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Capítulo 3 O processo de Criação da Cena

3.1 Corpo do ator/corpo objetal: exercícios para a compreensão e sensibilização

3.1.3 A inserção do objeto

3.1.3.2 O trabalho com o boneco

Nas oficinas e processos de criação das companhias citadas neste estudo, observamos duas etapas distintas no trabalho com bonecos. A primeira é realizada com bonecos para treino, ou seja, bonecos que não serão necessariamente utilizados em cena, construídos especificamente para o estudo da manipulação. Encontramos ao menos três tipos diferentes desses bonecos, todos com expressões neutras. A segunda etapa configura o trabalho com o boneco expressivo ou boneco-personagem, aquele que estará em cena.

O treino com bonecos ou máscaras neutros é preconizado por estudiosos como Jacques Lecoq e Charles Gervais. Segundo Felisberto Sabino da Costa:

Na escola de Lecoq, a máscara tem, basicamente, duas funções: uma teatral e outra pedagógica. Com a linguagem da máscara, busca-se trabalhar o potencial expressivo do corpo que, sob a máscara neutra, está em estado de alerta (ou de suspensão) e territórios cênicos. (COSTA, 2006, p. 29).

Para Gervais, o boneco sem expressão obriga o ator a buscar suas próprias interpretações, já que “[..] quando, com este rosto sem expressão, ele [o ator] tiver sido capaz de imprimir o personagem em seu boneco um perfil original, ele terá descoberto o essencial.” (GERVAIS apud COSTA, 2008, p. 19)

A companhia Morpheus, ao longo da criação de seu primeiro espetáculo, O

Princípio do Espanto, desenvolveu uma pesquisa sobre a movimentação do boneco de

manipulação direta para que fosse possível a manipulação por apenas um ator. Nessa pesquisa, uma das principais questões era sobre como fazer o boneco caminhar. Descobriu-se que era possível fazer o boneco dar seus passos por meio da movimentação da bacia, ou quadril. Por isso, para o treino deste movimento, a

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companhia Morpheus traz em suas oficinas o trabalho com um meio-boneco, um boneco feito apenas da parte inferior do corpo, ou seja, quadril, pernas e pés.

O treino com esse boneco se inicia após os exercícios feitos com o próprio corpo, os quais trabalham a conscientização sobre o movimento corporal, principalmente o caminhar. A proposta é que o ator experimente realizar a mesma trajetória de movimentação realizada durante o seu caminhar com o boneco. Ou seja, transpor para ele todos os aspectos observados, tais como transferências de peso, impulso, ritmo e os movimentos das articulações.

Experimentam-se algumas ações simples e também possibilidades de expressão de estados emocionais. Assim, além de passar pelo treino da técnica utilizada pela companhia, o ator pode verificar a capacidade de expressão dos membros inferiores do boneco. Esta experiência é importante, entre outras coisas, para demonstrar que todas as partes do boneco são capazes de representar sentimentos, isto é, que o potencial expressivo do boneco não se concentra em sua máscara facial.

A companhia Morpheus também trabalha com bonecos cuja estrutura dá destaque aos olhos, em uma abordagem bastante semelhante à da Cia. Seres de Luz. No trabalho com o boneco personagem, contudo, é que se pode observar a característica mais particular da companhia. Nas oficinas, o grupo leva alguns desses bonecos e realiza um exercício que consiste apenas em segurar o boneco, dando-lhe o movimento de respiração, e observá-lo, deixando que ele também observe de volta.

Esse exercício é realizado após todas as etapas de preparação corporal, pois a percepção e a sensibilidade desenvolvidas previamente por meio dos jogos e dinâmicas são consideradas fundamentais. É preciso ainda que haja uma

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concentração intensa por parte do ator e de todo o grupo, tornando possível a transferência gradual da energia vital do ator para o boneco com o decorrer do exercício. No plano individual, quando isto se dá, o ator crê que o boneco está vivo, e essa crença dará a sua manipulação maior qualidade.

Na Cia. Truks, o treino da técnica em que se especializou a companhia, a manipulação direta por três atores, é realizado

empregando um boneco antropomorfo articulado e sem expressão facial. Com esse boneco, os participantes das oficinas têm a oportunidade de experimentar a manipulação tripla, tentando utilizar todas as articulações. O fato de não possuir máscara facial concentra os atores na expressão física do boneco. A partir dos exercícios propostos com esses bonecos, que consistem basicamente na realização de pequenas ações ao improviso, os atores vivenciam as dificuldades da técnica, entre elas a exigência da visão periférica.

Nos espetáculos da Cia. Truks, não há marcação fixa dos gestos do boneco, é o manipulador da cabeça quem decide durante a cena como serão executadas as ações. Assim, a concentração dos outros dois manipuladores, das mãos e pés respectivamente, deve estar focalizada no boneco para que consigam responder às intenções do manipulador da cabeça. Além disso, quando um boneco contracena com outro, as variações de movimentação tornam-se ainda mais imprevisíveis, pois resultam do jogo cênico entre as duas personagens e a visão periférica é o único recurso de que os manipuladores de pés e mãos dispõem para se interar sobre o que se passa na outra parte do jogo.

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No lugar da marcação, há o desenvolvimento de um repertório de movimentos que consiste na experimentação de ações, concomitantemente com a expressão de estados psicológicos. Quando se trabalha o caminhar, observam-se variações como: caminhar com tristeza, com alegria, com preocupação, com raiva etc. No estudo desse repertório serão observadas as possibilidades expressivas do boneco que, entre outras coisas, dependem de sua estrutura física. A Cia. Truks preconiza que este processo se dê independente das ações que serão executadas em cena, isto é, trata- se de um treino de manipulação focalizado na personagem.

No processo de construção do espetáculo Cadê Meu Herói, do grupo Sobrevento, a criação do repertório de movimentos dos bonecos se deu de outra forma. Luiz André Cherubini conta que, depois de escolherem a técnica do boneco de luva chinesa, trouxeram para o Brasil o mestre chinês Yang Feng para treiná-los. Possuíam, entretanto, apenas um mês para isso. Segundo Querubini, já que seria impossível transmitir um conhecimento adquirido por uma experiência de décadas em tão pouco tempo, o grupo restringiu o trabalho nas necessidades do espetáculo. Assim, a partir do texto já escolhido, Yang Feng e Querubini selecionaram gestos e ações que poderiam ser aproveitados na montagem teatral. E, neste pouco tempo, porém de treinamento intensivo, os atores apreenderam as técnicas necessárias para a execução de um repertório de movimentos específicos.

Pode-se aqui ressaltar que há uma diferença categórica entre as companhias Truks e Sobrevento. Enquanto a primeira especializou-se em uma determinada técnica; a segunda, a cada espetáculo, pesquisa uma técnica distinta. Assim, quanto ao repertório de movimentos, obviamente, um ator da Cia. Truks já acumula uma vasta experiência que lhe abrevia, de certo modo, a pesquisa de repertório. Já no grupo Sobrevento, muitas vezes, a técnica estudada pode exigir do ator um recomeço, uma aprendizagem inicial de uma técnica nova.

O trabalho com o boneco contempla também o estudo da personagem, sobre o qual abordamos alguns aspectos no capítulo anterior, e os conflitos desenvolvidos no

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decorrer do espetáculo. Contudo, antes dos ensaios das cenas, para o ator- manipulador é importante essa etapa de experimentações e treino com o boneco. É só a partir dela que sua relação com o boneco se concretiza. Trata-se, ainda, de uma fase de descoberta das dificuldades e facilidades concernentes a cada técnica, fatores que serão fundamentais para o trabalho do ator.

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