CAPÍTULO VI A RETÓRICA DO POLÍTICO: A CRÍTICA DE
6.2 O surgimento da propriedade e a desigualdade nascente
Dois acontecimentos vão ser fundamentais na formação da sociedade civil: a propriedade e as leis. No estado de natureza, a terra fornecia ao homem todas as suas necessidades básicas: “As produções da terra forneciam-lhe todos os socorros necessários, o instinto levou-o a utilizar-se deles”225. Intocável e virgem, a terra cuidava
de toda espécie que habitava sobre a terra. Na proporção em que o homem disse: “isto é meu” (Ceci est à moi) e os outros acreditaram, não se sabe se por covardia ou por ingenuidade, esse cenário maravilhoso começa a corromper-se.
A ideia do “isto é meu” representa, efetivamente, o início da sociedade civil. Rousseau, por vezes, quando cita essa expressão, parece fazer referência a Nuñez Balboa, que tomou posse de todo o mar do sul e da América Meridional, em nome da Coroa de Castela, sem se importar com os habitantes que lá já estavam, conforme o Contrato
Social226. O “isto é meu”, além de identificar a posse de algo a alguém, identifica também
a acomodação daqueles que permitiram a violação do estado natural com a instituição da propriedade:
O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado o terreno lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: ‘defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!’227.
A frase “isto é meu” dilacera assim com tudo que a natureza havia moldado para o homem, rompendo decididamente com o tempo da natureza e iniciando o tempo da sociedade. Inicia-se também o tempo da linguagem como instrumento de violência política. Ainda assim, não podemos identificar essa passagem do texto como uma simples negação de Rousseau à propriedade. O “isto é meu”, na medida em que rompe com toda a ordem natural, pondo em xeque os ideais de igualdade e liberdade, parece ser
225 ROUSSEAU. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, op. cit.
p. 260, O. C. III, p. 165.
226 ROUSSEAU. Do Contrato Social, op. cit., p. 38. O. C. III, p. 366.
227 ROUSSEAU. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, op. cit.
necessariamente um mal para a humanidade. A igualdade pressupõe a utilização da terra e dos seus frutos sem a ideia de posse, por isso não pode haver igualdade quando alguém diz: “isto é meu”, naquele contexto.
O mesmo não podemos afirmar quando o assunto é a propriedade. O próprio Rousseau não deixa isso claro, ao afirmar, de um lado; que o homem natural não tinha a noção do “meu” e “teu”, e, por outro lado; quando coloca a propriedade como “último termo do estado de natureza”. O que nos leva a pensar que o significado conceitual do “isto é meu”, não é, em absoluto, o mesmo que propriedade, conforme citação:
Grande é a possibilidade, porém, de que as coisas já então tivessem chegado ao ponto de não poder mais permanecer como eram, pois essa ideia de propriedade, dependendo de muitas ideias anteriores que só poderiam ter nascido sucessivamente, não se formou repentinamente no espírito humano. Foi preciso fazer-se muitos progressos, adquirir-se muita indústria e luzes, transmiti-las e aumentá-las de geração para geração, antes de chegar a esse último termo do estado de natureza228.
No nosso entendimento, quando alguém disse: “isto é meu”, as coisas chegaram a um ponto de não poderem mais ser como eram. Em outras palavras, parece que a partir desse instante, ser e parecer não eram mais a mesma coisa. É válido salientar que desigualdade não é o mesmo que diferença. No estado de natureza há diferenças entre idade, tamanha, força, sexo. Essas diferenças não são absolutamente más por fazerem parte da própria natureza humana. Portanto, afirmar que não havia desigualdade no estado de natureza, mas sim no estado civil nos leva a pensar em outras categorias assimiladas e impostas no consórcio entre os homens: a propriedade, o direito do mais forte, a lei, o governo despótico. Todas elas são fruto da sociabilidade, conforme citação:
Conclui-se dessa exposição que, sendo quase nula a desigualdade no estado de natureza, deve sua força e seu desenvolvimento a nossas faculdades e aos progressos do espírito humano, tornando-se afinal, estável e legítima graças ao estabelecimento da propriedade e das leis229.
O texto é claro: a origem e o progresso da desigualdade moral ou política têm sua estabilidade e legitimidade no “estabelecimento da propriedade e das leis”. Mas, a
228 Id. ibid., p. 260, O. C. III, p. 164. 229 Id. ibid., p. 282, O. C. III, p. 193.
dificuldade em entender a mesma propriedade como “último termo do estado de natureza” permanece. A propriedade não sendo um direito natural,mas o “último estágio do estado de natureza” nos leva a entender que ela é o limite que leva à transição do estado de natureza para o estado civil. Contudo, não é fácil estabelecer o estatuto da propriedade em Rousseau. Podemos identificar as palavras: trabalho, “isto é meu”, metalurgia, agricultura, necessidades, força, violência, progresso, indústria, luzes e direito, que são algumas expressões que Rousseau põe lado a lado com a propriedade.
Para Goldschmidt (1983)230, a origem da propriedade em Rousseau se desenvolve
ante a tensão entre o fato que inclui a partilha da terra e a ocupação dela, e o direito, que inclui a convenção231. Houve um momento na história, no estado primitivo, que fato e
direito estavam unidos. Conforme Goldschmidt (1983, p. 497) reportar-se à origem da propriedade para Rousseau significa entender em que momento direito e fato se separaram. E isso se deu com o progresso da humanidade e o desenvolvimento da desigualde política entre os homens.
A ambição em querer ficar acima dos outros fez com que os homens produzissem os frutos da terra não mais para suprir suas necessidades básicas, mas para lucrarem, à custa do suor dos outros. Gradativamente a imagem idílica dos primeiros tempos se transforma em quadros sucessivos que mostram os horrores humanos. A desigualdade se alastra dentro da propriedade, nos germes da sociedade civil contrariando a ordem natural, como nos relata Rousseau:
Mas, desde o instante em que um homem sentiu necessidade do socorro do outro, desde que se percebeu ser útil a um só contar com provisões para dois, desapareceu a igualdade, introduziu-se a propriedade, o trabalho tornou-se necessário e as vastas florestas transformaram-se em campos aprazíveis que se impôs regar com o suor dos homens e nos quais logo se viu a escravidão e a miséria germinarem e crescerem com as colheitas232.
Um outro fator importante relacionado à propriedade está em uma frase de Locke, citado por Rousseau: “Não haveria afronta se não houvesse propriedade”233. A
230 GOLDSCHMIDT, Victor. Anthropologie et politique. Les principes du système de Rousseau. Paris :
Librairie Philosophique J. Vrin, 1983.
231 Id. Ibid., p. 495.
232 ROUSSEAU. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, op. cit.
p. 265, O. C. III, p. 171.
propriedade, uma vez estabelecida, é palco de inúmeros conflitos, devido à ganância e a ambição dos homens. É inevitável para Rousseau conceber a ideia de propriedade fora desses conflitos. É a posse contínua da terra, resultante da colheita pelo trabalho, que gera o direito de propriedade. Esse direito não é um direito natural, como em Locke, mas fruto da convenção humana, conforme citação:
Quando os antigos, diz Grócio, emprestaram a Ceres o epíteto de legisladora e a uma festa celebrada em sua honra o nome de Tesmoforia, com isso quiseram dar a entender ter a partilha das terras produzido uma nova espécie de direito, isto é, o direito de propriedade, diverso daquele resultante da lei natural234.
Isso se deve ao fato de que as necessidades básicas não mais satisfazerem os homens. Os mais fortes e os mais habilidosos, descontentes com o que tinham, passaram a submeter outros homens a seus serviços, interessados no seu trabalho e nas suas posses. O homem passou a depender do outro e a igualdade natural foi gradativamente sendo substituída pela nascente desigualdade política, gerando a dominação, a servidão, a violência e o roubo.
A propriedade tornou-se o lugar dos conflitos, decorrendo daí uma verdadeira guerra entre poderosos e miseráveis, cada um alegando para si o direito de propriedade. Mais uma vez, o espetáculo belo, feliz e inocente caracterizado pelo estado de natureza foram transformados em um cenário catastrófico, em que a ambição e a ganância ditavam as regras entre os homens:
Assim, os mais poderosos ou os mais miseráveis, fazendo de suas forças ou de suas necessidades uma espécie de direito ao bem alheio, equivalente, segundo eles, ao de propriedade, seguiu-se à rompida igualdade a pior desordem; assim as usurpações dos ricos, as extorsões dos pobres, as paixões desenfreadas de todos, abafando a piedade natural e a voz ainda fraca da justiça, tornaram os homens avaros, ambiciosos e maus. Ergueu-se entre o direito do mais forte e do primeiro ocupante um conflito perpétuo que terminava em combates e assassinatos. A sociedade nascente foi colocada no mais nascente estado de guerra; o gênero humano, aviltado e desolado, não podendo mais voltar sobre seus passos nem renunciar às aquisições infelizes que realizara, ficou às portas da ruína por não trabalhar senão para sua vergonha, abusando das faculdades que o dignificam235.
234 Id. ibid., p. 266, O. C. III, p. 173-174. 235 Id. ibid., p. 268, O. C. III, p. 176.
O direito do mais forte encontra sua justificativa no poder da força, o que para Rousseau constitui uma grande falácia, temática retomada e também duramente criticada no livro I do Contrato Social236. Ainda assim, no Segundo Discurso, a força física não foi
suficiente para manter o domínio de uns sobre outros. Segundo Rousseau, essa execrável história da humanidade não termina aqui. O uso da força é apenas um componente não muito importante na origem do Estado. Tudo leva a crer que se fosse apenas pelo uso da força, essa guerra entre ricos e pobres não chegaria ao seu fim.
Portanto, há algo mais sutil que Rousseau percebe na origem da sociedade e do governo, algo que está além da força. A essa forma sutil de dominação Rousseau cita no texto como: “razões especiosas” (raisons spécieuses)237 que pode ser interpretada como
um projeto bem montado capaz de acabar com as guerras e ratificar ainda mais o poder dos ricos e poderosos. Isso não se deve por uma questão de amor à paz e a concórdia por parte dos que propuseram o acordo.
Essa forma sutil de dominação acontece quando, uma vez acuados pela multidão de miseráveis, sem forças para se unirem, devido aos ciúmes mútuos e aos gastos proporcionados pelas guerras, os ricos astutamente deixaram de atacar os pobres, para se dizerem seus defensores, acalmando a revolta e instituindo seu domínio de uma forma mais delicada, porém não menos perigosa. Com discursos eloquentes, os ricos e poderosos clamavam pela segurança de ambas as posses, quando instituíram para sempre a lei de propriedade.
Poderosos e ricos se diziam defensores dos fracos e afirmavam conter a ambição, instituindo o governo e as leis com o intuito de defender os pobres, quando, na verdade, estenderam “guirlandas de flores” em terríveis algemas, fazendo-os escravos legítimos ao preço de uma liberdade fictícia. Rousseau até ensaia um possível discurso, proferido pelos ricos, capaz de arrebatar e seduzir os homens justificando assim as “razões especiosas” como fundamentais para um estabelecimento político:
Com esse desígnio, depois de expor a seus vizinhos o horror de uma situação que os armava, a todos, uns contra os outros, que lhes tornava as posses tão onerosas quanto o eram suas necessidades, e na qual ninguém encontrava a segurança, fosse na pobreza ou na riqueza, inventou facilmente razões especiosas para fazer com aceitassem seu objetivo: “Unamo-nos”, disse-lhes,
236 ROUSSEAU. Do Contrato Social, p. 25-26. O. C. III, p. 354-355.
237 ROUSSEAU. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, op. cit.
“para defender os fracos da opressão, conter os ambiciosos e assegurar a cada um a posse daquilo que lhe pertence; instituamos regulamentos de justiça e de paz, aos quais todos sejam obrigados a conformar-se, que não abram exceção para ninguém e que, submetendo igualmente a deveres mútuos o poderoso e o fraco, reparem de certo modo os caprichos da fortuna. Em uma palavra, em lugar de voltar nossas forças contra nós mesmos, reunamo-nos no poder supremo que nos governe segundo sábias leis, que protejam e defendam todos os membros da associação, expulsem os inimigos comuns e nos mantenha em concórdia eterna”238.
Percebemos assim que foi fundamental para a origem da sociedade civil um discurso afetado capaz de ludibriar multidões. Um discurso cujas palavras escondiam uma real intenção de assegurar o poder. Essas “razões especiosas”, presentes na gênese da sociedade, parecem legitimar a máxima, segundo a qual nem sempre o que se parece é. Talvez esse acontecimento seja uma das causas principais de o homem esquecer sua origem, ludibriado sempre mais pelo poder fruto das conspirações dos governos que afirmam verdades, que na sua base não passam de meras aparências.
Tratava-se, na verdade, de um “projeto excogitado” utilizado pelos ricos e fortes para ludibriarem a multidão caracterizando um abuso e um abismo nas relações entre teoria e prática, dizer e fazer: “São os retóricos que vos governam!”, relembrando a denúncia de Fabrício no Primeiro Discurso239. Nesse aspecto, o interesse próprio
subjugou o interesse comum colocando em risco a conservação comum e o bem-estar geral. A manipulação de uns sobre os outros por meio das “razões especiosas” encerra o conflito ao passo que ratifica o domínio e a alienação entre os homens. O contrato foi estabelecido e ratificado sob o domínio das aparências de um grupo de privilegiados sobre outro grupo desfavorecido.
As primeiras palavras articuladas (“isto é meu”) foram seguidas por muitas muito mais articuladas e não menos ardilosas. Das simples palavras ao discurso, a conspiração mostra sua força na condução do destino dos homens. O contrato foi feito, mas para atender aos interesses de alguns ambiciosos sob a máscara da segurança e da concórdia para todos. A exploração do homem sobre o homem foi feita de uma forma dissimulada capaz de manipular uma grande turva de inocentes. Conforme Starobinski (2001, p. 316):
238 Id., ibid.
“A linguagem degenera, corrompe-se, torna-se discurso abusivo, arma envenenada: o homem, simultaneamente, desencaminha-se, comporta-se como enganador e mau”.
Há uma evolução nessa complexa teia geradora da desigualdade política: da propriedade através do trabalho, a civilização se desenvolve, e com ela o despotismo, expressão nefasta da opressão do homem sobre o homem. O esquema elaborado por Goldschmidt (1983, p. 760) para explicar a marcha da história da desigualdade segundo Rousseau, parte da condição primitiva do homem, que é a condição dos animais antropoformes até as famílias. Ainda vivendo na “juventude do mundo” há os selvagens conhecidos no século XVIII. O estágio dá seus passos até a metalurgia, a agricultura e a partilha de terras onde a condição ainda não era de desigualdade. Daí surge o estado de guerra e a sociedade política. Com eles, a instituição do governo num primeiro momento democrático (por mandantum imperantis), para em seguida surgirem a aristocracia e a monarquia (por pacto bilateral). O próximo estágio da desigualdade é o do despotismo para enfim surgir a revolução (que aproxima o governo da legitimidade dissolvendo o pacto).