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O Tribunal Penal Internacional e o terrorismo

2 A ÓTICA DA GUERRA

3.2 DESENVOLVIMENTO

3.2.2 A Organização das Nações Unidas e o terrorismo

3.2.2.2 O Tribunal Penal Internacional e o terrorismo

A ideia de criação de um Tribunal Penal Internacional (TPI) remonta à Liga das Nações. Apesar do crescente número de atentados bem sucedidos conduzidos contra personalidades políticas – ocorridos especialmente no final do século XIX e o início do século XX33 –, foi somente após a comoção causada pelo assassinato do Rei da Iugoslávia e do Ministro de Relações Exteriores da França, ambos ocorridos em 1934, que a Liga debruçou-se sobre o tema de forma mais atenta, buscando acionar o Direito Internacional contra os perpetradores destes assassinatos seletivos. Como resultado, em 16 de novembro de 1937, dois atos internacionais foram elaborados: a Convenção para a Prevenção e Repressão ao Terrorismo (CPRT) e a Convenção para criação de um Tribunal Penal Internacional. Ambos obtiveram baixo índice de adesão e não chegaram a entrar em vigor – a CPRT foi ratificada apenas pela Índia e a Convenção para a criação do TPI não recebeu nenhuma ratificação (SILVA, 2003).

Ao final da década de 90, finda a confrontação ideológica reinante durante a Guerra Fria e na sequência dos conflitos por emancipação nos Bálcãs, o TPI ressurgiu. Desta vez sob a égide da ONU, ele foi criado, em 17 de julho de 1998, como produto de uma conferência diplomática das Nações Unidas na cidade de Roma, com o intuito de legislar “sobre as pessoas responsáveis pelos crimes de maior gravidade com alcance internacional” (BRASIL, 2002c).

O Estatuto de Roma, em seu artigo quinto, estabelece a competência do TPI e quais os crimes graves considerados:

1. A competência do Tribunal restringir-se-á aos crimes mais graves, que afetam a comunidade internacional no seu conjunto. Nos termos do presente Estatuto, o Tribunal terá competência para julgar os seguintes crimes: a) O crime de genocídio;

b) Crimes contra a humanidade; c) Crimes de guerra;

d) O crime de agressão (BRASIL, 2002c).

32 Erga omnes: “É um termo jurídico em latim que significa que uma norma ou decisão terá efeito vinculante, ou

seja, valerá para todos. Por exemplo, a coisa julgada erga omnes vale contra todos, e não só para as partes em litígio” (DireitoNet, 2010).

33 Foram assassinados no período: o Presidente da França, em 1894; o Primeiro Ministro da Espanha, em 1897;

a Imperatriz da Áustria em 1898; o Rei da Itália em 1900; o Presidente dos Estados Unidos em 1901; e o Primeiro Ministro da Espanha em 1912.

Novamente, há grandes divergências entre os juristas sobre o terrorismo estar ou não incluído na relação de crimes submetidos à avaliação do TPI. Para alguns, “O crime de terrorismo não é tipificado no Estatuto de Roma, o que impediria (em princípio) a sua apreciação por este tribunal” (BRANT, 2004, p. 191) e “A leitura do artigo 5º, do Estatuto de Roma, não nos autoriza expressamente concluir pela jurisdição do Tribunal Penal Internacional para o crime de terrorismo internacional” (SILVA, 2003, p. 250). Já outros, interpretam que o terrorismo poderia ser incluído dentro da categoria de genocídio34, mas, segundo José Cretella Neto, tal visão seria confrontada com o fato do terrorismo possuir um caráter seletivo em suas ações violentas, distintamente do genocídio, que seria dotado de uma vertente essencialmente voltada para o completo extermínio (NETO, 2008). Outra tendência a se considerar seria a inserção do terrorismo dentro da categoria de crimes contra a humanidade35. Tal perspectiva, caso fosse amplamente aceita, traria a vantagem de um maior envolvimento de toda a comunidade internacional, tornando obrigatória a cooperação dos Estados, mas, mesmo assim, ainda restaria vencer a resistência à aceitação do próprio TPI por parte dos Estados36, que ainda tendem a vê-lo com desconfiança e reserva, devido à sua esfera jurídica supranacional. Quanto aos demais crimes graves de competência do Tribunal, os crimes de guerra já foram debatidos em seção anterior, sendo possível identificar as dificuldades em tratar o terrorismo segundo o DIH; e o crime de agressão, até o momento, não foi tipificado37. Até o momento, o TPI não julgou nenhum caso de terrorismo internacional.

34 O crime de genocídio é explicitado e definido no artigo sexto do Estatuto de Roma: “[...] entende-se por

genocídio, qualquer um dos atos que a seguir se enumeram, praticado com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, enquanto tal: a) Homicídio de membros do grupo; b) Ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo; c) Sujeição intencional do grupo a condições de vida com vista a provocar a destruição física, total ou parcial; d) Imposição de medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo; e) Transferência, à força, de crianças do grupo para outro grupo” (BRASIL, 2002c).

35 O crime contra a humanidade é explicitado e definido no artigo sétimo do Estatuto de Roma: “[...] entende-se

por “crime contra a humanidade”, qualquer um dos atos seguintes, quando cometido no quadro de um ataque generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque: a) Homicídio; b) Extermínio; c) Escravidão; d) Deportação ou transferência forçada de uma população; e) Prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave, em violação das normas fundamentais de direito internacional; f) Tortura; g) Agressão sexual [...] ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade compatível; h) Perseguição de um grupo ou coletividade que possa ser identificado, por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou de gênero, [...]; i) Desaparecimento forçado de pessoas; j) Crime de apartheid; k) Outros atos desumanos de caráter semelhante, que causem intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental” (BRASIL, 2002c).

36 Até 21 de julho de 2009, 110 países eram Estados Parte do Estatuto de Roma – o Brasil encontra-se entre

estes Estados. Dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, dois não aderiram ao Estatuto de Roma – Estados Unidos e China (INTERNATIONAL CRIMINAL COURT, 2009).

37 Artigo 5º. Crimes de Competência do Tribunal. [...] 2. O Tribunal poderá exercer a sua competência em

relação ao crime de agressão desde que, nos termos dos artigos 121 e 123, seja aprovada uma disposição em que se defina o crime e se enunciem as condições em que o Tribunal terá competência relativamente a este