1.4 Trauma e testemunho
1.4.2 O testemunho possível
Em palestra proferida em 1986, Eli Wiesel ressaltava o “poder místico de memória”181. Sem memória nossa existência seria estéril e opaca, “como uma cela em que a luz não penetra, como uma tumba que rejeita a vida”. Ao rememorar sua experiência como prisioneiro de um campo de concentração, Wiesel diz que a memória representava, para os prisioneiros de Auschwitz, uma proteção para as feridas que traziam em si mesmos. Os horrores que vivenciaram foram tão marcantes que o mundo onde esse passado não contasse já não significava nada. Auschwitz foi o lugar onde a abstração científica, o nacionalismo, a xenofobia, o fanatismo religioso, o racismo e a histeria em massa encontraram sua expressão máxima. O que ocorreu lá foi algo além de um campo de concentração: é muito mais, diz Reyes Mate182. Por isso, ainda que não nos seja possível compreender Auschwitz, mesmo assim devemos conhecê-lo, o que nos permite estabelecer a diferença entre confirmação de uma hipótese que se prediz e o acontecimento de algo impensável. “Não podemos considerar Auschwitz como o caso singular de uma teoria, mas como algo impensável pela teoria”, como “acontecimento que inaugura uma reflexão”183. Próprio dessa reflexão é a referência a um acontecimento que está atrás de nós, que já aconteceu e que, precisamente por isso, pelo seu caráter de já ter tido lugar, é objeto da memória. A memória surge do hiato entre incompreensibilidade e conhecimento, que é a categoria adequada que serve ao caráter inaugural, originário do acontecimento: “Se Auschwitz é o que dá para pensar, o é devido à presença constante em nosso presente de um ato passado que está presente para a razão graças à memória”, diz Mate184.
Relembrar “é um ato nobre e necessário”, diz Wiesel, pois para os sobreviventes de Auschwitz “esquecer nunca foi uma opção”. A chamada de memória, a chamada para
a memória, chegam até nós desde os primórdios da história, e nenhum mandamento figura tão
frequente e insistentemente na Bíblia como o dever de memória: lembrar o bem que
181 Elie Wiesel, Hope, despair and memory. Disponível em www.english.illinois.edu/maps/holocaust/wiesel.htm,
acesso em 12-02-2013.
182
Reyes Mate, Memórias de Auschwitz, cit., p.123.
183 Idem, p. 124. 184 Idem, ibidem.
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recebemos e o mal que sofremos, como fazem os judeus no Dia de Ano Novo (Rash
Hashaná), que é também chamado de Yom Hazikaron, o dia da memória. Para Wiesel, a
memória nos ajuda a sobreviver, esquecendo-se de nos permitir de continuar a viver185. É certamente humano esquecer, diz ele, e sem a capacidade de esquecer o homem logo deixará de aprender, diz o Talmud. Esquecer, para os antigos, era um dom divino, e sem o esquecimento o homem viveria em um medo permanente e paralisante da morte. “Somente Deus pode e deve se lembrar de tudo”. Como, então, conciliar o dever supremo de memória com a consciência de que esquecer é essencial para a vida? Nenhuma geração teve que enfrentar esse paradoxo com tanta urgência, diz Wiesel, quanto a dos sobreviventes dos campos. Eles queriam comunicar tudo para todos: a solidão e a tristeza das vítimas, as lágrimas das mães levadas à loucura, os detentos forçados a queimar os corpos de seus colegas de cela, as orações dos condenados sob um céu de fogo. Registrar cada história e cada encontro foi um dever dos sobreviventes, e sem isso suas vidas não teriam sentido, sustenta Wiesel: “Cada um de nós se sentiu compelido a dar testemunho. Tal era o testamento dos mortos”186.
Os sobreviventes de Auschwitz não podiam enterrar seus mortos, pois “nós carregamos suas sepulturas dentro de nós mesmos”. A fonte de suas esperanças era a memória: “Porque eu me lembro, me desespero. Porque eu me lembro, eu tenho o dever de rejeitar o desespero”. O testemunho tornou-se, assim, uma obrigação, ainda que as palavras tenham soado inadequadas, que muitos tenham se recusado a ouvir e a acreditar, e mesmo os que acreditaram não tenham conseguido compreender plenamente. O testemunho serviu como tentativa de confiar que, descrevendo os horrores dos campos de concentração, fosse possível evitar que o direito humano à dignidade nunca mais fosse novamente violado. Tratou-se de uma tentativa ingênua, é verdade, que se revelou tantas vezes impotente para evitar a injustiça que ocorre em todos os lugares e em qualquer tempo, mas que continha uma lógica clara e compreensível, pois afinal o calvário vivido nos campos de concentração foi um calvário que diz respeito a toda a humanidade, e não apenas aos judeus187.
185
Idem.
186 Idem.
187 Para Reyes Mate (Memórias de Auschwitz, cit., p. 160), “o grito de protesto contra o sofrimento, a exigência
de partir em cruzada contra a barbárie, nasce do recordar de Auschwitz. E, isso por quê? Porque em Auschwitz se fez a experiência da injustiça do sofrimento e porque essa injustiça não afeta um homem em particular, mas toda a humanidade. Auschwitz não é apenas o campo do tormento, porém, é, sobretudo, o lugar da injustiça do sofrimento infligida ao povo judeu e, através dele, à humanidade do homem”.
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Para Giorgio Agamben, “no testemunho, há algo similar a uma impossibilidade de testemunhar”188. Mas, se o testemunho traz lacunas – e nisso os sobreviventes concordam –, a testemunha comumente depõe (“testemunha”) a favor da verdade e da justiça, e delas a sua palavra extrai consistência e plenitude. Se as “verdadeiras” testemunhas, as “testemunhas integrais” (os muçulmanos189, os submersos) não testemunharam, os sobreviventes, como pseudotestemunhas, falam em seu lugar, assumem para si o ônus de testemunhar por eles.
A tentativa de anular as vítimas, retirando delas seus últimos resquícios de identidade e pertença, quando não sua própria vida, se fez sentir também nos regimes ditatoriais que proliferaram na América de Latina nas décadas de 60 a 80 do século passado. Um dos livros mais emblemáticos sobre esse período é Poder y desaparición – Los campos de
concentración em Argentina, da autoria de Pilar Calveiro, uma sobrevivente da ditadura
militar argentina (1976-1983), certamente a mais sanguinária das ditaduras latino-americanas. Na obra, Pilar presta seu testemunho sobre a realidade dos centros clandestinos de detenção, os mais de 400 “campos de concentração” que funcionaram em vários lugares do país. Desde a chegada aos campos, os prisioneiros logo perdiam seu nome e seus mais elementares pertences; logo lhe eram destinados números pelos quais deveriam ser identificados. “Começava o processo de desaparição da identidade, cujo ponto final seriam os NN”190. Os números substituíam nomes e apelidos, pessoas vivas que haviam desaparecido do mundo dos vivos e agora desapareciam dentro de si mesmas, num processo de “esvaziamento” que buscava não deixar qualquer vestígio. “Corpos sem identidade, mortos sem cadáver nem nome: desaparecidos”. Como no sonho nazista, supressão da identidade, homens que se esvanecem na noite e na névoa, diz Calveiro191.
Os prisioneiros estavam permanentemente de olhos vendados, para impedir toda visibilidade, acorrentados pelos pés a cadeiras, nus, a fim de evitar fugas. “Tudo era noite e silêncio. Silêncio só interrompido pelos gritos dos prisioneiros torturados e pelos prantos de dor”. Os campos de concentração, diz Calveiro, eram depósitos de corpos imóveis que não
188
Giorgio Agamben, O que resta de Auschwitz, 2008, p. 43.
189 “Muçulmanos”, conforme Primo Levi (É isto um homem?, cit., p. 89), era a forma como “os veteranos do
Campo designavam os fracos, os ineptos, os destinados à seleção”. A expressão, aplicada aos prisioneiros no último grau da debilitação física e psicológica, era utilizada também pelos nazistas, como comprova o diário do médico da SS em Auschwitz, Johann Paul Kremer, cf. Pierre Vidal-Naquet, cit., p. 74-77.
190 Pilar Calveiro, Poder y desaparición – Los campos de concentración em Argentina, 1998, p. 362.
“NN”(ningún nombre) eram as letras que, por ocasião dos sepultamentos, identificavam os corpos encontrados nas costas dos balneários atlânticos de Santa Teresita e Mar del Tuyú, cerca de 200 km a sul de Buenos Aires, alguns dos quais, após serem exumados por decisão da Justiça argentina, foram reconhecidos como sendo de opositores do regime.
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podiam ver, nem emitir sons, como que antecipando a morte. O momento mais temido era o do “translado, a experiência final”, que se realizava com uma frequência variável. Quase sempre os “desaparecedores” ocultavam que os translados levavam à morte, para evitar assim toda possível oposição dos condenados ao cumprimento do destino que lhes aguardava. Os detidos eram chamados pelo número, levados a uma enfermaria localizada no sótão, onde os esperavam os enfermeiros que lhes aplicavam uma injeção para adormecer. “Adormecidos, eram levados ao Aeroparque, colocados em um avião que voava até o sul, mar adentro, de onde eram atirados vivos”. Desde o momento em que cessava a tortura física, lembra Calveiro, se iniciava a tortura surda – “a da incerteza sobre a vida”. Passado o período de utilidade do preso, este deixava de ser “um corpo atormentado para produzir a verdade” para se tornar “um corpo descartável”. Assim como os campos estão divididos em compartimentos estanques, sem conexão, também os homens aparecem fragmentados, compartimentados interna e externamente, subversivos dos quais se despoja a identidade, corpos sem sujeito...192 Esses subversivos precisavam ser aniquilados, e sua condição “menos que humana” justificava que se desse a eles um tratamento também inumano. Os capuzes que ocultavam seus rostos, os números que negavam seus nomes, a superlotação e a humilhação a que os prisioneiros eram submetidos constituíam-se em “formas de escamotear sua humanidade”. O campo de concentração tem uma dupla função, diz Calveiro: destruir a vítima e facilitar o trabalho do carrasco. A impossibilidade de acesso às necessidades mais elementares e a submissão do indivíduo a condições que se associam com a conduta animal impelem-no de volta a seu “núcleo primário”, onde a inteligência, os valores culturais, a sensibilidade, a complexidade psíquica desaparecem, levando seus sentidos a um estado de latência que deixa em evidência sua “animalização”193.
Como acentua Calveiro, o poder que institucionalizou os assassinatos e a tortura, mantendo-os em segredo de maneira subterrânea e vergonhosa, efetivou um “direito de morte” ao qual toda a sociedade estava exposta. Destroçaram os corpos, os exibiram em alguns casos, mas nunca assumiram a responsabilidade por esses atos. Exercitavam um direito cuja racionalidade se apoiava unicamente na onipotência do poder – poder que se dirigia
192 Idem, p. 70, 77 e passim. 193 Idem, p. 100-101.
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indistintamente tanto para assassinar indivíduos como para submeter o corpo social, promovendo uma “disseminação social do terror”194.
O testemunho de Pilar Calveiro, publicado em 1998, serviu para revelar mais claramente os crimes cometidos pelos militares argentinos que redundaram na morte de milhares de presos políticos e no exílio de outros tantos. Seu testemunho trouxe junto o sentimento de culpa e de dívida moral que normalmente acompanha os sobreviventes, pois lhe pesa o fato de ter sobrevivido enquanto outros – seus “companheiros de militância mais queridos” – morreram: “O campo de concentração e as razões para entrar ou sair dele pertencem por inteiro à lógica ‘concentracionária’ que o sobrevivente desconhece”195. Mas é a própria Calveiro quem reivindica que a questão não deve se resumir em estabelecer ou compartilhar culpas, mas sim responsabilidades. “Acredito que nossa geração assumiu uma prática política de um grande protagonismo e que nessa prática houve grandes acertos e também gravíssimos erros”. A avaliação a ser feita deve levar em conta, sim, os erros cometidos, mas também as contribuições, as apostas, os desafios a que os jovens idealistas dos anos 70 se submeteram. Isso permitirá que “os que vêm depois de nós” estejam em condições de, conhecendo o passado, escolher os caminhos que julgam mais conveniente seguir.
Por vezes, o conhecimento do que se deu nos porões do regime argentino surgiu pela voz de ex-protagonistas da repressão, caso do oficial Adolfo Scilingo, que em 1995, por meio de entrevista concedida ao jornalista Horácio Verbitsky, reconheceu a existência e narrou sua participação nos chamados “voos da morte”, em que se atiravam ao mar os corpos adormecidos por injeções anestésicas dos detidos na Escola de Mecânica da Armada, o principal centro de detenção de Buenos Aires. As revelações vindas à tona por meio de um ex-oficial do regime comprovaram as suspeitas das Mães da Praça de Maio, que puderam afinal ter certeza de que seus filhos estavam mortos e “enterrados” no mar. Tratou-se de uma confissão que, como diz Mónica Cerutti, produziu uma ruptura no silêncio, permitindo que em 1995 se iniciasse o processo de julgamento dos militares196. Em 1997, ao viajar à Espanha, Scilingo foi detido, julgado e condenado por Baltasar Garzón a 640 anos de prisão, pena que foi, depois, elevada pelo Tribunal Supremo espanhol.
194 Idem, p. 59 e 60. 195
Idem, p. 62.
196 Mónica Cerutti, “La memoria de las víctimas. Testemonios para una reflexión ética”. In: José María
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Desde muito cedo, a sociedade argentina buscou o acerto de contas com seu passado devastador. Os indultos e as leis de impunidade não arrefeceram o ímpeto das organizações de defesa dos direitos humanos, que em 1998 conseguiram a retomada do processo de julgamento dos militares acusados. As Mães da Praça de Maio tornaram-se, com o tempo, Avós da Praça de Maio, particularmente em razão de terem colocado como principal objetivo de sua luta a busca por seus netos desaparecidos, muitos dos quais, após terem sido arrancados de seus pais em razão das prisões e dos assassinatos, foram “adotados” por militares que defendiam o regime197. O debate travado em torno desse tema galvanizou a sociedade argentina e se disseminou por países que vivenciaram experiências similares, a demonstrar que se estava a tratar de questões que possuíam uma dimensão pública inafastável, marcando, de forma indelével, as últimas décadas do século passado, como analisaremos em seguida.