgânica da Saúde (leis federais no 8080/90 e 8142/90) – LOS – disciplinou as ações e os serviços públicos ou assemelhados destinados a promover, proteger ou recuperar a saúde. Curiosamente – nessa lei, assim como na Constituição federal – as atividades destinadas à proteção da saúde são bastante enfatizadas, aparecendo tanto subsumidas na expressão vigilância sanitária, quanto expressas nas ações de controle e fiscalização de procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde, de participação na produção de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos, hemode- rivados e outros insumos sanitários; de execução das ações de vigilância epidemiológica e de saúde do trabalhador; de ordenação da formação de recursos humanos na área de saúde; de participação na for- mulação da política e da execução das ações de saneamento básico; de incremento do desenvolvimento científico e tecnológico na área da saúde; de fiscalização e inspeção de alimentos, bebidas e água para o consumo humano e de controle do teor nutricional dos alimentos; de participação no controle e fis- calização da produção, transporte, guarda e utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos; e de colaboração na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho (C.F.art.200 e lei federal no 8080/90, art.6o). Tal duplicidade fica bastante clara na definição de vigilân- cia sanitária dada pela LOS: “um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo: I – o controle de bens de con- sumo que, direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde, compreendidas todas as etapas e pro-

cessos, da produção ao consumo; e II – o controle da prestação de serviços que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde.” (lei federal no 8080/90, art.6º,§ 1º).

A edição da lei federal no 9.782/99, definindo o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária – SNVS –dá, portanto, conseqüência lógica aos mandamentos constitucionais e legais que organizam o sistema de saúde no Brasil. É necessário observar que, enquanto organiza o Sistema Nacional de Vigilância Sanitá- ria, essa lei tem característica de lei nacional. A lei reservou, assim, para a esfera federal a definição da política e do sistema nacional de vigilância sanitária, as atividades de normatização, controle e fiscaliza- ção de produtos, substâncias e serviços de interesse para a saúde e de vigilância sanitária de portos, ae- roportos e fronteiras e todas as atividades executivas em situações especiais de risco à saúde. E, atribuiu ao conjunto federativo a manutenção do sistema de vigilância sanitária propriamente dito e de um sis- tema de informações em vigilância sanitária (lei federal no 9.782/99, art.2º). Essa mesma lei criou, para a execução das atividades de competência da esfera federal, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA – admitindo a possibilidade de realização de convênios com as esferas estadual e municipal para a realização das atividades conjuntas, previstas no sistema.

A criação de agências reguladoras insere-se numa mudança ideológica da Administração Pública. Con- traditoriamente, apesar de incluírem em sua denominação o termo “reguladoras”, são uma das conse- qüências práticas do movimento de “desregulação” que caracterizou o neo-liberalismo contemporâneo. Busca-se confinar o Estado na execução das atividades que não podem ser delegadas e que, por isso, lhe são exclusivas; e deixar ou devolver para o âmbito da sociedade todas as atividades em que suas or- ganizações têm interesse e capacidade de realização. As agências reguladoras, no Brasil, estão sendo cri- adas como autarquias especiais, o que tem significado que - na legislação que as institui são garantidos os mecanismos de afirmação de sua autonomia em relação à Administração direta. Também, como ver- dadeiras autarquias, o poder de tutela25 detido pela Administração instituidora implica o controle de re- sultados, que nas chamadas agências reguladoras é mediado pelo “contrato de gestão”.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, criada como autarquia especial, teve sua autonomia carac- terizada pela independência administrativa, estabilidade de seus dirigentes e autonomia financeira. Sua fi- nalidade institucional é promover a proteção da saúde da população, realizando para isso as atividades de controle sanitário da produção e da comercialização de produtos e serviços submetidos à vigilância sani- tária e de controle de portos, aeroportos e fronteiras. Seu contrato de gestão, instrumento para a avaliação da atuação administrativa da autarquia, deve ser negociado pelo seu Diretor Presidente e o Ministro de Es- tado da Saúde. Sua autonomia financeira é garantida, especialmente, pela constituição da receita com base no produto resultante da arrecadação da taxa de fiscalização de vigilância sanitária; na retribuição por ser- viços de quaisquer natureza prestados a terceiros; no produto da arrecadação das receitas das multas re- sultantes das ações fiscalizadoras; além de outras fontes (lei federal no 9.782/99, arts.3º, 6º, 19 e 22).

É imperioso notar que a autonomia concedida à Agência Nacional de Vigilância Sanitária – pela lei de sua criação e disciplinada no seu regulamento (decreto federal no 3.029/99) e no contrato de gestão (assinado em 24 de agosto de 1999 com prazo de vigência de três anos) – não a exime da obrigação de respeitar as diretrizes estabelecidas para todo o sistema público de saúde. Assim, por exemplo, sempre que realizar atividades em conjunto com as esferas estadual ou municipal, a Agência Nacional de Vigi- lância Sanitária deverá submeter-se à direção do sistema naquela esfera de governo; e devem ser per- manentemente asseguradas as condições para o exercício da participação da comunidade na formulação de estratégias e no controle da execução da política de vigilância sanitária. Não se deve esquecer, con- tudo, que são atividades indispensáveis para a configuração de um sistema de vigilância sanitária a exis- tência de uma rede de laboratórios oficiais de controle de qualidade em saúde (a coordenação dessa rede foi reservada para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária - lei federal no 9.782/99, art.7º,XVII) e um sistema de informação integrado às demais ações de saúde, especialmente ao sistema de vigilân- cia epidemiológica (previsto na lei federal no 9.782/99, art.7º,XX).

22 É o poder de influir sobre as autarquias, circunscrito aos atos previstos em lei e às hipóteses nela prefiguradas. No ensinamento de Celso Antônio Bandeira de Mello, entre outros, o contrato de gestão seria instrumento tanto do controle preventivo quanto do controle a posteriori (in Prestação de serviços públicos e ad- ministração indireta. São Paulo, Revista dos Tribunais, 1975)

Pode-se concluir que o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária está dotado de uma base jurídica que lhe permite atender às exigências de obediência aos princípios constitucionais postos para a definição e implementação das políticas públicas, especialmente aquelas voltadas para a promoção e a proteção da saúde. Vários atos administrativos de natureza normativa serão ainda necessários para que se atinja a completude do sistema. É certo, contudo, que a estrutura legal hoje prevista não deverá servir de empe- cilho à realização do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.

No documento Vigilância Sanitária [Livro] - Biblioteca Virtual do NESCON (páginas 48-50)