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3. Terceiro Capítulo

3.3. Benjamim diante do simulacro

3.3.3. O sobrado verde-musgo

Romance (p. 162-163)

O táxi entra num túnel iluminado, e Benjamim envolve a mão de Ariela, que continua cerrada, óssea. Na dianteira, um caminhão de lixo larga lufadas de fumaça, que Benjamim não se incomoda de aspirar fundo para declarar "Este é um dos melhores acontecimentos de minha vida". Metade da frase cai fora do túnel, em tom alto, e deve soar estapafúrdia à uma luz do dia porque Ariela recolhe a mão, e o motorista dá uma gargalhada rouca. Sacudindo o volante, dobra uma esquina com prédios de vidro e fala: "Um judeu levou a mãe ao planetário...". Interrompe-se ao relancear Benjamim pelo retrovisor, como a temer que ele seja judeu. Entretanto Benjamim começa a suspeitar que conhece aquele sujeito. Busco-o no espelho, mas é difícil identificá-lo porque ele usa uns óculos escuros com armação espessa de borracha, e agora pega a assobiar sem som, enrugando o focinho. E Benjamim sente mais desassossego ao distinguir o sobrado verde-musgo no final da rua. É para lá que o carro aponta, e antes mesmo que ele freie, Ariela já está com o pé no meio-fio. O motorista espera pelo desembarque de Benjamim, e arranca sem ter sido dispensado nem cobrar pela corrida. E Benjamim defronta o sobrado onde Castana Beatriz e seu amante costumavam se encontrar. vê-se a um metro da porta do sobrado onde Castana Beatriz e seu amante talvez se abraçassem e e se beijassem na boca. Vê Ariela que abre o cadeado e solta a corrente da porta do sobrado onde Castana Beatriz e se amante talvez se amassem às pressas, porque ela teria deixado a filha em casa de desconhecidos, e ele não poderia se atrasar para uma reunião com os dissidentes. Vê Ariela forçar a porta que está travada na soleira do sobrado onde Castana e seu amante talvez nem namorassem, porque necessitariam examinar uns mapas e discutir a América Latina. Vê a dobradiça que se desprende do batente, fazendo tombar a porta no assoalho do sobrado onde Castana Beatriz e seu amante namorassem com mais fervor, enquanto tramavam derrubar o governo. Vê bater o sol na muralha de pó, que Ariela atravessa para sumir no interior do sobrado onde, no dia do tiroteio, talvez Castana Beatriz tenha se jogado na frente do amante para morrer primeiro(...)

No sétimo e último capítulo do romance, Benjamim parece, finalmente, conquistar a atenção de Ariela; a ele já não interessa mais nada: viver a vida da moça é seu objetivo. Até o dia em que ela, depois de muitas indecisões, resolve conhecer o apartamento de Benjamim. Porém, sai do lugar correndo (com Benjamim atrás dela), entra em um táxi e pratica o mesmo "ritual" que fazia com muitos homens: seu destino é o "sobrado verde-musgo", que está para alugar, na mesma "rua 88". No filme, a maior parte desta cena é ambientada dentro do táxi, percorrendo vias da cidade; no caminho, Ariela chora muito, ao som de uma canção de Astor Piazzolla, o que acentua ainda mais a carga dramática do momento. Não há diálogo entre o motorista e Benjamim, como no romance; o imóvel também é bem parecido como aquele em que ocorreu a morte de Castana e seu companheiro, mas a câmera faz um passeio por ele, de baixo para cima: sua cor é verde, e Benjamim o examina rapidamente, enquanto Ariela entra na casa, correndo e chorando.

Narrativa fílmica (1:41min02s – 1:42min47s) Plano de imagem

Local

Ariela sai correndo da casa de Benjamim e para um táxi (cena feita com câmera na mão, tremida); inicia a música "Years of solitude", de Piazzolla, o que parece seguir o ritmo acelerado e ao mesmo tempo amargurado da cena.

Ao entrar no carro, Ariela diz, começando a chorar:

Ariela: Não, Benjamim!

Mas ele entra no automóvel mesmo assim. Ela não impede e diz ao taxista:

Ariela: Rua 88, moço, a última à esquerda. Vamos rápido, por favor.

No caminho, Ariela chora copiosamente,

Plano geral

Primeiro plano

Rua

apertando a chave do sobrado nas mãos e Benjamim a consola, dizendo:

Benjamim: Vai dar tudo certo. Você vai ver! Ela olha para ele, chorando, aparentando sentir piedade. O carro passa por um túnel longo e iluminado da cidade; ela continua chorando e ele olha e acaricia os cabelos dela.

O táxi para em frente ao sobrado, ela desce, correndo; antes de abrir a porta da casa, olha para ele e faz um gesto de lamentação com a cabeça. Ele paga ao motorista, sai do carro e avista o sobrado verde-musgo; a câmera

acompanha o olhar de Benjamim, em contra

plongée, mostrando todo o sobrado. Ariela entra correndo e Benjamim também entra, mas não a encontra. Abre várias portas da casa gritando:

Benjamim: Ariela! Ariela!

Plano de detalhe Primeiro plano Plano americano Primeiro plano Rua (em frente ao sobrado) Dentro do sobrado Fonte: elaborado pela autora

Cenas 17 a 22

Cena 17: Benjamim, na porta de seu prédio, corre atrás de Ariela, em plano geral.

Cena 18: Ariela, no táxi, aperta a chave do imóvel que levará Benjamim para a morte, em plano de detalhe.

Cena 19: Ariela, no táxi em movimento, passando por um túnel (como na narrativa literária) e chorando, enquanto Benjamim a consola, em primeiro plano.

Cena 20: Ariela, antes de entrar no imóvel olha para Benjamim e lamenta, enquanto ele sai do táxi, em plano americano.

Cena 21: Benjamim observa o "sobrado verde-musgo", com câmera em contra-plongée.

Em seu estudo sobre a obra Benjamim, Andréia Delmaschio (2014, p. 111), afirma que essa personagem vive como que fossilizado, ou suspenso no tempo. Segundo a autora, "a situação de Benjamim é aporética: vivo, carrega consigo a culpa pela morte de Castana, que o enluta como se morto estivesse. Por outro lado, livrar-se da culpa coincide com o encontro da própria morte, o que não lhe permite a vivência do perdão" (p. 111). Neste último capítulo, acontece a triste redenção de Benjamim Zambraia - ao acompanhar Ariela até o "sobrado verde-musgo", ele parecia saber que "se libertaria" de sua culpa pela morte de Castana, morrendo da mesma forma que ela, no mesmo local e por meio de Ariela, que ele acreditava ser filha de sua amada. A forma idealizada e irreal que Benjamim vivia,

criando seu próprio mundo, num ensimesmamento quase absoluto, reafirma o que

Baudrillard (1986, p. 50) denomina o apogeu do simulacro - as simulações de vida

que Benjamim projeta são tão intensas, que "atingem assim uma representação exorbitante da verdade, isto é, o apogeu do simulacro”.

A troca de olhares entre Ariela e Benjamim no caminho, dentro da táxi, parece algo fora de contexto: ela chora, ele a consola (cenas 18 e 19). Ela chora por saber que o está levando para a morte, pois atraia os homens que a cortejavam para esse fim, a mando do marido inválido. Já Benjamim, consola a moça sem saber por que, mas como tudo que faz em sua vida, acredita em algo que idealiza, pois está feliz, dizendo a ela que vai dar tudo certo, na certa acreditando que vão ficar juntos, mais uma projeção dissimulada que ele faz da concretização de seu amor por Castana em Ariela. Ao chegar no imóvel, a narrativa literária fixa fortemente a lembrança de Castana Beatriz na mente de Benjamim, ele a recorda com seu amante e pensa o quanto eles se amaram naquele local; no filme não há o flash da lembrança, Benjamim apenas parece titubear ao ver a casa e se mostra um pouco impactado ao vê-la de baixo para cima (cena 21).

Contudo, tendo como pressuposto que uma das categorias centrais deste trabalho é o espaço, torna-se interessante, neste momento, que nos debrucemos sobre a questão do "sobrado verde-musgo", local recorrente do início ao fim do

livro: é dele uma das lembranças mais fortes que Benjamim tem de seu passado, foi nele que ocorreu sua "sentença" de morte em vida (com o assassinato de Castana Beatriz) e é nele que se encerra, de vez, sua existência. Quando o chefe de Ariela, dono da imobiliária, determina que ela leve alguém para ver o imóvel, ele diz que "aquela é uma casa abandonada, degenerada pelas intempéries, cheia de infiltrações” (BUARQUE, 1995, p. 49). É possível associar a simbologia "casa abandonada", ao governo que desampara/abandona seu povo, ao que o governo militar fazia na vida dos indivíduos que lutavam a favor da democracia. Além disso, o sobrado metaforiza um Brasil dividido em classes sociais, posicionamentos políticos e econômicos. É dito a Ariela, também, que o dono do

imóvel sumiu: “é uma casa cujo proprietário desapareceu muito tempo atrás sem

deixar vestígios. Teria sido assassinado, segundo alguns. Ou viveria no

estrangeiro, segundo as autoridades da época” (BUARQUE, 1995, p. 49). O dono

do sobrado talvez fosse o prof. Douglas, que não desapareceu de fato, foi assassinato pela repressão policial da época, que perseguia intelectuais que defendiam a democracia. Interessante também lembrar que o termo "desaparecido" era muito utilizado pelos militares, de modo irônico, para designar os assassinatos que cometiam no período da ditadura, além da metáfora "viveria no estrangeiro", que se refere aos exilados, proibidos de viver no país de origem pelo governo militar.

Quanto à surpresa de Benjamim ao se deparar com o sobrado, a narrativa literária acentua essa passagem por meio de possíveis hipóteses que ele formula sobre a convivência de Castana e o professor; já na narrativa fílmica, a passagem é rápida: Benjamim olha, ligeiramente, de cima para baixo, a construção e logo

entra nela, a câmera posicionada em contra-plongée, deixando o sobrado com

aspecto de imponência e Benjamim numa posição inferior - é a pura representação do que aquele local fez/fará na vida do protagonista. Conforme já sugerimos, o imóvel foi uma construção importante na composição de toda obra: ele remete a lembranças dolorosas, sentimento de dor e culpa no protagonista. E, ainda, podemos imaginar o sobrado, grande e vazio, semelhante aos "casarões" do período militar, onde ocorriam mortes e tortura. Nesse período, muitos

indivíduos viveram grandes traumas, tiveram pessoas próximas desaparecidas, como ocorre com algumas personagens do romance: Jeovan, o marido de Ariela, com sua invalidez, metaforiza um torturado pelo regime; a própria Ariela, vigiada o tempo todo, seja pelo marido, pelo chefe ou até por Benjamim, simbolizando uma perseguida pelo sistema; e Benjamim Zambraia, que carrega o peso, a dor e a até a covardia por tudo aquilo que fez e/ou não fez durante a ditadura, terminando fuzilado, a caminho da reparação da angustiante culpa que viveu.