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Capítulo IV – A Morte. Final do Caminho?

5. Os excluídos

A globalização tem as suas luzes e as suas sombras, os seus pon‑

tos cegos, revestidos de mitologias, de superstições, de ideologias e de medos. Em determinadas ocasiões, trata‑se tão só de pequenos desa‑

justes, de processos de adaptação a um novo modelo de sociedade que avança e se generaliza num plano transnacional. Num mundo cada vez mais aberto e dinâmico, tanto os indivíduos como as nações devem mos‑

trar um elevado grau de flexibilidade para se adaptar às novas realida‑

des. Mas também não é menos certo que o ritmo imposto pela economia globalizada, no nivel de competitividade e de especialização, vai deixar de fora inexoravelmente um conjunto de países cujo incipiente desenvol‑

vimento tecnológico e industrial não lhes permite subir para o comboio da nova economia. As desigualdades entre países, em vez de se nivela‑

rem, irão aumentar se não forem aplicadas políticas para amainar este desnivelamento, se não se aumentarem as medidas de solidariedade e de ajuda ao desenvolvimento.

Estamos de novo diante de outro dos fenómenos paradoxais nascidos sob a globalização: a fragmentação e segmentação entre países e grupos sociais excluídos das correntes globalizantes e igualitárias que percor‑

rem o planeta. “A mundialização das economias e dos sistemas de comunica-ção – escreve Matttelard – é indissociável da criacomunica-ção de novos desequilíbrios entre países e regiões e entre grupos sociais; por outras palavras, novamente as exclusões (...) a globalização corre paralela à fragmentação e à segmentação.

39 iSla couto, X.: “A globalización como marco para o estudo e desenvolvemento da economía galega”; em Congreso de Economía de Galicia: Desenvolvemento e globalización;

Servicio de Publicacións da Universidade de Santiago de Compostela, 1999, p. 32.

Trata-se das duas faces de uma mesma realidade em processo de decomposição e recomposição”40. “Excluídos”, eis um conceito que infelizmente não é novo na história da humanidade. Um conceito que põe em questão o mundo feliz da globalização, que acrescenta sombras e matizes ao pro‑

jeto de um mundo exclusivamente luminoso.

Não são centenas, nem sequer milhares, mas são milhões os seres humanos condenados à miséria e à exclusão. Não reconhecer esta rea‑

lidade, acentuando a crítica grosseira e injustificada, impedirá qualquer tipo de esforço para corrigir os seus desvios.

Só colocando a nu as contradições implicadas na globalização pode‑

remos começar a superá‑las. Entre as referidas contradições fala‑se natu‑

ralmente do “paradoxo de que o sistema que tudo engloba, o inclui e incorpora na sua marcha, exclua ao mesmo tempo económica, política e culturalmente uma imensa maioría”41.

Os países do primeiro mundo têm sido beneficiários da nova econo‑

mia que com maior ou menor dificuldade, se tem integrado na socie‑

dade de redes apresentada por Castels na sua radiografia correta dos novos tempos.

Os prejudicados, os países do terceiro mundo sofrem a dupla con‑

denação de ter que sobreviver em condições precárias, quando não na mais absoluta pobreza, enquanto contemplam, através dos meios de comunicação planetária, a abundância e mesmo o esbanjamento das eco‑

nomias globalizadas.Tratar‑se‑ á de um desequilibrio intencional ou sim‑

plesmente aparecido como dano colateral da economia globalizada? As opiniões, que surgem, são para todos os gostos. Para o economista Juan Francisco Martín Seco, “a tão mantida divisão entre centro e periferia, entre Norte e Sul, é algo mais do que una realidade desagradável com a qual somos oblrgados a viver; trata‑se do resultado querido e provocado

40 Mattelard, A: “Los nuevos escenarios de la comunicación mundial”, pp. 225‑226.

41 ZaMora, J. A.: “Prólogo”, em AA.VV.: La globalización y sus excluidos; Ed. Verbo Divino, Estela, 1999 (2), p. 11 (De aqui para a frente GE).

no plano internacional por um sistema e por umas relações de produção radicalmente injustas. (...) Não é certo que, como disse Rostow, se trate de um problema de tempo e de etapas, mas antes como foi afirmado por uma infinidade de autores, o preço da prosperidade do centro é a pobreza da periferia42.

Adotemos uma interpretação ou outra, o certo é que o caramelo, sofisticadamente envolto, da abundância do Norte atrai, inevitavel‑

mente, milhões de seres humanos empobrecidos do Sul com a esperança centrada num poder de melhorar as suas condições de vida. A imigra‑

ção para o primeiro mundo apresenta‑se a milhares de olhos como a tábua de salvação para escapar a uma vida miserável. Mas é agora que uma economia globalizada – que não conhece limites relativamente ao trânsito de capitais, de produtos e da ideologia que previamente criou a necessidade de consumidores –, se estabelece com fronteiras infranqueá‑

veis ao trânsito das pessoas.

“Os mercados laborais – constata Manuel Castels – não são verdadei-ramente globais”. Para precisar posteriormente: “se existe uma econo‑

mía global deveria haver um mercado laboral global. Não obstante, tal como muitas outras afirmaciones óbvias, tomada no seu sentido literal, esta é errónea a partir do ponto de vista empírico e enganosa a partir da perspetiva analítica. Ainda que o capital flua livremente nos circui‑

tos electrónicos das redes financieras globais, a mobilidade do trabalho continua a ser muito limitada, e sê‑lo‑à no futuro predizível por causa das instituições, da cultura, das fronteiras, da política e da xenofobia”43.

Outro paradoxo: “diante da evidência de uma economia sem fron‑

teiras emerge a evidência das fronteiras da economia”44. E com ela a necessidade de incorporar matizes no quadro da globalização, pinta‑

42 Martín Seco, J. F.: “Norte y Sur: las dos caras de la globalización”, GE p. 17.

43 caStelS, M.: La era de la información, vol. I, pp. 120 e 260, respectivamente.

44 tortoSa, J. M.ª: “Viejas y nuevas fronteras: los mecanismos de la exclusión”;

GE, p. 57.

dos a pincel largo. Efetivamente, na retórica da globalização alguém se esqueceu de incluir a letra pequena. Ninguém reparou assombrado pelas grandes cifras macroeconómicas, na necessidade de produzir números por meio das velhas contas. Falemos claro: nem o comércio é tão global e aberto como se diz, visto que os países continuam a praticar medidas protecionistas, nem tão pouco todos os países saem igualmente beneficiados nesta questão da globalização do capital. Não vou assinalar com o dedo quem ganha e quem perde no jogo da globalização porque me ensinaram que é uma coisa absurda, mas não tenho a menor dúvida que todos vocês já devem ter pensado em média em dezenas de países.

Procurando delimitar as grandes exclusões associadas à mundializa‑

ção, o sociólogo José María Tortosa estabelece um quadro em torno de quatro conceitos fundamentais. “1) Classismo: os que não sabem aprovei-tar os ditames do mercado ficam excluidos; 2) Sexismo: atávica divisão social do trabalho, derivada do patriarcado e relacionada com a bipolarização da eco-nomía e com a economia subterrânea; 3) Racismo, atávica e xenofobia animal, acentuada no caso dos perdedores da globalização; 4) Nacionalismo: forma de estruturar o sistema mundial, convertendo-o num sistema inter-estatal que acelera a debilidade dos sistemas periféricos (Cf. Op. Cit. pp. 65- 66)”. Com um propósito semelhante, o professor García Roca estabelece em seis pontos as dinâmicas exclusivas da globalização: 1) Crescimento económico que exclui e se torna seletivo; 2) Institucionalização da exclusão, instaurando uma competitividade feroz que provoca a morte física, cultural e legal de amplas franjas da população; 3) Dependencia e exclusão, não só do terceiro mundo, mas dos mais desfavorecidos do primero mundo; 4) Caminho para o fundo, no que respeita a trabalho, salários, etc.; 5) Deslocamento do capital produtivo por meio do especulativo que não cria emprego; 6) Práticas de domínio, de conquista e colonização (GARCÍA ROCA, pp. 106-112). No que respeita a este último ponto, diversos autores têm falado de maneiras e práticas neo‑coloniais com relação ao expansionismo globalizador.

A luta contra a exclusão seria, na realidade, a luta em favor da estabi‑

lidade do próprio sistema mundial. Não evitar a desigualdade extrema

entre nações significa assumir o risco de que esta pode acabar com o próprio sistema. Quem pode garantir que a energia contida do terceiro mundo, muito mais povoado que o primeiro, não explodirá um dia, libertando uma violência que desestabilizará o que recentemente se denominou a “ordem mundial”? Quem não pensou já na revanche das culturas excluídas?