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1.2 O Capitalismo e o desenvolvimento da Agricultura no Brasil – a herança

1.2.4 O trabalho no canavial e os trabalhadores

No ano de 2011, a produção agrícola, de cana-de-açúcar, do Estado de São Paulo atingiu 406.483.567,59 toneladas, segundo o Instituto de Economia Agrícola [IEA] (2014b). O valor da produção do Estado de São Paulo correspondeu a cerca de R$ 26.368 bilhões. Nesse mesmo

ano, na região de Araraquara foram produzidas 17.938.101,00 toneladas de cana-de-açúcar. Em 2012, a produção atingiu 424.718.980,00 toneladas de cana-de-açúcar e o valor da produção girou em torno de R$ 27.513 bilhões. Em Araraquara foram produzidas, nesse ano, 19.630.969,00 toneladas de cana-de-açúcar. Em 2013, a produção agrícola, de cana-de-açúcar, foi 444.387.495,00 toneladas e o valor da produção chegou a R$ 26.925 bilhões. Em Araraquara essa produção atingiu 21.161.000,00 toneladas de cana (IEA, 2014b).

De fato a produção, na região central do estado de São Paulo, tem tido ganhos elevados de produtividade no decorrer dos anos. Desde a década de 1990, como já foi abordado as transformações que decorreram ao longo das décadas na agroindústria da cana, tem havido uma maior concorrência entre as usinas que visam ganhos com relação a produtividade do trabalho, mesmo coexistindo dois sistemas de produção, o corte mecanizado e o manual.

Os dois sistemas, o corte mecanizado e o manual, necessitam de ganhos de produtividade, necessitando, com tudo, da força de trabalho humana. Em algumas atividades na lavoura da cana que não foram mecanizadas, ainda é imprescindível a utilização do trabalho manual. “[...] a utilização de força de trabalho nas duas atividades que não se modernizaram, plantio e colheita, necessitará de ganhos de produtividade crescentes, os quais permitirão, por sua vez, a manutenção dessas atividades em moldes manuais, e não mecânicos [...]” (F. Alves, 2007, p. 30).

O processo de trabalho é que esclarece a necessidade de trabalhadores tanto nos aspectos quantitativo quanto qualitativo e são esses aspectos, segundo F. Alves (2007) que definem o perfil dos trabalhadores que serão contratados para o trabalho na lavoura canavieira.

Com a expansão da lavoura da cana, no estado de São Paulo, muitos trabalhadores de outras regiões do país foram atraídos para o trabalho nos períodos de safra. Esses trabalhadores eram provenientes de lugares bem distantes do estado de São Paulo, como o nordeste, do estado do Maranhão e Bahia, por exemplo. E outros também vieram de outras regiões, como Minas Gerais e Paraná. “Esses trabalhadores chegavam em grupos e eram identificados pela população local pelos lugares de procedência. Viviam em comunidades e eram chamados de mineiros, baianos, paranaenses” (Novaes, 2007a, p. 92).

Os imigrantes ou os trabalhadores da lavoura da cana-de-açúcar são conhecidos como boias-fria ou trabalhadores volantes. Nos anos de 1960, no campo, torna-se visível o chamado trabalho volante que segundo Gonzales e Bastos (1979) denomina-se volante o trabalhador agrícola que reside fora das fazendas, em geral, nas periferias das cidades e vilas e que se desloca todos os dias para executar as tarefas nas lavouras, nas áreas rurais, em regime de empreita. “[...] o trabalho volante não é uma simples “modalidade de trabalho”, mas uma forma

concreta da relação social de produção na qual o trabalhador direto encontra-se desprovido de qualquer meio de produção, exceto sua própria força-de-trabalho” (Gonzales & Bastos, 1979, p. 30).

Ianni (1984) definiu o boia-fria como um trabalhador assalariado ocasional, temporário. Em resumo, o bóia-fria é um trabalhador que recebe o seu salário com base na realização da tarefa ou empreita; é contratado – verbalmente antes do que por escrito – por tempo limitado, tempo esse que pode durar dias, semanas ou meses, mas não o ano todo. E pode ser arbitrariamente substituído por outro, se não realizar a tarefa, ou empreita, a contento do empreiteiro de mão-de-obra, fazendeiro, usineiro, dono da terra ou da plantação. São instáveis os seus vínculos empregatícios com os compradores da sua força de trabalho (Ianni, 1984, p. 133).

São várias conotações empregadas para definir o trabalhador rural, como por exemplo, boia-fria, volante, pau-de-arara, peão, corumba, clandestino, temporário, avulso, eventual, provisório, diarista, tarefeiro, safrista, contínuo, camarada, birolo, baiano, nortista (Ianni, 1984).

Muitos dos migrantes são camponeses com terra, enquanto outros são rendeiros e outros vivem nas cidades, na condição de proletários. De acordo com M.A.M. Silva (2006), muito deles são jovens e se deslocam todos os anos a partir do mês de março, de sua região de origem, para o trabalho na lavoura e permanecem em alojamentos que são construídos pelas usinas ou nas pensões das cidades-dormitórios, até meados do mês de dezembro. São chamados de migrantes temporários que já vinham para o estado de São Paulo desde 1990.

M.A.M. Silva (1999) em seus estudos sobre o trabalhador rural destaca, de acordo com informações do censo de 1991, que algumas cidades do interior de São Paulo obtiveram um crescimento populacional, devido a chegada dos migrantes. “Nas cidades onde predomina a cultura canavieira, em virtude da necessidade de mão-de-obra, sobretudo na colheita, houve um maior fluxo migratório” (p. 220).

Segundo os dados publicados pela autora, a região de Ribeirão Preto teve uma taxa de crescimento anual em torno de 2,58% enquanto que o conjunto do Estado foi de 2,02%. Em outras cidades também com grandes concentrações de trabalhadores rurais, o censo teve o seguintes resultados: Em Américo Brasiliense, a população passou de 11.871 pessoas para 20.016, o que representou um crescimento anual de 4,86%. Em Altinópolis, a população que era de 12.744 passou para 13.521 habitantes, com um crescimento anual baixo, de 0,53%. O município de Guariba teve um aumento populacional de 18.983 para 28.743 habitantes, com um crescimento anual de 3,88%. Em Dobrada, a população passou de 4.385 para 6.901, tendo um crescimento anual de 4,20%. A cidade de Pradópolis, o número de habitantes era de 7.837

e passou para 9.865 pessoas, com crescimento anual de 2,11%. Em Serrana, a população passou de 14.336 para 23.151 habitantes. Já em Araraquara, o crescimento anual foi de 2,39%, sendo que a população subiu de 128.109 para 166.190 habitantes (M.A.M. Silva, 1999).

Ainda segundo a mesma autora, os trabalhadores rurais, que chegaram a essas regiões do interior de São Paulo, passaram a se concentrar nos bairros periféricos das cidades médias e nas chamadas cidades-dormitórios23.

Nos anos de 2000, M.A.M. Silva (2006) destaca que houve um processo de mudança da cartografia migratória.

Muitos dos migrantes atuais são provenientes do Maranhão e Piauí, estados que, no passado, tinham pouca participação neste processo. Uma das explicações dada para a mudança da cartografia migratória reside no fato de que houve uma enorme intensificação do ritmo do trabalho, traduzida em termos da média de cana cortada, em torno de 12 toneladas diárias. Este fato está diretamente relacionado à capacidade física, portanto, à idade, na medida em que acima de trinta anos de idade, os trabalhadores já encontram mais dificuldades para serem empregados. Desta sorte, a vinda destes outros migrantes cumpre a função de repor, por meio do fornecimento de maior força de trabalho, o consumo exigido pelos capitais cuja composição orgânica é maior (M.A.M. Silva, 2006, p.114).

Novaes (2007b) em suas pesquisas com trabalhadores rurais também destaca a questão dos migrantes que chegam do Nordeste e que possuem um perfil condizente com o que se precisa para o corte manual.

Segundo eles próprios, por terem sido, desde crianças, socializados no árduo e duro trabalho da agricultura na sua região de origem, o trabalho no canavial não os assusta. Além disso, segundo relato dos técnicos das usinas, são preferidos pelos usineiros por serem mais dedicados ao trabalho e gratos aos empregadores pela oportunidade do emprego, inexistentes em suas regiões. A necessidade premente de ganhar dinheiro, para assegurar a subsistência da família distante, tem funcionado como um freio que os torna mais tolerantes com descumprimentos de leis trabalhistas, com as injustiças e as distorções que ocorrem nas medições feitas pelo fiscal de turma em sua produção diária no corte da cana (Novaes, 2007b, p. 171).

O trabalho nos canaviais paulistas está associado com a precarização do trabalho na lavoura. As mudanças no mundo do trabalho da cana-de-açúcar têm gerado aumento na produção e na produtividade e consequentemente isso tem trazido uma série de repercussões para os trabalhadores. Para atender a essa demanda alta de produtividade, os trabalhadores são

23 M.A.M. Silva (1999) afirma que ao se falar em cidades-dormitórios deve-se levar em conta o processo histórico

que resultou na transformação das antigas cidades da civilização cafeeira em cidades-dormitórios ou bairros de periferia. 

submetidos a uma intensificação da atividade laboral, sob a lógica capitalista, em condições precárias de trabalho.

Os trabalhadores rurais, empregados no corte da cana-de-açúcar, enfrentam longas jornadas de trabalho. Em geral saem de casa entre 5h e 6h30min da manhã e só retornam no fim da tarde. O ritmo intenso de trabalho exige grande esforço físico e provoca prejuízos à saúde. É sabido que os cortadores de cana são acometidos por câimbras, por dores nos braços, decorrentes do esforço físico para cortar a cana24, pelo cansaço e pelo risco do trabalho a céu aberto em regiões de temperatura elevada. Há também queixas, entre os trabalhadores com relação à assistência médica em caso de doença e/ou acidente de trabalho (L.L. Ferreira, Gonzaga, Donatelli, & Bussacos, 2008). O ritmo intenso de trabalho, as longas jornadas e as suas condições de vida, colaboram para o desgaste físico e mental dos trabalhadores rurais.

De acordo com Novaes (2007a, p. 105) “[...] os elevados padrões de produtividade impostos pelas usinas têm colocado os trabalhadores do corte manual da cana no limite de sua capacidade física, tornando-os mais vulneráveis a doenças e os acidentes no trabalho”.

Os elevados padrões de produtividade, exigido dos trabalhadores, está diretamente ligado à forma de remuneração do trabalho e traz consequências importantes para as suas condições de saúde.

A remuneração por produção, um dos mais perversos mecanismos de exploração desses trabalhadores, implica na intensificação do ritmo de trabalho e no maior desgaste do trabalhador. A existência de metas de produção que estabelecem o corte de 10 a 12 toneladas de cana ao dia, além de estimular a competitividade entre os trabalhadores em benefício das usinas, é também maneira "eficiente" de selecionar os mais aptos a suportarem este tipo de trabalho (Galiano, Vettorassi, & Navarro, 2012, p. 62).

As várias transformações que foram ocorrendo ao longo dos anos, no meio rural, interferiram significativamente nas condições laborais na lavoura e isso têm acarretado impactos na vida dos trabalhadores que se dedicam ao trabalho no canavial.

Os problemas de saúde que acometem os trabalhadores do setor agrícola têm características muito específicas devido às particularidades do trabalho no campo e aos riscos ocupacionais relacionados25. No meio rural, segundo Rocha, Souza, Marziale, Robazzi e

24 Segundo Alves et al. conforme citado por F. Alves (2006), na década de 1950 cada trabalhador cortava cerca de

três toneladas de cana por dia, na década de 1980 a produtividade passou para seis toneladas de cana e ao final da década de 1990 e início dos anos 2000, um trabalhador cortava cerca de doze toneladas diárias de cana.

Em média, alguns trabalhadores no corte da cana, cortam cerca de 20 toneladas de cana por dia de trabalho. A produtividade do cortador em São Paulo é a maior do país (L.L Ferreira et al., 2008).

25 De acordo com o Guia de Análise Acidentes de trabalho elaborado pelo Ministério do Trabalho e Emprego

Gabriel (2010), os trabalhadores diariamente enfrentam inúmeras situações que podem representar prejuízos a sua saúde e colocá-los em situação de vulnerabilidade diante da ocorrência de acidentes de trabalho. Esses trabalhadores estão constantemente expostos a cargas físicas, químicas, biológicas, fisiológicas e psíquicas no ambiente de trabalho que podem proporcionar a ocorrência de acidentes.

No trabalho agrícola é possível relacionar alguns perigos e riscos que acometem esses trabalhadores como acidentes com ferramentas manuais, máquinas e implementos agrícolas, animais peçonhentos, exposição às radiações solares por longos períodos, exposição ao ruído e às vibrações devido aos tratores e colhedeira, divisão e o ritmo intenso de trabalho com cobrança para a produtividade, jornada de trabalho prolongada, exposição a fertilizantes e agrotóxicos, o que pode causar intoxicações graves e mortais (J.M. Silva, Novato-Silva, Faria, & Pinheiro, 2005). A mecanização agrícola, cada vez mais, vem progredindo, porém isso traz novos fatores de risco. Os fatores climáticos e a urgência de certas fases do trabalho rural, como a colheita, fazem com que os operadores de máquina trabalhem muitas horas além do período normal, predispondo-se à fadiga e a acidentes (W.F. Almeida, 1995).

Além da mecanização, outro problema é a questão dos agrotóxicos. De acordo com Levigard e Rozemberg (2004) o problema da exposição ocupacional aos agrotóxicos26 adquire uma dimensão de forte impacto no que diz respeito à Saúde Pública, pois o Brasil é um dos maiores consumidores mundiais deste produto e o maior da América Latina. É sabido que os agrotóxicos são utilizados na agricultura e que oferecem perigo para a população em geral e para os trabalhadores rurais, especificamente, dependendo da toxidade, do grau de contaminação e do tempo de exposição durante a aplicação (World Health Organization [WHO], 1990).

Pires, Caldas e Recena (2005) mostraram em estudos que no Estado do Mato Grosso do Sul, o Centro Integrado de Vigilância Toxicológica registrou, entre 1992 e 2002, “[...] 1.355 notificações de intoxicações provocadas pelo manuseio e pelo uso de agrotóxicos utilizados na agricultura, sendo que 501 dessas notificações foram provenientes da ingestão voluntária desses produtos (tentativa de suicídio), com 139 óbitos” (Pires et al., 2005, p. 601). A causa das mortes

e da gravidade do dano possível”. A noção de perigo compreende uma “fonte ou situação com potencial para provocar danos” (Ministério do Trabalho e Emprego, 2010, p. 8).

26 Alguns efeitos da intoxicação por agrotóxico na saúde dos trabalhadores são: tonteira e tremores, insônia,

fraqueza e cansaço, dores de cabeça, irritação nos olhos, náuseas, lesões por esforço repetitivo, depressão, hipertensão, doenças mentais e até mesmo casos de suicídio. Esses sintomas foram encontrados em diversas pesquisas de vários autores que abordaremos em capítulos específicos (Araújo et al., 2007; Faria et al., 2000; Faria, Victora, Meneghel, Carvalho, & Falk, 2006. Meyer, Resende, & Abreu, 2007; Peres, Lucca, Ponte, Rodrigues, & Rozemberg, 2004; Peres, Rozemberg, & Lucca, 2005; Recena & Caldas, 2008).

foi a ingestão voluntária de agrotóxicos. Os autores afirmaram que a maioria dessas ocorrências estava relacionada com sintomas de depressão. Neste estudo, os autores também mostram pesquisas realizadas em outros países que evidenciam a correlação forte entre tentativa de suicídio e o uso de agrotóxico27.

De acordo com os estudos de Teixeira e Freitas (2003), os municípios que mais registram acidentes de trabalho são aqueles que se encontram,

[...] geograficamente localizados nas áreas de maior valor comercial do Estado e as que empregam mais mão-de-obra para a atividade agrícola, onde concentram-se as atividades dos complexos agroindustriais de cana-de-açúcar e da laranja, que são as mesorregiões de Ribeirão Preto, Araraquara, Campinas e Piracicaba (Teixeira & Freitas, 2003, p. 90).

Diante do exposto acima, torna-se fundamental o estudo dos acidentes de trabalho na cana-de-açúcar. É fundamental discutir a questão dos acidentes de trabalho no meio rural, pois na lavoura também se sucederam intensas transformações que implicaram na saúde dos trabalhadores. Neste capítulo, fizemos uma trajetória da história da cana-de-açúcar no estado de São Paulo e das transformações que ocorreram ao longo das décadas para chegarmos ao momento atual do trabalho na lavoura da cana.

Ainda, nos capítulos seguintes, adentraremos mais sobre a questão do trabalho e dos trabalhadores da cana-de-açúcar, ao tratar da parte empírica desta pesquisa. Assim, aprofundaremos mais o nosso estudo sobre as condições e a organização do trabalho no canavial e os impactos à saúde física e psíquica dos trabalhadores nos capítulos posteriores juntamente com os depoimentos dos sujeitos participantes desse trabalho.

27 Uma reportagem sobre esse estudo também foi notícia na FAPESP (Agência Fundação de Amparo à Pesquisa

do Estado de São Paulo [FAPESP], no dia 11 de abril de 2005, com o título Suicídio ligado ao agrotóxico. Recuperado em 21 de agosto de 2012, de http://agencia.fapesp.br/3555).

2 Os Acidentes de Trabalho

Não é difícil dizer quando a saúde e as condições de trabalho são más. Difícil é dizê-lo quando são boas, se quase invariavelmente a liberdade é cerceada, a capacidade de criar é coibida, o evoluir intelectual, psíquico e social é reprimido no trabalho e fora dele. Esta é a realidade sofrida do dia-a-dia, às vezes, da noite-a-noite de milhões de trabalhadores (Rebouças et al., 1989).

Os acidentes de trabalho, sem dúvida, são um tema que desperta interesse quando o assunto é a saúde do trabalhador. A história de desenvolvimento econômico e industrial, no Brasil, também foi marcada pelo grande destaque do país em ser líder mundial de ocorrências de acidentes de trabalho.

Os acidentes de trabalho trazem consequências à vida dos trabalhadores, devido a gravidade das ocorrências, sejam elas leves, moderadas, graves, ou até mesmo fatais. Por isso, entendemos que os acidentes constituem uma forma de violência e, sem dúvida, é uma questão de saúde pública.

Tomazi (1986) salienta que uma das questões mais importantes acerca da saúde do trabalhador é a dos acidentes de trabalho. Segundo a autora, “[...] para o capitalista o que importa é a produção e não o trabalhador” (p. 78).

É no trabalho que o trabalhador se desgasta no dia a dia e não é apenas o desgaste mecânico, resultado de anos de trabalho repetitivo, executando os mesmo movimentos, na mesma postura, etc, mas é também um desgaste orgânico relacionado às doenças ocupacionais, em virtude do contato com agentes tóxicos, físicos que são prejudiciais à saúde (Tomazi, 1986).

Na década de 1970, o Brasil foi considerado campeão mundial em acidentes de trabalho. Foi nessa década também que vivenciamos um avanço no desenvolvimento da economia. Porém, não é apenas na década de 1970 que o número recordista em acidentes de trabalho se destaca. Ainda hoje, o Brasil se encontra num quadro alarmante com relação aos acidentes de trabalho e, inclusive, no que se refere às doenças relacionadas ao trabalho. Atualmente, há um grande destaque para as ocorrências relacionadas à saúde mental do trabalhador.

A história do desenvolvimento capitalista mundial já foi revelada como palco de extrema violência aos trabalhadores, no sentido de que as condições dos ambientes de trabalho, as extensas jornadas durante a atividade laboral já eram responsáveis pelos altos índices de mortalidade e morbidade dos trabalhadores da Europa.

Rebouças et al. (1989) destacam que essas condições nos ambientes de trabalho melhoraram sensivelmente nos países de desenvolvimento mais acelerado, como a Inglaterra, França, Estados Unidos, Espanha, Alemanha, Japão, etc., devido a revolução técnico-científica que se seguiu. Porém, os autores ainda destacam que, nesses países, em diversas atividades econômicas, a violência física do trabalho permanece, acarretando em taxas ainda elevadas de acidentes e doenças do trabalho.

Alguns autores como Wünsch Filho (2004) destacam que o aporte de inovações tecnológicas, nas décadas passadas, acarretou grandes transformações no modo econômico capitalista e também a internacionalização dos mercados, ou seja, o fenômeno da globalização. Segundo o autor, essa reestruturação produtiva com crescente substituição do trabalho humano por tecnologias acaba por modificar as características do trabalho e impactar a vida das pessoas. “A humanidade caminha da sociedade industrial em direção à sociedade da informação. É necessário captar a natureza destas transformações para perceber seus efeitos na morbidade dos trabalhadores” (Wünsch Filho, 2004, p. 105).

De acordo com Cohn, Hirano, Karsch e Sato (1985) consideram o acidente de trabalho grave como uma forma, das mais brutais, de violência urbana, pois para os autores, essa violência não se limita apenas ao fato em si, dos acidentes de trabalho, mas envolve outras questões. “Violência essa que não se limita ao momento do acidente e à lesão física, na esmagadora maioria dos casos irreversível, mas que é apenas o início de uma longa trajetória marcada fundamentalmente pelo desrespeito aos direitos mínimos de cidadania” (Cohn et al., 1985, p. 11).

Torna-se necessário destacar, por meio de fatos históricos, quando os acidentes se tornam mais frequentes na mídia. O aumento das notícias sobre acidentes envolvendo trabalhadores datam da década de 1970. Nessa mesma década destaca-se o processo de