Ao abordarmos a educação nos aspectos de sucesso e fracasso escolar é importante, inicialmente, relembrar que o contexto educacional da escola, desde seus primórdios, produz e reproduz a desigualdade, reflexo da sociedade seletiva, desigual e excludente à qual pertencemos. E ressaltamos que prioritariamente tratemos do fracasso nas escolas (suas causas e consequências), para que, então, seja possível traçar um caminho para o sucesso.
Nesse sentido, compreender o significado das palavras empregadas é fundamental para o entendimento desta abordagem, portanto, ―sucesso‖ segundo a definição de Aurélio B. H. Ferreira (2000) é ―acontecimento; ocorrência. Resultado, conclusão. Resultado feliz. [...]‖ (p. 651). E ―fracasso‖ define o mesmo autor como ―mau êxito; malogro; ruína‖ (p. 331).
Bruno e Abreu contribuem argumentado que ―falar sobre o fracasso escolar implica necessariamente explicitar antes o que assumimos como seu contraponto: o
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Ação-reflexão-ação: Conforme Freire, ―o pensar certo sabe, por exemplo, que não é a partir dele como um dado dado que se conforma a prática, mas sabe também que sem ele não se funda aquela. A prática docente crítica, implicante do pensar certo, envolve movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer (1996, p. 38).
sucesso escolar ou o sucesso do processo educacional [...]‖ (2010, p. 94), que perpassa as barreiras do ensino e, ainda segundo os mesmos autores:
Se insere numa perspectiva de formação do humano em dimensões que transcendem as esferas do intelectual e do cognitivo para solicitar o entrelaçamento com outros aspectos que compõem a expressão do homem no mundo: a intuição, os afetos, a ética, a estética, a espiritualidade - a história‖ (2010, p. 94).
O sucesso/fracasso escolar dependem não só, mas fundamentalmente, do modo como se dá o processo educacional nessa instituição. As escolas estão carentes, conforme Bruno e Abreu, de ―uma ação reintegradora das dimensões do homem e uma prática social mediadora das interlocuções entre o homem, o conhecimento, a ciência, a realidade; enfim, da interlocução do homem com a vida‖ (2010, p. 94). As palavras dos autores vêm ao encontro dos propósitos desta dissertação quando ressaltam a importância de resgatar os valores humanos (éticos e morais) para uma educação emancipadora.
As principais consequências do fracasso escolar são o analfabetismo, a repetência e a evasão escolar que ocorrem em consequência de diversos fatores, tais como: falhas na concepção e metodologia de avaliação adotada pela escola/professor, realidade vivida pelo aluno, condições/oportunidades de aprendizagem, descaso com a educação (valorização dos profissionais, qualidade de material didático, etc.) Bruno e Abreu explicam que o sucesso escolar que buscamos na/para a educação, pautada num caráter mediador, concebe uma educação escolar que possa se ―constituir num território em constante movimento de ressignificação do homem, considerando e valorizando seus saberes, seus sentimentos, suas diferenças socioculturais e, sobretudo, propiciando o desenvolvimento de uma compreensão crítica da realidade‖ [...] (2010, p. 95).
O supervisor educacional, como membro importante da equipe gestora, age justamente nos meandros destes fatores, intermediando os agentes e instrumentos que, mediante a educação escolar, resultam na formação integral dos sujeitos. Por sua vez, o supervisor emprega métodos próprios para agir da maneira mais eficaz e coerente no meio em que atua.
O supervisor educacional, porém, faz opções sobre as formas de agir, podendo adotar métodos de supervisão tradicionais ou que visem a uma educação transformadora e mais humana, na tentativa de amenizar e/ou solucionar os altos índices de fracasso escolar.
Considerando as transformações econômicas, políticas e culturais que caracterizam o mundo contemporâneo e que afetam diretamente o nosso sistema educativo, é importante pensar na responsabilidade da função supervisora quanto ao sucesso/fracasso na educação atual, pois o supervisor é o principal responsável pela mediação das relações pedagógicas. Cabe a este profissional a iniciativa de idealizar e estabelecer estratégias de organização/reorganização do trabalho escolar, dinamizando o fazer pedagógico.
Assim como qualquer outro profissional da educação, mas especialmente por lidar também com questões burocráticas da escola, o supervisor deve ser conhecedor da legislação e da estrutura organizacional não só da escola, mas também do sistema como um todo para compreender as ligações do espaço escolar com o sistema de ensino, das políticas públicas e do contexto social, para articular as práticas pedagógico-didáticas com essa realidade.
Assim, no que diz respeito ao sucesso ou fracasso da escola, o supervisor tem uma importante participação e influência nesse processo, articulando e mediando as ações pedagógicas com coerência, segundo a legislação vigente e a proposta pedagógica da instituição.
Dentre as leituras que fizemos para a elaboração desta dissertação, um artigo de uma revista chama a atenção pelo fato de discutir possibilidades de como tornar a escola mais eficaz e superar as causas e consequências do fracasso escolar. Em Chamusca (2006, p. 10), o autor expõe sobre a importância da coletividade e do trabalho harmônico na escola, e faz suas argumentações em dez pontos principais:
1 – Gestão participativa: participação da comunidade escolar nas decisões e atividades promovidas pela escola, chamando-as também para a responsabilidade da educação dos sujeitos.
2 – O estudante é o cliente10 da escola: conscientização do aluno como ser responsável por si, pelo seu projeto pessoal e organização dos estudos e da vida em geral.
3 – A escola exerce um papel social: a escola tem um papel transformador das carências da sociedade mediante o processo de ensino e aprendizagem que ocorre neste espaço.
4 – Comprometimento da equipe escolar e da comunidade: é importante para efetivar a união e o trabalho coletivo e organizado.
5 – A qualidade de ensino: precisa ser garantida primeiramente pelo comprometimento e pela qualidade de ensino dos professores, que precisam constantemente de momentos de formação continuada visando a sua atualização, promovendo, assim, momentos também de reflexão sobre sua prática pedagógica.
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Para Chamusca o termo ―cliente‖ no item 2, refere-se a aluno. Embora não concorde com o termo, as demais colocações são de relevância para dialogar no texto.
6 – Organização escolar: para que o ambiente escolar seja organizado, primeiramente necessita de profissionais que se mantenham atualizados sobre as informações acerca do espaço físico, da demanda que atendem na escola, os índices de aprovação e reprovação, bem como o controle de rendimento da aprendizagem destes e sobre as questões financeiras.
7 – Plano de Desenvolvimento Escolar: por meio deste se estabelecem metas, planos, objetivos, e se criam mecanismos de manutenção e funcionamento da escola.
8 – Autonomia da escola: capacidade da escola em se autogerir, avaliar, captar recursos, etc.
9 – Acompanhamento e controle: estabelecido por intermédio da equipe gestora que acompanha e controla as ações do Plano de Desenvolvimento Escolar.
10 – Direção dinâmica e envolvente: precisa estar à frente destes dez itens citados e manter comunicação com o órgão executivo competente e comunidade envolvidos naquele espaço escolar.
De quem é a responsabilidade pelo fracasso escolar? O supervisor educacional e a equipe gestora são responsáveis por fazer acontecer as ações pedagógicas, bem como pela manutenção e controle da organização escolar. Como o trabalho na escola é coletivo, a responsabilidade não é de um ou de outro, mas do coletivo, portanto, algumas causas do fracasso escolar podem ocorrer em virtude de falhas de comunicação ou de entendimento no trabalho em equipe deste grupo.
Como descrito por Grinspun:
Para ajudar neste processo amplo, os professores podem contar com os especialistas, não para separar o todo escolar em partes, mas para tentar ajudar a entender e dinamizar a escola, propiciando meios e condições para melhor formar o aluno, enquanto pessoa humana. Esta é uma tarefa em que Orientadores e Supervisores podem atuar/trabalhar, em conjunto beneficiando a Escola e seus protagonistas (2008, p. 150).
Ter clareza da função/ação do supervisor escolar bem como da filosofia de trabalho da instituição educativa é importante para que possamos fazer um trabalho sólido e teoricamente fundamentado, para entender: Quais os objetivos da escola? O que é feito para alcançá-los? As perguntas, ao mesmo tempo em que são provocativas e motivo de constante reflexão, não têm uma resposta única. Talvez seja isto que esteja faltando – clareza, definição dos meios e fins da educação – para, a partir daí, refletimos sobre a tarefa que está prescrita e a que é realizada de acordo com o que a escola demanda hoje.
Faz-se importante observar os sintomas do fracasso escolar, para que se tome medidas pedagógico – didáticas na tentativa de contornar a situação traçando caminhos para o sucesso escolar na perspectiva de uma educação mais humana.
Neste viés, o sucesso/fracasso da escola não é só uma preocupação da equipe gestora da escola, mas sim de todos os sujeitos que a integram, principalmente dos professores, que são aqueles que efetivam o processo ensino e aprendizagem. Nesse sentido, afirma Garcia: ―o educador consciente assume como luta sua a realização das possibilidades de a escola servir aos interesses reais das classes populares‖ (2010, p. 14).
Considerando as abordagens deste capítulo queremos colaborar para reflexão- ação dos gestores, educadores das escolas, a fim de mobilizá-los para uma mudança do cenário educacional.
A partir das ideias teórico-conceituais deste primeiro capítulo, no próximo abordaremos a problemática da ―função‖ supervisora mais especificamente, explicitando o contexto educacional atual pautado na natureza e especificidade da escola e no paradigma da complexidade.