2 ADVENTO: A RE-VELAÇÃO DO DEUS QUE VEM
2.9 O Sofrimento que acolhe o Advento da Pátria
Segundo o Novo Testamento, a Cruz representa uma sucessão de entregas. O Filho se entrega ao Pai por amor aos seres humanos. Através dessa entrega, o Crucificado assume o sofrimento para redimir o passado, o presente e o futuro do mundo. O Cristo vive o mais profundo exílio de Deus para assumir o exílio dos pecadores na oblação e na reconciliação pascal. O grito de Jesus agonizante é o sinal do abismo da dor e do exílio que o Filho quis assumir para entrar no mais fundo do sofrimento do mundo e leva-lo à reconciliação com o Pai: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34; cf. Mt 27,46).
À entrega que o Filho faz de si, corresponde a entrega do Pai. Nesta entrega que o Pai faz do próprio Filho pelo ser humano, revela-se a profundidade do seu amor: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou-nos o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados” (1Jo 4,10). Assim, a cruz é a história do amor de Deus pelo mundo. O Verbo feito
171 O termo hebraico indica quer “coisa” ou “palavra”: os Setenta e o Novo Testamento dão o mesmo
duplo sentido ao grego “Logos”: cf. Gn 22,1.20; 40,1; 48,1; Lc 1,37; 2,15.19.51; At 5,32; etc. (FORTE, B. Fede e Ragione, tra Parola e Silenzio. Humanitas, v. 54, 1999/3, p. 391).
carne em seu advento assume a dor humana no seu extremo: “O Deus cristão revela uma dor ativa, livremente acolhida, perfeita na perfeição do amor: não é um Deus fora do sofrimento na sua imutável perfeição. O Deus vivo assume e vive o sofrimento de suas criaturas no modo mais intenso, como sofrimento ativo, dom e oferenda da qual surge a vida nova do mundo”.173
Assim, no êxodo das angústias e sofrimentos, a humanidade encontra o sentido da existência e da própria cruz da história, na Cruz de Jesus. Em Cristo, na Palavra advinda do Silêncio, a história dos sofrimentos humanos é também a história do Deus Cristão. Ele está na história para dar sentido ao sofrimento do mundo, porque o assumiu transformando sofrimento em amor. “Na Cruz, a ‘Pátria’ entra no exílio de nossa existência, para que a existência entre na ‘Pátria’: nela se nos depara a chave da história!” 174 Segundo Bruno Forte, a própria ressurreição não é senão tomada de posição do Deus vivo sobre o seu Cristo, no Espírito, com respeito ao passado da cruz: “sem a cruz a ressurreição é vazia; como de resto, sem a ressurreição a cruz é cega, sem futuro nem esperança. Se, pois, a ressurreição é evento da história trinitária, não menos o é a cruz: também a cruz é história trinitária de Deus!” 175
Se a ressurreição está intimamente ligada ao evento da cruz, não podemos falar da Pátria e do sentido a ser alcançado sem passar pelos sofrimentos, enquanto a Palavra do advento é via e mediação do próprio Silêncio do fim. O “já” realizado em Cristo remete ao “ainda não” consumado, que permanece escondido no Silêncio da Trindade. Assim, passando pela cruz, vislumbramos a ressurreição, na qual e pela qual, na força do Espírito, são feitas novas todas as coisas.
“É aqui que emerge o desafio ‘último’ que uma teologia da história, fundada no Crucificado-Ressuscitado, pode oferecer ao pensamento filosófico: ela não deverá somente testemunhar o advento, e, portanto, evidenciar a força objetiva da salvação que em Cristo toca todas as coisas e chama o homem à decisão suprema. Ela deverá, todavia, oferecer o sentido que encontram os humildes dias do êxodo, à luz do Deus que vem. Deverá resgatar não somente o hoje da decisão, com o seu não e o seu sim transformador, mas também as obras e os dias que o precedem e o seguem. A teologia da história se oferece, a esta luz, como uma teologia da esperança,
173 FORTE, B. A Essência do Cristianismo, p. 65. 174 Idem. A Trindade como História, p. 38. 175 Ibidem, p. 33.
fundada no evento trinitário da cruz e ressurreição do Filho, provocando a mesma filosofia a abrir-se a um novum incapturável, que faça dela uma forma possível de docta spes”.176
Percorrendo os caminhos do advento, a re-velação deixa, então, entrever a Pátria Trinitária como sentido do viver e do morrer humanos. Na cruz de Cristo – a Palavra revelada, advento de Deus – a cruz do mundo encontra seu sentido. É dessa forma que o encontro toma forma de comprometimento, de aliança, de responsabilidade pelo outro:
“A ética é o campo que delineia o paradoxo de um Infinito em relação ao finito sem se negar nessa relação. A ética é a explosão da unidade original da apercepção transcendental, isto é, além da experiência. Testemunhado – e não tematizado – no sinal feito para o outro, o Infinito exprime-se a partir da responsabilidade para com os outros, de um pelo outro, em um sujeito que tudo suporta – submetido a tudo –, ou seja, que sofre por todos e é responsável por tudo”.177
A Palavra, em sua sublime e inesgotável Alteridade, abraça a alteridade humana, num encontro que transforma a vida, porque comprometida com ela até o fim. No dom da própria vida, a cruz de Cristo é a maior prova e sinal desse comprometimento e amor de Deus com o ser humano. A cruz abre caminho à ressurreição e a uma esperança sempre nova. É assim que, entre o “já” e o “ainda não” da revelação, o ser humano peregrina em direção à Pátria. Entre as cruzes da história, caminha para a ressurreição, à luz da cruz de Cristo. Entre o “já” do encontro com Cristo, o ser humano espera o “ainda não” do encontro definitivo. Portanto, o cristão deve ser por excelência, portador de esperança. Esperança que não nega o valor do presente e do mundo em seu caráter dramático e complexo, mas que, a exemplo de Cristo, o Verbo encarnado, assume a história como protagonista da esperança, como “reserva” que transforma desde já o mundo e a vida.
176 FORTE, B. Cristianesimo e Problema del Senso, per um Dialogo fra Teologia e Filosofia. Asprenas, v. 38, 1991/7-8, p. 440.
Traçados os caminhos do advento neste segundo capítulo, conclui-se que o advento constitui para o ser humano a possibilidade do encontro com o Outro, com o sentido e a liberdade. No livre acolhimento do Eterno, o ser humano depara-se com Aquele que é a fonte, o caminho e o próprio fim do peregrinar humano. Em meio às dores e questionamentos da história e do coração humano, irrompe a novidade: “Deus vem!” Aflora a esperança; o advento de Deus é revelação.
Na revelação, a Eternidade entra no tempo como antecipação do encontro “já” realizado em Cristo, e “ainda não” plenificado. É o que Bruno Forte entende como ponto fundamental para a compreensão da revelação cristã. Entre a offenbarung (“manifestação”) e a re-velatio (na dialética do “desvelar, velando”), a categoria encontro se dá entre o “já” da salvação, e o “ainda não” do desejo e da sedução do divino que permanece velado ao ser humano. É assim que a sublime Alteridade divina encontra-se com a alteridade humana, assumindo e divinizando a condição humana, destinando-a para a Pátria Trinitária.
Através da linguagem reveladora, própria da teologia cristã, se dá o advento de Deus através do Verbo que, sem esgotar-se, remete ao Silêncio. Assim, na dialética da revelação, a Trindade apresenta-se re-velada, Mistério de comunhão para a vida e a história humana. O advento da Palavra e do Silêncio manifesta a condescendência divina que vem ao encontro do ser humano em sua kenose, sublime expressão da alteridade e da doação divina.
A partir do advento re-velador de Deus, delineiam-se os caminhos para o encontro. Afinal, como se dá o encontro entre êxodo e advento? De que forma a esperança cristã apresenta-se como resposta à questão do sentido da existência? Entre o “já” e o “ainda não”, toma forma o novum da esperança cristã.