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2. AS TEORIAS QUE EMBASAM A PESQUISA

2.4 OS GÊNEROS DISCURSIVOS NA PERSPECTIVA BAKHTINIANA

2.6.1 O tema, o estilo e a forma composicional das HQ

Os gêneros fazem parte da vida em sociedade. É por meio deles que nos comunicamos em todas as esferas sociais. Durante a reflexão sobre os gêneros discursivos, vimos e adotamos a definição elaborada por Bakhtin (2016) que os define como entidades relativamente estáveis, e que por isso, possuem um caráter flexível e maleável, se modificam à medida que se modificam os instrumentos, as

8 As autoras utilizam essa nomenclatura para pensar as práticas sociais situadas, que são integradas pelos gêneros.

relações sociais e o funcionamento nas esferas, como pontua Rojo e Barbosa (2015). As autoras exemplificam essa mudança, com o aparecimento das TIDC, que provocaram mudanças em diversos gêneros, a exemplo da carta que, em muitos contextos, foi substituída pelo e-mail, conversas face a face que foram “substituídas” por chats e acrescento as HQ, que também acompanharam essas mudanças tecnológicas e passaram a existir, também em formato digital.

As principais características de um gênero são o seu tema, seu formato e seu estilo composicional (isto é, a forma como se apresenta), elementos indissociáveis. Bakhtin/Volochinov (2006, p.37) afirmam que: “O tema e a forma do signo ideológico estão indissoluvelmente ligados, e não podem, por certo, diferenciar-se a não ser abstratamente”. Para Rojo; Barbosa (2016, p. 87) “os temas de um texto ou enunciado se realizam somente a partir de certo estilo e de uma forma de composição específica”. São exatamente essas características que iremos buscar na HQ. A respeito do tema, na perspectiva bakhtiniana, não diz respeito a conteúdo temático, mas sim tudo o que envolve a produção do enunciado, o seu contexto de produção, seus valores, os sujeitos que o produzem, as condições dessa produção. Nas palavras de ROJO; BARBOSA, 2015, p. 87-88)

[…] O tema é o conteúdo inferido com base na apreciação de valor, na avaliação, no acento valorativo que o locutor (falante ou autor) lhe dá. É o elemento mais importante do texto ou do enunciado: um texto é todo construído (composto e estilizado) para fazer ecoar um tema.

O tema é o sentido de um dado texto tomado como um todo, “único e irrepetível”, justamente porque se encontra viabilizado pela refração da apreciação de valor do locutor no momento de sua produção. É pelo tema que a ideologia circula. (grifos das autoras)

Sabemos que no caso das histórias em quadrinhos, esse tema vai variar de acordo com sua função e objetivos, uma vez que atende a públicos diferentes, desde leitores de um jornal de grande circulação até crianças de séries iniciais. Para exemplificar, uso as HQ produzidas pelos estudantes que participaram da pesquisa. Nesse caso, podemos considerar como tema, o contexto de produção das histórias, que foram construídas na biblioteca da escola. Destaco também o conteúdo temático – identidade étnico-racial - constantemente presente nas discussões dessa comunidade escolar; o perfil dos estudantes, alguns que foram

vítimas de preconceito pelos próprios colegas de turma, como foi o caso de uma estudante que se recusou participar da atividade, mas quando passamos para o momento de produção das histórias utilizando o software, sentiu-se mais à vontade, ocupando, inclusive, lugar de liderança.

O estilo diz respeito às escolhas linguísticas feitas para dizer o que se quer e gerar os sentidos desejados. Essas escolhas podem ser de ordem lexical, sintática, da escolha de registro linguístico, formal ou informal. É o estilo que vai permitir a escolha de um termo em vez de outro, mostrando, dessa forma, o posicionamento ideológico do autor/falante, mesmo porque já vimos que não há enunciados esvaziados de ideologia. As HQ também irão variar nesse sentido, dependendo do seu objetivo e o público ao qual é indicado. Por se tratar de narrativas, e incorporarem o diálogo, por vezes podem adotar uma linguagem mais simples, um léxico composto por vocábulos que pertencem ao registro informal da língua, uso de gírias. É importante ressaltar, que a escolha das imagens também compõe o estilo das HQs. Assim como as escolhas textuais, o gênero requer um conjunto de escolhas relativas às imagens. Tanto que uma das reclamações e sugestões dos estudantes diziam respeito ao banco de imagens construído por mim. Segundo os estudantes, as imagens eram insuficientes e não representavam o que pretendiam dizer, não completavam o sentido dos elementos textuais.

Nas HQ produzidas pelos estudantes neste estudo, por exemplo, por se tratar de uma atividade realizada no âmbito escolar, foi preferido o registro formal da língua, embora seja possível notar traços da oralidade em algumas histórias, até porque se trata de diálogos, muitas vezes travados no cotidiano dos seus produtores. Vejamos um trecho de uma das histórias:

Outro elemento que compõe o gênero discursivo é a sua forma composicional, a maneira como ele se apresenta, “a roupa que veste”. Nas palavras de Rojo e Barbosa (2015, p. 94), “é a organização e o acabamento do todo do enunciado, do texto com o todo”. Por exemplo, reconhecemos um soneto pela sua estrutura, quando lemos um texto com chamada, lide, as perguntas “o que”, “quem” e “onde”, respondidas, sabemos que estamos diante de uma notícia. As histórias em quadrinhos também possuem seu formato próprio, “uma linguagem única, composta de diversas particularidades e união de diferentes sistemas de signos e demais elementos” (COSTA, 2009). São narrativas quadro a quadro, que utilizam o signo verbal e não verbal (imagem) que se complementam e interagem entre si, contribuindo para a produção de sentidos. Outros elementos também são utilizados, com o intuito de auxiliar e complementar a narrativa, um exemplo são os balões, que possuem diversas formas, a depender do que se deseje indicar (pensamento, grito, conversa, passagem de tempo, etc.) e é através deles que se estabelece o diálogo entre as personagens; as onomatopeias, que imitam sons (no caso do software utilizado nessa pesquisa, as onomatopeias emitem o som que representam,

efetivamente); o quadro ou requadro (a moldura da história em quadrinhos, onde se desenha uma cena); o recordatório ( usado para exibir as falas do narrador).