O sistema recursal no Processo Civil francês

No documento Acesso à justiça na França e no Reino Unido: perspectiva comparada no Tribunal Europeu de Direitos do Homem (páginas 74-84)

2. ACESSO À JUSTIÇA: DELIMITAÇÃO DO TEMA

3.3 A jurisdição judiciária

3.3.2 O sistema recursal no Processo Civil francês

Um dos pontos mais marcantes do Processo Civil francês, em se tratando da compreensão do sistema recursal, é a ausência da summa divisio dos julgamentos em sentenças, decisões interlocutórias e despachos. A clássica divisão já esteve presente no ordenamento processual francês, embora com outra roupagem. Sua racionalidade truncada levou ao seu abandono, como esclarece Blery (2000, p.255):

34 É preciso não se confunda a extensão da expressão civil. O civil de a Justiça civil deve ser compreendido em seu sentido amplo, como toda a parte não penal da jurisdição comum. O civil de a matéria civil , por sua vez, aparece em sentido estrito, e designa, de modo residual, todos os casos apreciados pela Justiça civil fora de suas especializações (trabalhista, comercial, etc).

Antes do decreto de 28 de agosto de 1972, distinguíamos dois tipos de julgamento relativos à instrução: havia a decisão preparatória, que não afetava a matéria de fundo, ao contrário da decisão interlocutória, que tocava a matéria de fundo sem contudo julgá-la, ou seja, ela sugeria qual seria a decisão provável do tribunal sobre a matéria de fundo da ação, indicando que a medida de instrução conduziria a um determinado resultado. Ora, essa categoria jurídica particular era de uma impossibilidade lógica – ou o juiz soluciona o processo, vinculando-se ou vinculando outro juízo, ou ele não o soluciona, e então ele não se vincula nem vincula outro juízo, mas não há uma terceira alternativa. A decisão interlocutória era, em realidade, um julgamento misto, sem eficácia real, pois não vinculava o juízo (tradução nossa).35

A classificação que mais se aproxima da determinante cisão entre sentença e decisão interlocutória é aquela que distingue os julgamentos de fundo dos julgamentos antes de pronunciar o direito. Os julgamentos de fundo são definidos no corpo do artigo 480 do Código de Processo Civil, referindo-se às decisões passíveis de formar coisa julgada. Uma orientação técnica é ali fornecida para possibilitar sua identificação: tais decisões são aquelas que encerram a instância. Os julgamentos antes de pronunciar o direito são mais restritos que nossas decisões interlocutórias. São assim consideradas apenas as decisões que determinam medida de instrução ou medida cautelar. Sobre tais julgamentos, Gallet observa que destituídos da autoridade de coisa julgada, eles são igualmente suscetíveis de apelação, mas sob condições restritivas e,

35No original: Avant le décret du 28 août 1972, on distinguait entre deux types de jugements relatifs à

l instruction il y avait le jugement préparatoire qui ne préjudiciait pas au fond, au contraire du jugement interlocutoire qui, lui, préjugeait le fond, sans toutefois lier le juge, c est-à-dire qu il laissait entrevoir quelle serait la décision probable du tribunal sur le fond de l affaire, suivant que la mesure d instruction aboutirait à tel ou tel résultat . Or cette catégorie juridique particulière était une impossibilité logique – ou le juge tranche le fond, et lui-même ou un autre juge est lié, ou il ne tranche pas le fond et lui-même ou un autre juge n est pas lié, mais il n y a pas de troisième branche à l alternative. Le jugement interlocutoire était em réalité un jugement mixte, sans réelle efficacité, puisqu il ne liait pas le juge .

por vezes, sob reserva de autorização por parte do primeiro presidente. (2003, p. 7, em tradução nossa). 36

Em termos recursais, portanto, essa classificação pouco diz, na medida em que praticamente todas as decisões, com ou sem julgamento de fundo, são passíveis de apelação.37 Liga-se, por isso, muito ao modo de raciocínio jurídico francês, mais voltado para as engrenagens do sistema do que para os resultados. Mas o recurso de apelação não é o único.

São duas as modalidades ordinárias de recurso previstas no âmbito da Justiça civil, a apelação e a oposição. A apelação é definida como uma via de recurso de direito comum (também denominada via ordinária de recurso) de reforma ou anulação por meio da qual um reclamante remete o processo seja a uma jurisdição de grau superior, seja à mesma jurisdição, com uma composição diferente (CHARDON et al, 2010, p. 123, em tradução nossa).38 A oposição é considerada a via ordinária de recurso aberta à parte sucumbente contra as decisões nulas, ou seja, contra os julgamentos em última instância nas quais o réu não foi pessoalmente citado (ou intimado) e não compareceu ou não constituiu advogado nos casos em que a representação é obrigatória (CHARDON et al, 2010, p. 249, em tradução nossa).39 Bédon, atento à diferença, lembra que a correta qualificação

36 No original Quant aux jugements avant dire droit, dépourvus de l autorité de la chose jugée, ils sont

également susceptibles d appel, mais sous des conditions restrictives et parfois sous reserve d autorisation de la part du premier président.

37 O Código de Processo Civil acrescenta à categoria de outros julgamentos assim compreendidas as decisões que não são de fundo) as ordonnances sur requête e as ordonnances de référé.

38 No original: ... une voie de recours de droit commun (dite aussi voie de recours ordinaire) de réformation ou

d annulation par laquelle un plaideur porte le procès soit devant une juridiction de degré supérieur, soit devant la même juridiction autrement composée pour l appel des décisions rendues par la cour d assises en premier ressort).

39 No original: La voie de recours ordinaire ouverte au défendeur défaillant contre les décisions redues par

défaut, c est-à-dire contre les jugements en dernier ressort dans lesquels le défendeur n a pas été assigné ou réassigné à personne même et n a pas comparu ou n a pas constitué avocat dans les matières ou la représentation est obligatoire .

das decisões é função atribuída à parte e essencial para a definição do recurso cabível (2009, p. 3):

As exigências do Código de Processo Civil (CPC) e do Código de Processo Penal (CPP) impõem a identificação da via de recurso ou das vias de recurso que podem ser exercidas contra a decisão judicial que será objeto de uma notificação ou de uma intimação.Tal identificação exige a adequada classificação do julgamento.Com efeito, um julgamento pode ser mal qualificado. Fundar-se unicamente sobre a qualificação nele contida para determinar o recurso cabível no caso poderá conduzir a um segundo erro.Com efeito, o artigo 536, alínea 1 do CPC dispõe que a qualificação inexata de um julgamento pelos juízes que o prolataram não produz efeito sobre o direito de recorrer .Na prática, tal decisão não deve ser requalificada; mas a intimação deverá abrir a via de recurso correspondente à qualificação correta (tradução nossa). 40

A premissa de Bédon, embora correta e fundada em dispositivo expresso do Código de Processo Civil, não é exata para exprimir a realidade do Direito Processual francês. Não ao menos no que se refere ao primeiro grau de jurisdição, em que o recurso de apelação é, praticamente, a única opção existente. É que o outro recurso possível, a oposição, é adequado em hipótese absolutamente restrita, quando são prolatadas as chamadas decisões defeituosas. Assim, a única distinção de que o advogado precisará para decidir se recorre pela via da apelação ou pela via da oposição é aquela constante dos artigos 464, 473, alínea 1 e 473, alínea 2, quelhepermite constatar se a decisão é defeituosa ou não.

40 No original: Les exigences du Code de procédure civile (CPC) et du Code de procédure pénale (CPP)

imposent de déterminer la voie de recours ou les voies de recours pouvant être exercées contre la décision de justice devant faire l objet d une notification d une signification. Une telle détermination implique une juste qualification du jugement. Il peut en effet arriver parfois qu un jugement soit mal qualifié. Se fonder uniquement sur la qualification retenue dans la décision pour déterminer la voie de recours applicable en l espèce pourrait alors conduire à une deuxième erreur. En effet, l article alinéa CPC dispose que la qualification inexacte d un jugement par les juges qui l ont rendu est sans effet sur le droit d exercer un recours En pratique, une telle décision de justice ne doit pas être requalifiée mais l acte de signification doit ouvrir la voie de recours correspondante à la juste qualification.

Em termos práticos, portanto, a principal classificação das decisões é aquela fornecida pelo próprio Código de Processo Civil francês, por ter alguma utilidade para a identificação do recurso cabível, com a ressalva de que o recurso de oposição será o adequado em hipótese tão restrita e bem delimitada que somente será necessário em raros casos, inexistindo propriamente um impasse para o advogado em definir se deve manejá-lo. De se ressaltar que essa diferenciação é bastante criticada, na medida em que define as decisões não por seus efeitos, mas pelas circunstâncias em que são prolatadas.41

Com efeito, para o código há três grandes categorias de decisões: as decisões em contraditório, as decisões defeituosas e as decisões reputadas em contraditório. Os artigos 464, 473, alínea 1 e 473, alínea 2 ocupam-se, respectivamente, das definições. As decisões em contraditório são aquelas regulares, prolatadas quando as partes comparecem nos autos, pessoalmente ou por meio de advogado. As decisões defeituosas acontecem quando o réu, não sendo citado, não comparece nos autos nem constitui advogado. Essa qualificação somente poderá ser atribuída às decisões prolatadas em primeira e última instância, ou seja, quando a apelação não for cabível (é o caso, por exemplo, de causas cujo valor é inferior a 4.000 euros).

Sobram, por fim, as decisões reputadas em contraditório. Tem-se, nestes casos, uma equiparação às decisões em contraditório sem que de fato ele ocorra. Para tanto, é necessário que o réu tenha sido regularmente citado, exercendo seu direito potestativo de não se defender. Ou então, que a decisão seja passível de apelação, o

41 A propósito, ver Bléri (2000, p. 236).

que é suficiente para caracterizá-la como reputada em contraditório e para descaracterizá-la como defeituosa.42

Uma análise mais detida permite concluir que o recurso ordinário, por excelência, é a apelação, embora a oposição também seja assim tratada (como via ordinária de recurso). É que a classificação do código revela a preocupação de definir com rigor a hipótese de cabimento do recurso de oposição: apenas quando as decisões sejam defeituosas, ou seja, em que o réu não toma ciência oficial do curso do processo, e não comporte apelação. Em todos os outros casos a decisão é considerada regular, ou seja, se o contraditório não se instaurou, ao menos foi aberta tal oportunidade (com exceção da decisão defeituosa em que o recurso de apelação é cabível, hipótese em que é reputada em contraditório, tratando-se de uma ficção jurídica). Ensejará, portanto, a interposição de apelação.

Em geral, o prazo para que seja aviada a apelação é de um mês, mesmo prazo da oposição. Em se tratando de tutelas de urgência ou de hipóteses de jurisdição voluntária, o prazo para apelação é reduzido para quinze dias. No caso específico da oposição, sempre que haja o decurso do prazo in albis, ainda poderá ser interposto o recurso de cassação, cujo prazo de dois meses somente se inicia após o término do prazo para oposição. O procedimento que norteia a apelação é preponderantemente escrito, à exceção da ações em que se discute matéria social.

A apelação encontra, assim, uma gama ampla de hipóteses de cabimento, enumeradas no artigo 544 do Código de Processo Civil. Trata-se do recurso adequado para impugnar decisão definitiva que solucione totalmente a lide; para impugnar decisão de não recebimento da ação; para impugnar o julgamento de

42 Conclui-se, assim, que se uma decisão é prolatada sem a citação do réu, mas a ação não se encontra listada dentre aquelas insuscetíveis de apelação, ela será classificada não como uma decisão defeituosa, mas como uma decisão reputada em contraditório. Isto ocorre apenas para efeito de definição recursal.

exceção ou de qualquer outro incidente que coloque fim à instância; para impugnar decisão que, ao determinar uma medida de instrução, solucione parcialmente a lide; e para impugnar decisão que, ao determinar medida cautelar, também solucione parcialmente a lide. Os dois últimos casos são chamados pela doutrina de decisões mistas (que eram as antigas decisões interlocutórias do direito francês). A observação é de Gallet (2003, p. 18):

A possibilidade de interpor uma apelação imediata, deduzida da redação do artigo 543 do Código de Processo Civil, constitui a regra para os julgamentos que solucionam a totalidade do litígio. Essa regra é confirmada pelas disposições do artigo 544 do mesmo código, que a estendem aos julgamentos mistos e àqueles que colocam fim à instância (tradução nossa).43

Além disso, nos casos em que o recurso não pode ser manejado de modo independente, haverá sempre a possibilidade de se questionar o incidente processual após a prolação da decisão definitiva. Isso porque a apelação devolve à instância superior a apreciação de toda a matéria. Essas hipóteses são chamadas pela processualística francesa de exercício diferido do direito de apelação e comportam, em especial, os julgamentos que determinem medidas de instrução sem solucionar parte do litígio, que determinem medidas cautelares (também sem solucionar parte do litígio) e que solucionem exceções e outros incidentes sem colocar fim à instância. Nesse sentido, preleciona GALLET:

Resulta da combinação dos artigos 544 e 545 do Código de Processo Civil que as decisões antes de dizer o direito e os julgamentos de incidentes que não os especificados no primeiro artigo não podem ser objeto de uma apelação imediata, precisando o segundo artigo que, salvo exceções legais, eles não podem ser rebatidos por apelação de modo independente dos julgamentos de fundo. Os julgamentos sobre

43 No original La possibilité d interjeter un appel immédiat, qui se déduit de la rédaction de l article du

nouveau Code de procédure civile, constitue la règle pour les jugements qui tranchent l entier litige. Cette règle est, au demeurant, confirmée par les dispositions de l article du même code qui l étendent aux jugements mixtes et à ceux qui mettent fin à l instance .

uma exceção, um não recebimento ou todo outro incidente que não coloquem fim à instância são, assim, insuscetíveis de apelação imediata (tradução nossa).44

Há, entretanto, a possibilidade de uma decisão ser insuscetível de apelação imediata e a espera causar prejuízo à parte. Foi por isso que a jurisprudência criou a apelação nulidade. Trata-se da abertura da possibilidade de apelação imediata em casos não contemplados pelo Código de Processo Civil, fundando-se no excesso de poder praticado pelo juízo recorrido, em especial se houver violação manifesta a direito fundamental ou a princípio diretor do processo. A teoria da apelação nulidade também se aplica às ações insuscetíveis de recurso de apelação. Gallet, nesse sentido, esclarece que (2003, p. 34):

A apelação nulidade é considerada autônoma na medida em que não é ligada nem à existência nem ao exercício de um recurso de reforma. Segundo a fórmula elaborada pela Corte de Cassação nenhuma disposição pode proibir de fazer constatar, segundo as vias de recurso de direito comum, a nulidade de uma decisão revestida de excesso de poder , enunciado que também se estende às decisões prolatadas com violação de um princípio essencial ou fundamental do processo (tradução nossa). 45

A ausência de um recurso como o agravo de instrumento no Processo Civil francês é justificada, assim, pelo fato de a apelação suprir-lhe o papel, sobretudo após o advento da teoria da apelação nulidade. Com efeito, a apelação, quando não tem por objeto impugnar decisão definitiva, ainda assim pode ser

44 No original Il resulte de la combinaison des articles 544 et 545 du Code de procédure civile que les

jugements avant-dire droit et les jugements d incident autres que ceux visés au premier de ces textes ne peuvent pas faire l objet d un appel immédiat, le second texte précisant que, sauf exceptions prévues par la loi, ils ne peuvent être frappés d appel indépendamment des jugements sur le fond. Les jugements qui statuent sur une exception de procédure, une fin de non-recevoir ou tout autre incident sans mettre fin à l instance son ainsi insusceptibles d appel immédiat .

45 No original L appel-nullité est qualifié d autonome dans la mesure où il n est pas lié à l existence ni à

l exercise d un recours-réformation. Selon la formule parfois retenue par la Cour de Cassation aucune disposition ne peut interdire de faire constater, selon les voies de recours du droit commun, la nullité d une decision entachée d excès de pouvoir , cette énonciation étant aussi étendue aux décisions rendues en violation d un principe essentiel ou fondamental de procédure .

tratada com independência, sendo desnecessário aguardar sua prolação. São formados, assim, verdadeiros instrumentos de apelação. Além disso, em se tratando de indeferimento de assistência judiciária gratuita, há previsão, na França, de recurso próprio, constante do decreto 91-1266, interposto diretamente perante a Corte de Cassação (se a jurisdição for administrativa, o recurso é dirigido ao Conselho de Estado).

A oposição de terceiros guarda pouca relação com a oposição. É considerada via extraordinária de recurso, que encontra previsão nos artigos 582 a 592 do Código de Processo Civil francês. Trata-se do meio regular de um terceiro estranho ao processo manifestar seu inconformismo contra algum ato ali praticado que de algum modo lhe afete. O prazo para sua interposição é de dois meses, contados da intimação do terceiro sobre o ato praticado ou a decisão proferida. Se essa intimação não ocorre, é possível que se oponha ao julgado até trinta anos após sua prolação. Referido recurso é formado em autos apartados, como nas demandas incidentes. Quando a oposição de terceiros é decidida, serão cabíveis os mesmos recursos previstos para a ação principal, de acordo com o que dispõe o artigo 592.

A Justiça civil também conhece o recurso de cassação, considerado via extraordinária de recurso. É dirigido à Corte de Cassação, que é a instância superior da Justiça comum. Para o recurso de cassação, o Código de Processo Civil cuidou de estabelecer as decisões judiciais que por ele poderão ser impugnadas, deixando claro que não apenas as sentenças que julguem total ou parcialmente o caso estarão sujeitas à sua interposição. Também poderão ser objeto desta via de recurso, de modo independente, as decisões judiciais determinantes de medidas de instrução, medidas cautelares ou que coloquem fim à instância. Se comparado à apelação, é um recurso um pouco mais restrito, já que o código não previu seu cabimento para impugnar as decisões prolatadas em todas as exceções, mas apenas naquelas que coloquem fim à instância.

Importa sublinhar que o encerramento da instância não necessariamente é efetivado por uma sentença. É o caso, por exemplo, das exceções de incompetência que, se acolhidas, terão como consequência a remessa dos autos ao juízo competente. Importa que a decisão que põe fim à instância será passível de recurso de cassação, respeitado o grau de jurisdição anterior (no caso específico da exceção de incompetência, o primeiro recurso cabível é a contradita, como veremos adiante). As exceções conhecidas no Processo Civil francês são a exceção de incompetência, a exceção de litispendência, a exceção de conexão, as exceções dilatórias (que determinam a suspensão do processo) e as exceções de nulidade.

Nem todas as exceções ensejam o encerramento da instância e, portanto, não é o julgamento de qualquer delas que ensejará a interposição do recurso de cassação. Por outro lado, todas as decisões em exceção comportarão, primeiramente, o recurso de apelação (imediata ou diferida), exceto aquelas proferidas no bojo das exceções de incompetência e nas causas em que a apelação é vedada. No primeiro caso, será cabível a contradita, mas não o recurso de cassação. No segundo caso, ou restará o recurso de cassação a ser interposto diretamente (porque a exceção encerrou a instância) ou a decisão será irrecorrível. Não devemos ignorar, contudo, que a teoria da apelação nulidade poderá sempre ser invocada para combater a irrecorribilidade de decisões que gerem prejuízo à parte.

Embora as exceções não tenham natureza recursal, elas acabam funcionando como uma via à parte para a discussão das mais variadas questões, as quais, se não pudessem ser impugnadas por exceção, seriam discutidas no curso regular da ação (nulidades, litispendência, conexão, suspensão da lide principal). Hipótese plausível é a de que a ausência do agravo de instrumento é suprida não apenas pela amplitude do recurso imediato de apelação e mesmo pela existência da apelação diferida, como pela possibilidade de discussão mais rigorosa das questões em tela, com toda a atenção despertada por uma exceção. Acontece ocuparem as

No documento Acesso à justiça na França e no Reino Unido: perspectiva comparada no Tribunal Europeu de Direitos do Homem (páginas 74-84)