2.2.1 – Aquilo que ficou
2.2.3. O trabalho com o texto
A ideia de “comer pelas bordas” com relação a Cara ou Coroa está intrinsecamente relacionada ao trabalho com o roteiro. Isso significa que na abordagem do texto, o primeiro trabalho foi identificar o que estava em jogo por trás das palavras, procurando descobrir as informações sobre cada personagem e sobre “Getúlio” em particular. Simultaneamente a essa “garimpagem” das informações sobre o personagem, pouco a pouco foi se formando uma ideia de ações e características que esse personagem poderia ter. Por último, esse trabalhou culminou com as escolhas estéticas sobre as cenas: gestos, olhares, respiração, caminhar e outros recursos que aos poucos foram se unindo para dar forma a toda a pesquisa prévia.
O roteiro foi a maior fonte de informações sobre “Getúlio”: órfão de pai e mãe, vive com os tios e já deixou a faculdade de filosofia pela metade. Aspirante a dramaturgo, irmão de “Laís” e “João Pedro” e namorado de “Lílian”. A partir destes pontos básicos, foi possível colecionar algumas características e interesses para o personagem. O hábito da leitura foi um deles: apesar de praticamente não aparecer, eu andava com um caderno de anotações, uma caneta e um exemplar de “Huis Clos”, peça de Jean-Paul Sartre, edição de 1970 nos bolsos do figurino. Nos ensaios de teatro, enquanto observava o trabalho de “João Pedro”, usei o caderno de anotações como um elemento de cena vinculado a uma ação no silêncio: escrever. Ideias ligadas a teatro, anotações sobre exercícios, desenhos, tudo que estivesse ligado ao ambiente teatral serviu como fonte de inspiração. No corte final do filme, quase não se nota esse pequeno detalhe; no entanto, sua importância não se limita a essa questão perceptível, mas aumenta pela possibilidade de gerar ações significativas que dão realidade e profundidade à atuação.
Apesar do texto ter importância primordial para todo o roteiro, destaco duas cenas nas quais o trabalho com ele possibilitava diversas leituras. A primeira delas é quando “João Pedro” pede a “Getúlio” que esconda os fugitivos na casa do avô de “Lílian” e, aos poucos, vemos desdobrarem-se informações que tornam o diálogo insólito e, ao mesmo tempo, surpreendente.
Getúlio – Você não é tão louco para pensar em colocar esses caras na casa do Tio José, certo?
João Pedro – Tio José, Getúlio, que tio José? Não. Getúlio – Onde então?
João Pedro – Na casa da tua garota. Calma, calma, aprofunda a ideia. Getúlio – Aprofunda a ideia? Você está louco.
João Pedro – Considera Getúlio, considera. Ela mora sozinha, com o avô. Numa casa grande numa rua calma. Porra, não pode ter melhor lugar para esconder os caras. É só por alguns dias.
Getúlio – Nem pense nisso. Nunca! Eu não vou meter a Lilian numa coisa dessas nunca. Puta sacanagem, hein?
João Pedro – É só por alguns dias Getúlio. Tudo bem, eu sei, é um baita problema. Eu sei disso, mas os caras lá são organizados, se eles estão falando que são alguns dias, são alguns dias. Getúlio, a situação é grave, não dá pra deixar o pessoal sem retaguarda, não dá. Depois tem lá a coisa da peça, eles estão ajudando a gente. Getúlio – João Pedro, tem uma coisa que você tem que saber. Esse avô dela é um general. General, viu? General do exército brasileiro. Reformado, mas ainda assim general.
João Pedro – Melhor ainda. Porra, quem é que vai pensar em procurar os caras na casa de um general do exército brasileiro, Getúlio?
Getúlio – Você está completamente maluco.
João Pedro – Não tô não, Getúlio, não tô não. Numa casa grande deve ter lá um quarto, ou um sótão ou uma garagem, sei lá, um canto onde se possa esconder alguém. Getúlio, a situação é grave. A Lilian é gente nossa ou não é?
Getúlio – Ela é gente nossa, eu sou gente nossa. Agora como é que você pode pedir para uma pessoa se arriscar desse jeito? Porra, você sempre metendo todo mundo em situações como essa. Você sempre envolvendo as pessoas João Pedro. Você precisa começar a resolver sozinho as merdas em que você se mete.
João Pedro – Tudo bem Getúlio, tudo bem. Eu vou procurar outra saída. Eu vou me virar. Pode deixar. Mas porra Getúlio, porra. A gente faz tão pouco, tão pouco. A gente fala, fala, fala, e na hora que aparece aí uma situação concreta, né, verdadeira... mas tudo bem.
[Getúlio se levanta e vai telefonar para Lilian]. (GIORGETTI, 2010, s/p)
Nesta cena acontecem algumas transformações:
1) “Getúlio” primeiro acha que a ideia de “João Pedro” é esconder os fugitivos na casa do “Tio José”.
2) Em seguida, “João Pedro” esclarece que o plano na verdade é usar a casa de “Lilian”.
3) “Getúlio” explica que a ideia não funcionaria porque o avô de “Lilian” é um general do exército reformado.
4) “João Pedro” retruca confirmando que isso tornaria o esconderijo mais seguro e questionando o engajamento de “Getúlio”.
5) Por fim, “Getúlio”, apesar de contrafeito, cede ao apelo do irmão e se levanta para telefonar para “Lilian”.
O trabalho sobre o texto tem o objetivo de investigar qual o sentido das ações em cada momento. Na cena acima, “Getúlio” precisa, no primeiro momento, encontrar uma saída para a questão dos fugitivos. Com a sugestão de “João Pedro”, seu objetivo é provar ao irmão porque a estratégia “casa de Lilian” não funcionaria. Como último argumento, apelar para a irresponsabilidade própria do irmão, que em todas as situações delega os problemas mais graves para outros resolverem. Apesar de ter consciência dos riscos, “Getúlio” decide propor o plano a “Lilian” e dividir com ela os riscos da empreitada.
Quando penso sobre a abordagem para a cena, no cinema, penso em primeiro lugar no sentido de cada um destes momentos e como se encadeiam a partir da necessidade de resolver o conflito sobre o paradeiro dos fugitivos. Toda a situação (sobre a escolha do esconderijo dos fugitivos), por sua vez, se sedimenta sobre as circunstâncias da relação de “João Pedro” e “Getúlio” com o grupo de teatro e com o Partido Comunista e esta relação se baseia no período histórico do país: a ditadura que perseguia violentamente os dissidentes políticos. Para chegar a ensaiar esta cena, no processo de trabalho que desenhei, o entendimento dessas informações era necessário inclusive para que as sensações relativas a cada momento pudessem ser despertadas a partir de cada novo momento na cena. Intuo que uma abordagem direta no “decorar” o texto não daria margem a todos esses pormenores.
A outra cena acontece perto do final do filme, antes dos fugitivos serem transportados para o próximo paradeiro, quando o “Tio José” acredita que a preocupação de “Getúlio” é causada pelo divórcio do irmão e se propõe a pagar o aluguel atrasado para manter a família de “João Pedro”
(chamado de “comunista” pelo tio) unida. “Getúlio”, por sua vez, se estarrece ao achar que o tio está falando dos fugitivos escondidos no porão de “Lilian”.
[Getúlio espera em pé próximo ao telefone].
Tio José – Getúlio, está esperando algum telefonema? Getúlio – Tô sim.
Tio José – Ó, eu quero falar uma coisa. Senta aqui. (Getúlio se senta). Eu sei tudo que tá acontecendo. Eu sei o que é que está preocupando você. E resolvi ajudar. Eu pensei muito, conversei com a sua tia. E eu vou ajudar.
Getúlio – Mas o senhor vai ajudar como?
Tio José – Pagando. Eu vou dar o dinheiro pro comunista pagar os meses que ele deve de aluguel. Eu sei, você vai achar que eu estou maluco, alguma coisa, mas eu pensei bem. Eu estou fazendo isso pela tua mãe, minha irmã, por você e pela tua tia aqui, que anda muito preocupada. Então eu decidi, eu não vou emprestar, eu vou dar. Vou dar o dinheiro pro comunista pagar a dívida dele. Quem sabe assim a Mara desiste de ir pro Rio de Janeiro e levar a criança, não é? Porque olha, a família é coisa que eu mais prezo, eu não gosto de ver a família se separando assim e nem você preocupado. Diz pra ele então que ele pode contar.
Getúlio – Tá certo, tio. Isso é muito legal da sua parte. Muito legal. Eu vou falar pra ele, ele vai gostar, mas não sei.. a Mara já foi pro Rio, eu acho.
Tio José – Já foi? Mas como? Mas se ela já foi como é... É... (GIORGETTI, 2010, s/p.)
Da mesma forma que na cena anterior, existem diversas informações cifradas que é preciso obter por meio do texto. Estas informações oferecem uma visão mais ampla a respeito daquilo que está em jogo em cada momento da narrativa do filme. Nesta cena, “Tio José” parece tratar dos fugitivos quando conta a “Getúlio” que sabe o motivo das preocupações do jovem. Novamente é preciso que uma série de informações relativas ao período, à personalidade de “Tio José”, sua relação com “João Pedro”, e aos conflitos de “Getúlio” neste ponto da história para novamente deixar que o próprio diálogo desperte as reações que possam dar conta de expressar aquilo que com o personagem.